29 de novembro de 2018

Cine Victoria: um diário póstumo

Encontro de gerações em Porto Alegre, cinema encerrou suas atividades depois de quase 80 anos de história

Cinema

Eu tenho 78 anos. Sou uma senhora idosa, por vezes cansada. Abrigo em minha casa famílias inteiras. Mães que levam seus filhos a passear depois de um dia cheio de atividades no centro de Porto Alegre; estudantes que usam do meio passe, aqui disponível para todos, várias vezes por semana.

Abrigo os desabrigados nas calçadas em frente a minha casa, generosa. Abrigo as crianças de colo, com orgulho, coisa que poucos fazem. Dizem por aí que sou democrática, acho que é porque não me importo com vestimentas e essas coisas. Na minha casa entra de chinelo, com lanche, com boné, sozinho ou com os amigos.

Eu sou de 1940, da época que os bondes andavam pela cidade e que Getúlio Vargas era presidente do Brasil. Eu sou da época em que as pessoas iam a cinemas localizados em prédios nas ruas e não nos shoppings da capital. Eu vi ditaduras, greves, lutas. A democracia se construiu na minha frente. Vi a construção também de um bocado de prédios novos, enquanto meus iguais iam perecendo.

Eu vi gente trazer seus filhos para me conhecer, e depois os filhos deles. Eu vi seus netos. Tem gente que me ama tanto e que vai sentir tanto a minha falta que quer emoldurar na parede uma lembrança minha, um ingresso de cinema.

Meu nome é Cine Victoria e hoje eu me despeço da minha Porto Alegre, do meu público, minha família.

 

O último cinema de calçada da capital fechou suas portas nessa quarta-feira, 28 de novembro, após 78 anos de atuação. Depois da venda do prédio onde localizava-se, os novos donos decidiram por subir o valor do aluguel do espaço que então abrigava o Cine Victoria para mais de 50% do valor original, quantia inviável para a manutenção do cinema.

O Cine Victoria era um cinema de circuito comercial acessível às camadas mais pobres da população, tanto por sua localização, quanto por seus preços baixos e sua dinâmica diferenciada: o empreendimento não se localizava em um shopping center e, também por conta disso, tinha poucas restrições com relação a vestimentas e hábitos ou contingências da plateia. “Bebês de colo eram sempre bem-vindos”, declarou Luiz Carlos Maurente, sócio do cinema.

Desde setembro o Cine Victoria vinha buscando parcerias públicas e privadas para custear a manutenção do espaço. No entanto, não obtiveram sucesso. Campanhas na internet também foram feitas, mas infelizmente o tradicional cinema não resistiu. O fechamento da Galeria aos domingos e feriados foi o golpe fatal e, neste dia 28, o Cine Victoria encerrou as exibições de filmes com muita emoção e repleto da companhia de uma fiel plateia. Para Luiz Carlos, o Cine era um “cinema de tradição em Porto Alegre.” Para os transeuntes que pela fachada histórica do prédio passarem, restarão as lembranças do espaço que por tantos anos uniu a tradição aos ávidos olhos de jovens espectadores, parte considerável do público do cinema. Um encontro de gerações.   

 

* Por Isabela Ribeiro. 

Compartilhe
GALERIA DE FOTOS