26 de março de 2021

Entrevista: Clarissa Ferreira lança financiamento coletivo do álbum LaVaca

A produção busca trazer uma ótica contemporânea e feminista à musica regional

Música

Por Mariana Moraes
Fotos: Luiza Padilha


A violinista, pesquisadora e compositora Clarissa Ferreira lançou neste mês a campanha de financiamento coletivo do seu primeiro álbum. O disco LaVaca é resultado de diversas pesquisas e inquietações de Clarissa em torno da música tradicionalista e nativista gaúcha. Composto por dez faixas, o álbum abordará questões como natureza e cultura, buscando trazer uma ótica contemporânea, feminista e crítica à musica regional. Nesse trabalho, a artista procura trazer novas narrativas sobre a identidade rio-grandense.

A ameaça das mineradoras ao ecossistema do Rio Grande do Sul, a degradação da pampa pelas monoculturas, a modificação genética da natureza e a política sexual da carne são alguns dos temas presentes nas composições. Com três singles e videoclipes lançados, LaVaca é o álbum de estreia de Clarissa Ferreira, que já é um nome marcante da cena musical. 

O valor arrecadado com a pré-venda de produtos e serviços, através do financiamento coletivo, custeará a produção do álbum que conta com uma grande equipe técnica e multi artística. Com valores a partir de R$ 15, é possível colaborar com o financiamento. A Clandestina conversou com Clarissa Ferreira sobre o novo projeto, música gaúcha e mulheres na composição regional. Confira!

Clandestina: Na divulgação do financiamento coletivo, tu explicas que vem de uma formação violinística eurocêntrica e que se afastou deste caminho em dado momento, tocando um tempo na música tradicionalista e nativista aqui do sul. Como foi essa trajetória? O que te aproximou da música tradicionalista? 

Clarissa: O contato com o tradicionalismo aconteceu na época em que cursava a faculdade de música em Pelotas. Fui convidada por amigos que faziam parte de grupos musicais de CTG (Centros de Tradição Gaúcha), que acompanham os grupos de danças. Em seguida fui convidada a tocar nos festivais nativistas, que são eventos de música inédita, um movimento forte que teve origem na década de 70. Atuei durante cerca de uma década nesses contextos e também em gravações e shows, acompanhando alguns artistas. O que me aproximou deste universo foi certamente a oportunidade de trabalho, pois haviam poucos violinistas atuantes neste gênero musical.

Clandestina: Como foi essa experiência na música regional e quais as principais inquietações que essa vivência te trouxe?

Clarissa: Foi um período em que adquiri uma super experiência profissional, conheci muitas cidades do estado, ajudou muito meu processo de amadurecimento como artista. Foi uma experiência feliz de um modo geral, fiz amigos, ganhei inúmeras premiações, concorri ao Prêmio Açorianos como instrumentista regional. Quando comecei a levar o tema “cultura gaúcha” para minhas pesquisas acadêmicas na área de etnomusicologia, começo a perceber os significados implícitos nessa cultura hegemônica e acabo não me identificando tanto. Ainda mais quando começo a estudar o feminismo e perceber como essas representações estão alicerçadas em performances do masculino e de um passado mítico, de um universo agro pastoril imaginado.

Foi um processo que levou alguns anos, um amadurecimento desse entendimento, até começar a compor e desejar construir novas narrativas sobre a identidade rio-grandense.

Clandestina: No blog Gauchismo Líquido, tu trazes diversas reflexões sobre a ausência do eu lírico feminino na composição regional. Como tu avalias o cenário da música tradicionalista atual em relação à representatividade feminina? Como as mulheres são retratadas na música gaúcha contemporânea?

Clarissa: Percebo que nos últimos anos têm surgido cada vez mais mulheres na música de uma forma geral e esse movimento acaba reverberando também na música regional. Ainda vejo que as representações estão muito voltadas à imagem da “prenda”, esse ideal construído e imaginado sobre o que seria a “mulher gaúcha”. Uma visão essencialista da mulher, pois a própria categoria “mulher” como conhecemos foi uma construção a partir da ótica masculina. 

Vejo que não é somente necessário que mulheres ocupem espaços de representação, mas que também problematizem esses estereótipos, através da performance e da linguagem artística, o que vejo acontecer de forma tímida ainda. O machismo é presente mesmo entre muitas mulheres dentro da cultura gaúcha, por uma questão de educação e de receio em perder seus espaços.

Clandestina: O LaVaca parece ser uma concretização de todas essas tuas pesquisas e inquietações. Como surgiu a ideia de produzi-lo e com qual propósito?

Clarissa: A vontade de produzir o álbum veio do desejo de registrar as composições que vêm sendo desenvolvidas nos últimos anos. O que me levou a compor foi perceber como a música pode ser uma ferramenta potente para levar uma mensagem, uma reflexão, pensando que a razão e os argumentos muitas vezes soam inconvenientes e que uma linguagem lúdica, imagética e imaginativa pode ser mais efetiva em uma mudança de padrão mental.

Clandestina: O LaVaca será um álbum de música tradicionalista? Quais os temas atravessam as composições?

Clarissa: O tradicionalismo por seu caráter de resgate tem uma visão bastante conservadora e fechada a outras influências e mudanças, então acredito que não se encaixaria neste rótulo. Imaginamos um disco com sonoridade acústica mas com instrumentação diversa, com arranjos de cordas, clarinete e fagote mas também acordeom, violão sete cordas. Nas composições, temos milongas mas também canções mais bossa, harmonias mais dissonantes. As letras de um modo geral falam sobre natureza e cultura. 

Nessa pesquisa para desenvolver algumas temáticas das canções gauchescas tradicionais com uma ótica contemporânea, feminista e crítica, acabaram surgindo temas como a degradação da pampa, a modificação genética da natureza, a questão de gênero e a construção da “mulher gaúcha”. Por hibridizar elementos regionais com influências da música popular brasileira e latino-americana de forma bem livre, acredito que não dê para considerar tradicionalista. Eu brinco que é música pós gaúcha (risos).

Clandestina: O financiamento coletivo do LaVaca possui três metas, sendo que a última envolve a produção de um álbum visual. Pode falar um pouco mais sobre essa ideia?

Clarissa: Como as interfaces de música atualmente estão muito ligadas à imagem, estamos planejando a criação do álbum visual, junto com as artistas Vitória Proença e Livia Koeche, já parceiras em outros trabalhos. A ideia é construir a narrativa do álbum para linguagens visuais, trazendo esses elementos simbólicos imagéticos para a história que vamos contar. Também vale dizer que o projeto visa criar um livro encarte disponível em formato digital e físico. Nele, será compartilhado o processo de pesquisa artística, além de letras, cifras e partituras.


Clandestina: Além de ti, quem mais está envolvido na produção do álbum?

Clarissa: Divido a produção com meu companheiro Lucas Ramos, que também é baterista, e com o amigo e músico Fabrício Gamboji. Eu e Lucas já viemos desenvolvendo várias coisas juntos, como nosso trabalho no Estúdio Mochila, e pensamos em convidar o Fabrício por ter uma super experiência como músico, compositor, arranjador e integrante da banda Dingo Bells. Ele dialoga bastante com a música sul-americana e contemporânea e também é um super estudioso e pensador de música. Acreditamos que irá contribuir muito com esse processo! Contaremos também com artistas muito talentosos do Rio Grande do Sul como Neuro Junior (violão sete cordas), Tamiris Duarte (contrabaixo), Ange Bazzani (fagote). Também tem participação das minhas parceiras As Tubas, da equipe do estúdio da Pedra Redonda e muitas outras novidades que contaremos em breve!

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