17 de janeiro de 2019

|Poética #7 | Ricardo Aleixo

De Belo Horizonte (MG), poeta, músico e artista visual, Ricardo estreou na poesia em 1992, com ‘Festim’

Literatura

Ricardo Aleixo nasceu em Belo Horizonte-MG, 1960. É poeta, músico, produtor cultural, artista visual e pesquisador intermídia. Autodidata, atua em diversas áreas, sobretudo nas poéticas experimentais com a voz. Fez sua estreia na poesia em 1992, com o livro Festim. Publicou, ainda, Impossível como nunca ter tido um rosto, Modelos vivos, Antiboi e pesado demais para a ventania (antologia poética), da qual saíram os poemas abaixo.

 

Convivo muito bem com os cães da rua


Convivo muito bem com os cães da rua.
Me apraz o velho e bom modo de vida
que os faz, sem ter do que cuidar na vida,
medir distâncias de uma a outra rua.

Comparto com os cães o ar da rua.
Se um deles me dirige um riso cardo,
como quem dissesse "E aí, Ricardo?",
respondo-lhe: "Olá, irmão!" E a rua,

que até há pouco era só mais uma rua
por onde vadiavam um cão e um bardo
(cada um caçando, do seu jeito, a vida),

me obriga a distinguir, nela, o que é vida
real do que será, quem sabe, um tardo
sinal do quão são irreais o cão e a rua.

 

Exílio

Escapar
da escola

e estender
ao mundo

meu
exílio.

Abrigar
em mim

mesmo
o mestre

e o
Emílio.
 

Antiboi
 

a vida como, p. ex., um anti-
boi de parintins: (porque)
nada é caprichoso,
nada é

garantido.

 


Na noite calunga do Bairro Cabula


Morri quantas vezes 
na noite mais longa?

Na noite imóvel, a 
mais longa e espessa,

morri quantas vezes
na noite calunga?

A noite não passa
e eu dentro dela

morrendo de novo
sem nome e de novo

morrendo a cada
outro rombo aberto

na musculatura
do que um dia eu fui.

Morri quantas vezes 
na noite mais rubra?

Na noite calunga, 
tão espessa e longa,

morri quantas vezes 
na noite terrível?

A noite mais morte
e eu dentro dela

morrendo de novo
sem voz e outra vez

morria a cada
outra bala alojada

no fundo mais fundo
do que eu ainda sou

(a cada silêncio
de pedra e de cal

que despeja o branco
de sua indiferença

por cima da sombra
do que eu já não sou

nem serei nunca mais).
Morri quantas vezes

na noite calunga?
Na noite trevosa,

noite que não finda, 
a noite oceano, pleno

vão de sangue, 
morri quantas vezes

na noite terrível,
na noite calunga

do bairro Cabula? 
Morri tantas vezes

mas nunca me matam
de uma vez por todas.

Meu sangue é semente
que o vento enraíza

no ventre da terra
e eu nasço de novo

e de novo e meu nome
é aquele que não morre

sem fazer da noite
não mais a silente

parceira da morte
mas a mãe que pare

filhos cor da noite
e zela por eles,

tal qual uma pantera
que mostra, na chispa

do olhar e no gume 
das presas, o quanto

será capaz de fazer 
se a mão da maldade

ao menos pensar
em perturbar o sono

da sua ninhada.
Morri tantas vezes

mas sempre renasço
ainda mais forte

corajoso e belo
- só o que sei é ser.

Sou muitos, me espalho
pelo mundo afora

e pelo tempo adentro
de mim e sou tantos

que um dia eu faço
a vida viver.

 

Palavrear

 

Minha mãe me deu ao mundo
e, sem ter mais o que me dar,

me ensinou a jogar palavra
no vento pra ela voar.

Dizia: “Filho, palavra
tem que saber como usar.

Aguilo é que nem remédio:
cura, mas pode matar.

Cuide de pedir licença,
antes de palavrear,

ao dono da fala, que é
quem pode lhe abençoar

e transformar sua língua
em flecha que chispa no ar

se o tempo for de guerra
e você for guerrear

ou em pétala de rosa
se o tempo for de amar.

Palavra é que nem veneno:
mata, mas pode curar.

Dedique a ela o cuidado
que se deve dedicar

às forças da natureza
(o bicho, a planta, o ar),

mesmo sabendo que a dita
foi feita pra se gastar,

que acaba uma, vem outra
e voa no seu lugar”.

Ainda ontem, lá em casa,
me sentei pra conversar

com as minhas duas meninas
e desatei a lembrar

de casos que minha mãe
se esmerava em contar

com luz de lua nos olhos
enquanto cozia o jantar.

