05 de dezembro de 2018

Morrostock 2018 e a arte do encontro

Festival com três dias de música em meio à natureza vem se consagrando como uma verdadeira celebração à arte e à liberdade

Música

Texto: Amanda Zulke
Fotos: Gil Tuchtenhagen 

É preciso amor pra poder pulsar, paz pra poder sorrir, chuva pra florir, já diziam Almir Sater e Renato Teixeira em “Tocando em frente”. Podemos aplicar esses três elementos no segredo de mais um Morrostock costurado com êxito no sul do país. Naquele pedaço de paraíso que é o Balneário Ouro Verde, localizado perto de Santa Maria/RS, abundantes doses de amor e paz e pontuais caídas de chuva marcaram presença na edição de 2018 – assim como vêm marcando noutras edições do festival.

De 30 de novembro a 2 de dezembro, uma mistura de gente levou mochilas e expectativas pra assistir alguns dos melhores shows do ano concentrados num só evento. Com mais de 30 bandas, entre nomes mais conhecidos do cenário brasileiro, convidados latino-americanos e grupos independentes que vem se destacando na música, o Morrostock dançou com as dificuldades características do momento social e político que se enfrenta no país e deu de presente aos que compareceram uma experiência de valor inestimável. Letrux, Cordel do Fogo Encantado, Dingo Bells, Carne Doce e Bloco da Laje reuniram o público em peso para assistir a performances já consagradas no palco. Outras bandas como Baleia, Paola Kirst e Kiai Grupo, Três Marias, Bia Ferreira e Supervão também arrebataram novos fãs e fisgaram o público, que revezava-se nos palcos Pachamama, a céu aberto, e Pacal, coberto e um pouco menor.

Acampada em barracas, gente vinda da capital, do interior, do restante do Brasil ou de fora do país reuniu-se num só lugar, a um só tempo. Esse tipo de encontro real, fora das telas, tão raro em tempos virtuais, é, junto da diversidade sonora, o grande triunfo de um evento como o Morrostock. Enfraquecido por um individualismo crescente, o convívio em comunidade, misturado ao prazer da música, é a receita-base do festival nascido em 2007. É do rol daquelas singelas, porém fecundas revoluções, é do naipe das utopias que alimentam a humanidade. É a tão falada micropolítica tão necessária em tempos ásperos como os nossos.

Considerado um mundo à parte por frequentadores de carteirinha e pela própria organização do festival, não é difícil concordar com a afirmação. Alguns dos problemas provavelmente enfrentados pela produção do evento, como o difícil acesso - típico de uma zona rural, a distância dos centros urbanos e as intempéries da região sul, conferem um certo charme ao festival. Deixar de lado as comunicações incessantes do celular por falta de sinal, afastar-se do barulho e da poluição das grandes cidades e pegar uma estrada de chão com verde a se perder de vista pode até desagradar pessoas mais urbanas, mas são fatores fundamentais para a sensação de se viver um tempo fora do tempo – alegria estampada nos semblantes despreocupados de quem viveu um Morrostock.

Fazer roda, tocar na mão da pessoa que pula ao lado, olhar nos olhos, emprestar um casaco, dividir uma cerveja, levantar um amigo na garupa, comemorar o sol, dançar com os pés na grama, enxergar alguém querido na multidão, segurar com outras mãos o corpo de uma artista levada por uma plateia cúmplice, comungar uma penca de shows grandiosos. Tudo que parece banal no desenrolar dos dias ganha aura de magia num festival que dá as pessoas, cada vez mais ensimesmadas em seus apartamentos, a possibilidade de celebrar o encontro por meio da arte.

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