30 de novembro de 2018

|Poética #6| Bruna Beber

Nascida em Duque de Caxias (RJ), a poeta e tradutora estreou na literatura em 2006, com 'a fila sem fim dos demônios descontentes'

Literatura

Bruna Beber nasceu em 1984, em Duque de Caxias (RJ), e vive em São Paulo. É poeta e tradutora. Estreou na poesia com a fila sem fim dos demônios descontentes (7Letras, 2006), e publicou também balés (Língua Geral, 2009), rapapés & apupos (7Letras, 2012), Rua da Padaria (Record, 2013) e Ladainha (Record, 2017). É autora do livro infantil Zebrosinha (Galerinha, Record, 2013), em parceria com Beta Maya. Seus poemas já foram publicados em antologias e sites na Alemanha, Argentina, Espanha, Itália, México e Portugal.

Os poemas a seguir foram retirados de “50 poemas de revolta” (antologia que reúne 34 poetas brasileiros), “Rua da padaria” e “Ladainha”.

 

Barragem

deve ser perigoso
esse gosto recorrente
de incêndio na boca

mas não há saliva
pra apagar e não há saliva que apague
por isso falo pouco

não sei o que de fato queima
fecho a boca e o fogo sai
pelo nariz

respiro mal, meu ar é qualquer fumaça
queria um gosto bom, queria pernas
pra sair correndo.
 

escorrego de chão

você não tem nada
mas tem a brisa
a brisa faaaz
carinho
tem futuro
pra ninguém
mas tem a brisa
e a brisa faaaz
carinho
o pão tem 6 mil
anos mas o mar
tem mais
você só tem
a brisa
em comum você
e o mar só têm
a brisa.

Romance em doze linhas

quanto tempo falta pra gente se ver hoje
quanto tempo falta pra gente se ver logo
quanto tempo falta pra gente se ver todo dia
quanto tempo falta pra gente se ver pra sempre
quanto tempo falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto tempo falta pra gente se ver às vezes
quanto tempo falta pra gente se ver cada vez menos
quanto tempo falta pra gente não querer se ver
quanto tempo falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto tempo falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto tempo falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto tempo falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu

bicicleta cargueira

felizes são
as gaivotas
voo de dedos
livres ao violão
movimentam discreto
outras aves
um mirante
em cada olho
e o mar de ponta
a ponta do alto
debaixo da luz
inteira do céu
tristes porém doces
inventaram o bolero.

esquina parábola

mamãe posso comer
essa pipoca
não pode minha filha
é macumba
macumba não pode comer
e o guaraná pode
ah mãe deixa.

de castigo na merenda

felicidade é o que tem dentro
das bolinhas de papel
e se arremesso
lá vai ela
pela porta na careca
do inspetor
brinca de pique aposta
corrida numa perna só
quica sobe vira pipa
nos braços livres do céu
cai de algodão
das nuvens
e de sono nas penas
dos travesseiros
a felicidade é muito mais
desconcertante que a dor.

 

**

43

Sei que não é o momento
mas espere um instante
escrevi a resposta
letra sincera, simulada educação
e cheguei ao final
morrendo de sede

Sei que não é o momento
mas espere, estava deserta
a casa, fiz uma ligação
para povoar a casa,
mas não fui atendida
que bom

Sei que não é o momento
mas aqui do lado tem ferrovia
o trem passa dentro de casa
o trem passou
passou como quem desiste
o trem raramente desiste de passar

E amanhã, amanhã
eu juro, amanhã eu vou
sair de casa
com a carta
pra longe
do trem

Sei que não é o momento
mas a carta não diz nada
demais, é como tudo
depois de tudo
a carta sou eu dormindo
a carta é alguém

jantando no escuro
Sei que não é mas eu digo
e vou dizer na ligação
assim que for atendida
e fui e é sua
a opção de deixar

o telefone no mudo
Sei que ele é quem persevera
célere, enérgico, vivaz
ligo, escrevo, canto, rio
para falar do instante
como este que dividimos agora

 

**

71

Na escada de incêndio
e sua inseparável
atmosfera de desastre

Um cego
de fones
tira fotos e grita

— Estamos todos juntos!
A rave do fim do mundo
é a mais longa de todas
São lindos os seus olhos
de ouriço, o foco turvejado
a dilatação, a queima

— Toda imagem é uma explosão,
e o que eu quero é criar
memória pros outros

Mas fatal mesmo é o jeito
de mexer as mãos, parece que pinta
longas estradas de terra.

 

**
89

Ser boa estudante apenas por amar
muitas professoras, a bolada na cara
logo depois e quase cair dentro de um poço
mas segurar na borda, lanhar o joelho

A teta na pedra, o rugido da amendoeira,
a dedada no cu do marreco, transformar
a bicicleta em mobilete com copo plástico,
se alimentar só de melancia e mate

Medo de areia movediça, esconder
papel de carta no terreno baldio,
perder um pé de tênis, achar
no ano seguinte e usar

Ser o rebelde atônito que age
em tempos sibilados, acertar o olho
do passarinho e queimar internamente
cada um dos planetas

Ver a gema do ovo estourar
pela primeira vez e se admirar
com o mar dourado partindo
pra cima do arroz e da farofa

Lembranças.

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Página da autora: http://brunabeber.com.br/

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|POÉTICA| lugar aberto para poemas e falas de poetas é uma seção assinada por Fernando Ramos, idealizador e coordenador da FestiPoa Literária e curador de literatura da Clandestina. 

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