Não era bem pelo assunto
que eu gostava de escutar

aquela voz que nasceu
com o dom de se desdobrar

em vozes de outras eras
que tornarão a pulsar

sempre que alguém, no vento,
uma palavra jogar.

Gostava era de ver
a voz dela inventar

mundos inteiros sem quase
nem parar pra respirar

e ganhar corpo e fazer
minha cabeça rodar

como roda, ainda hoje,
quando, pra me sustentar,

eu jogo palavra no vento
e fico vendo ela voar

(jogo palavra no vento
e fico vendo ela voar)

 


O Poemanto 
ensaio para escrever (com) o corpo


Sou, quando coloco sobre 
meu corpo (negro) 
o pedaço de pano (preto) 
coberto por palavras grafadas 
com tinta (branca) 
ao qual dei o nome 
de poemanto, 
um performador.


Movendo-me ali, 
na exiguidade espacial 
das efêmeras formas escultóricas 
produzidas pelas corpografias 
que improviso, 
tenho vivido situações que, 
por ultrapassarem 
a dimensão da performance 
(como gênero artístico), 
projetam-me numa zona 
de percepções expandidas, 
em nada semelhantes a 
experiências vivenciadas 
no cotidiano.


Como performador, 
esforço-me para seguir 
a única instrução 
de que consigo me recordar 
enquanto tento grafar com o corpo 
no espaço: deixar para trás 
os cadáveres, se não for possível 
enterrá-los com dignidade, 
ou incinera-los 
e espalhar suas cinzas ao vento.


Porque errar pela cena-mundo 
com um cadáver às costas 
é correr o risco de ceder 
de vez à loucura 
(Arthur Bispo do Rosário 
bordou em um de seus estandartes: 
“Todo louco tem um morto 
que ele carrega nas costas. 
O louco só fica bom quando 
se livra do morto”), tantas são as vias 
que se abrem tão logo começa 
cada novo começo.


Abandonar o cadáver 
de algum outro morto, 
mas não a sombra 
da minha própria morte, 
que está ali onde estou, 
está aqui e sempre comigo, no 
tempo “saturado 
de agoras” (Octavio Paz) 
que é o da vida 
em forma de arte.


As palavras escritas no poemanto 
foram extraídas do meu poema 
“Para uma eventual conversa sobre poesia 
com o fiscal de rendas”, 
publicado em 2001 
no meu terceiro livro, Trívio.


Há, aí, uma pequena perversão: 
apesar de o poema 
figurar o inventário, por meio de 
associações sonoras, de minhas 
únicas verdadeiras posses (“meus próprios olhos/ 
meus próprios ovos”, 
“meus próprios glóbulos/ 
meus próprios lóbulos” 
etc.), todo o trabalho 
foi confeccionado 
por mãos alheias 
- as das cantoras/atrizes
que integravam, em junho 2000,
a primeira formação 
da Sociedade Lira Eletrônica Black Maria, 
que fundei e dirigi até 4 anos depois, 
com o músico e ator Gil Amâncio.


Desde sua primeira utilização, 
o poemanto – que só passou 
a ter esse nome de 2005 para cá – nunca foi lavado. 
Cultivo o mito pessoal de que nele 
se conservam as energias 
do piso de cada lugar de força 
(nem sempre performo em palcos) 
em que “o usei”.


Largar o poemanto pelo chão, 
depois de rodopiar pela cena, equivale, 
torno a dizer, a deixar para trás 
o que possa haver 
de morto grudado à segunda pele 
em que ele se tornou para mim 
naqueles instantes sem fim e sem começo, 
naquele espaço sem bordas visíveis 
constituído só por centros que, 
mais e mais, 
se (e me) descentram.

10 
Não por acaso, Reynaldo Jimenez, 
poeta peruano radicado na Argentina, 
disse do poemanto, 
que ele viu num pequeno vídeo 
disponibilizado por mim na internet, 
que aquela estranha fusão de sujeito-objeto 
“por momentos es un devenir animal, medusa, 
mantarraya...”

11 
Com os parangolés de Hélio Oiticica, 
aos quais tem sido frequentemente comparado, 
o poemanto se relaciona apenas quanto ao fato 
de que, sem um corpo que os vista 
e evolua com eles, não constituem, 
em si, obras de arte.

12 
As evoluções que faço pela cena 
quando coberto 
pelo poemanto não aspiram 
à condição de dança. 
Embora não deixem de lançar 
uma interrogação acerca 
do que é, afinal, a dança. E sobre 
quem pode dançar 
(pergunta insistentemente repetida, 
nas últimas décadas, por muitos daqueles 
que têm a dança como ofício).

