06 de dezembro de 2018

Três perguntas para Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, diretores de Tinta Bruta

Vencedor do Festival de Cinema do Rio, filme estreia nesta quinta-feira (6)

Cinema

Entrevista por Amanda Zulke
Foto: Divulgação

 

Grande vencedor do Festival Internacional de Cinema do Rio, Tinta Bruta chega às salas de cinema hoje (6). O filme nos mostra a história de Pedro, interpretado por Shico Menegat, estreante na atuação. Com o codinome GarotoNeon, o jovem faz do seu personagem virtual o escudo para sobreviver a uma sequência de abandonos em meio a uma cidade hostil.

Tendo Porto Alegre como cenário, Tinta Bruta foi dirigido, produzido e atuado por porto-alegrenses. Filipe Matzembacher e Marcio Reolon firmaram mais uma parceria de êxito na direção; juntos, dirigiram também o longa ‘Beira-Mar’, além de outros curta-metragens. Conversamos com eles sobre a preparação do elenco – além de Shico, o ator Bruno Fernandes também fez sua estreia no cinema, e sobre fazer cinema hoje no país.

1) Como se deu a escolha por Shico Menegat e Bruno Fernandes, um não-ator e um ator, e o processo de construção dos dois personagens? 

A gente teve um processo de elenco bem interessante. O Bruno, na verdade, é ator de teatro, faz parte de um grupo de teatro de Porto Alegre chamado Pretagô, superinteressante. A gente assistiu uma peça em que ele atuava, gostamos muito da performance dele e sabia que queria trabalhar com ele um dia. Quando a gente estava escrevendo o roteiro e surgiu esse personagem, o Léo, na hora pensamos nele; porque é um personagem, assim como o Bruno, muito solar, uma pessoa que entra na sala e toma conta com a energia que tem. Então a gente pensou nele desde o início. Já para encontrar o Pedro, foi um pouco mais difícil. A gente queria um personagem que aparentasse uma certa fragilidade, mas que no olhar tivesse uma intensidade que nos fizesse crer que em determinada situação ele poderia reagir e cometer um ato violento. Então ficamos procurando um ator de Porto Alegre, porque o filme fala muito de Porto Alegre também, por um certo tempo, mas não encontramos. Até que um dia eu e o Márcio estávamos em uma festa e vimos o DJ. O DJ era o Shico. Ele tava na festa, com aquele cabelo preto pesado quase cobrindo o rosto, bem magro, todo tatuado. E aí na hora a gente pensou no Pedro. Fomos falar com ele, combinamos um café, ele leu o roteiro, super se interessou pelas coisas que nós queríamos contar no filme, mas ele falou: “olha, eu nunca atuei antes”. Então a gente fez um processo de sete meses com ele e com o Bruno, que também não tinha experiência em cinema, só em teatro. Foi um processo de sete meses de ensaio muito bonito, muito rico, a gente conseguiu trocar muito, sabe? E somos muito orgulhosos do resultado final, do desempenho dos meninos.

Sobre a construção dos personagens, quando eles entraram no projeto, já tinha um roteiro, mas uma coisa que nós fazemos sempre é estar em constante reescrita do roteiro. Estar sempre atento ao que os espaços nos dizem, os atores, ao que o elenco tem a nos dizer. Então assim, o Pedro e o Léo já estavam presentes no roteiro desde o início, mas certamente o Shico e o Bruno contribuíram muito, inclusive para complexificar mais ainda esses personagens.

                                 

2) Os abandonos sofridos pelo protagonista Pedro, interpretado por Shico Menegat, são familiares a muitas pessoas, especialmente do público LGBT. Fazer um filme como Tinta Bruta é também uma forma de abraçar essas pessoas? 

Acho que sim, acho que a sociedade pode ser muito hostil, do jeito que ela é estruturada, e os indivíduos dentro dela replicam isso com alguns grupos sociais. Tinta Bruta coloca em foco o personagem do Pedro, então acho que é uma forma de abraçar, porque uma das coisas mais potentes que a gente pode experimentar é olhar numa tela grande e se ver ali, seja na figura, no corpo que está na tela, ou naquelas questões e problemas, na relação que aquele personagem tem como a cidade ou com o momento que está passando. Acho que uma pessoa pode olhar a tela e se sentir representada, e isso tem uma força muito grande.

 

3) Pode-se dizer que o cinema nacional vive um bom momento, com diversas produções premiadas em festivais dentro e fora do país; ao mesmo tempo, os mecanismos de incentivo à cultura vêm sofrendo um sucateamento crescente. Como será, na expectativa e opinião de vocês, fazer cinema em um contexto político que tem se desenhado mais conservador do que nunca? Como é a ideia de fazer cinema em tempos brutos?

Esse é um momento bem complexo, né? Porque o Brasil nos últimos anos criou uma indústria cinematográfica super autossuficiente, que tem uma pluralidade e um reconhecimento, especialmente no exterior, muito grande. Pluralidade de vozes, de autores, de corpos na tela, que é muito bonito, assim. E deveria ser motivo de orgulho pra qualquer pessoa que se diz patriota. Então esse processo de fortalecimento e de pensar em um cinema nacional como uma força, começou ali no início dos anos 2000 e foi em uma crescente. Agora nos últimos dois anos começou um sucateamento e, mais do que sucateamento, começou a se repensar, o que eu acho bem negativo, essa questão da diversidade, fazendo com que menos pessoas tenham acesso a fontes de financiamento. O que é um problema muito sério, porque eu acho que toda essa potencialidade do cinema nacional está na sua diversidade, né? E agora com a sociedade ficando cada vez mais conservadora, acho que o cinema vai ter um papel social essencial. E a gente espera que realmente as pessoas que usam a palavra patriotismo pensem na potência que o cinema nacional tem hoje, e pode ter ainda mais se isso se tonar prioridade.

 

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