13 
Não é, contudo, por cautela 
ou modéstia, ou ambos 
os sentimentos juntos, 
que prefiro dar à presentificação 
do meu corpo em cena 
a denominação de corpografia. 
É, antes, para frisar que, ainda aí, 
é uma forma de escrita o que almejo.

14 
O que quer que meu corpo escreva, 
ou que se escreva/inscreva nele, será sempre 
para leitura de um outro 
tal possível escritura. 
O poeta Chacal disse em algum lugar, 
com respeitosa graça, 
que o poemanto é um 
“embrulho de gente letrada”.

15 
Com o corpo, sei que grafo lá onde 
nenhum “onde” é mais (ou ainda) possível, 
senão como imagem que se desfará 
tão logo venha a ser percebida. 
Tudo é texto, mesmo 
que não de todo legível. 
Tudo (em nós), afinal, é texto: 
vide a sequência genômica.

16 
Mas nem tudo é palavra. 
Nem a palavra pode tudo. 
Porque também somos imagem 
(em ininterrupta, mas descontínua 
movência): rastro de coisas i/móveis 
que nenhum nome, 
palavra nenhuma designa. 
Porque já não há tempo. 
Ou porque o tempo não existe.

17 
Só por aí se pode tentar 
“ler adequadamente” 
o poemanto: em seu deslizar 
(no limiar da legibilidade) 
entre outras imagens/corpos 
que se interrelacionam na cena.

18 
No poemanto, sob as temporalidades 
em colisão que o atravessam, 
a ideia de “obra” (ainda que “aberta”,
para citar o conceito trabalhado 
inicialmente por Haroldo de Campos, 
em meados da década de 1960, 
quase em paralelo 
com o desenvolvimento 
das teses de Umberto Eco 
acerca do mesmo tema) é golpeada 
por uma tão violenta 
valorização do processo 
que me vejo obrigado 
a definir o que faço como 
“obras permanentemente em obras”.

19 
E nem serei eu, 
pseudo-oficiante 
de um precário rito que sequer 
se traduz em alguma 
promessa de felicidade, 
quem conseguirá, 
só por força do modo 
como opera, produzir os termos 
de inteligibilidade 
do poemanto: é aquele que outrora 
se dava o nome de espectador 
que cabe a talvez impossível proeza 
de fazer do manto um poema.

20 
Em Providence, EUA, 
maio de 2006, 
pessoas em busca 
de seus lugares na plateia 
passavam rentes à minha cabeça,
quase pisando-a, 
quando eu era ainda só 
um pedaço de pano preto, 
quase invisível, largado no chão;
em Maceió, novembro 
do ano seguinte,
lancei-me a certa altura 
da performance 
contra o fundo preto do palco,
no voo zonzo do giro 
sobre meu próprio eixo,
sem ter a mínima ideia quanto
ao que me esperava
do outro lado 
da frágil parede: 
como não pretender que os riscos 
que efetivamente corro 
ao habitar o poemanto 
não sejam partilhados, 
ao menos no plano simbólico, 
por quem me vê e ouve?

21 
O poemanto, 
o que sei 
que ele é: 
formas em (de)formação. 
Em (lenta) dispersão. 
Vide, novamente, 
o mapa genômico. 
Vide a vida.

22 
O poemanto, observam 
alguns dos “que sabem”,
lembra o rito dos Eguns. 
Concordo em parte. 
E aponto: num e noutro caso, 
a morte desempenha 
funções diferentes.

23 
Elogio do excesso, 
do desperdício, 
da indistinção entre o sentido 
e o não-sentido. 
Passagem para zonas 
ainda não mapeadas
da (minha) consciência.

24 
Elogio da lentidão, 
para citar o belo título 
de um ensaio fundamental 
do geógrafo-pensador 
Milton Santos, o poemanto 
é um modo de contestação 
das velocidades 
(nem todo evento 
múltiplo e simultâneo 
é necessariamente rápido) 
que constituem o espaçotempo 
da modernidade (e desse seu
rebento prematuro a que 
se tem dado o nome de 
pós-modernidade).

26 
Está mais que visto: 
o poemanto tem partes com Exu. 
o embaralhador 
de cartas sígnicas, 
o que detém o controle sobre 
“a infinita permutação 
do que poderia ser” 
(a frase, usada em outro
contexto, é de Paul D. Miller, 
a.k.a. DJ Spooky, 
That Sublime Kid, 
um dos pensadores-artistas 
mais originais do Black Atlantic).

27 
O poemanto não é 
um mapa genômico: 
um mapa genômico 
pode ser um poemanto.

-----

|POÉTICA| lugar aberto para poemas e falas de poetas é uma seção assinada por Fernando Ramos, idealizador e coordenador da FestiPoa Literária e curador de literatura da Clandestina. 

Compartilhe
GALERIA DE FOTOS