23 de março de 2021

Olivetti Lettera 32: novo livro de Carolina Panta

Segundo romance da autora, a obra apresenta histórias de três mulheres que têm em comum uma máquina de escrever

Literatura

Por Mariana Moraes
Fotos: Marília Dias

 

Diva, Eleonora e Maria Luíza. Três gerações de mulheres. Três histórias que se cruzam em uma máquina de escrever e nos prazeres e dores de ser mulher. Em Olivetti Lettera 32, novo romance de Carolina Panta, somos apresentados a essas três personagens. Cada uma delas recebe um livro, com seus nomes estampados nas capas. Os volumes contam suas histórias, retomando diversas situações marcantes da vida das protagonistas. “O livro resgata esse passado de cada uma delas, abordando questões como estereótipo, abuso sexual, maternidade, várias coisas que vão permeando a vida e que, na verdade, fazem parte do dia a dia de todas nós. Eu não diria que tem um único tema ligado ao feminino, mas diversos. Não é um livro que busca abordar uma questão, mas, sim, a vida de uma mulher da infância até a idade madura”, ressalta a escritora. 

Nesta quarta-feira (24), a autora Carolina Panta lança Olivetti Lettera 32 pela editora Zouk. Para marcar o lançamento, Panta e a escritora Clara Corleone promovem a live Personagens Femininas e outras profundezas no instagram, a partir das 20h. Durante o encontro virtual, elas conversam sobre as personagens de Olivetti Lettera 32 e resgatam outras mulheres marcantes da literatura. “A gente parte do livro e vai trazendo outras personagens que também lembrem esse universo. Personagens que também corrompam estereótipos e outras que ainda foram criadas sob um paradigma masculino”, explica Panta. 

Olivetti Lettera 32 tem como cenário Porto Alegre, atravessando a década de 20 até os dias atuais. “A Olivetti passa por todas elas durante essa caminhada. O fio condutor é essa questão da máquina, ela percorre a história das três em determinado momento”, conta a autora. Nessa jornada através de diversos tempos e vivências, é possível encontrar um pouco - ou muito - de nossas mães, avós, amigas e de nós mesmas nas trajetórias de Diva, Eleonora e Maria Luíza. 

As mulheres na literatura 

Olivetti Lettera 32 é o segundo romance de Carolina Panta. Assim como em seu primeiro livro, Dois Nós, as vivências femininas continuam sendo a principal fonte de inspiração e reflexão de Panta. Essa constante em sua escrita vem do desejo de romper com diversos estereótipos e preconceitos que ainda se perpetuam na literatura, principalmente ligados às personagens e à escrita feminina.  “Eu acho que uma literatura que é feita por mulheres e fala sobre mulheres ajuda a quebrar esse ciclo. Na verdade, nós, escritoras, somos muito julgadas por escrever uma literatura que é chamada por vezes de sentimentalista demais. Então, buscar escrever sobre mulheres é também tentar romper com esses estereótipos que continuam sendo reproduzidos do feminino”, explica a autora. 

Para a escritora, esses julgamentos não têm como base a qualidade das produções e se pautam em preconceitos. “O problema está em encarar a mulher como um ser de fato potente e criativo, que tem liberdade ao fazer sua própria literatura. A necessidade que se tem de enquadrar a mulher e o que ela faz nesses guetos é uma forma de nos colocar sob domínio do homem”, ressalta Panta. 

E não é de hoje que as mulheres enfrentam entraves para fazer literatura. Além dos preconceitos e estereótipos, as múltiplas jornadas de trabalho, que ainda fazem parte da vida de grande parte das mulheres, também afetam a produção literária feminina.  “O fazer literário da mulher se dá na sala de casa, porque a mulher, infelizmente, não tem uma licença para estar trancada num quarto produzindo. A literatura tem que fazer parte dos afazeres diários dela”, lamenta Panta. 

La Loba

Olivetti Lettera 32 não é a única novidade de Carolina Panta em 2021. Em janeiro deste ano, a escritora lançou a revista líteroartística La Loba. A publicação nasceu da necessidade de proporcionar um espaço voltado à literatura feminina, visto que grande parte das revistas literárias existentes no Rio Grande do Sul têm editoriais e curadorias feitas por homens. “Analisando coletâneas de textos que cada uma das revistas publicava, eu percebi que geralmente tinha duas ou três mulheres em meio a dez/quinze homens na publicação. Isso já foi uma coisa que me incomodou”, lembra a escritora. 

O nome La Loba surge da filosofia do livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola: “Essa necessidade da ressurreição de uma mulher selvagem e potencialmente criativa, que consiga se livrar dessas amarras e demonstrar de fato seu potencial. É um resgate dessa coisa que nasce com a gente meio que herdada das nossas ancestrais. E a La Loba tem essa pegada de um protagonismo feminino no campo da cultura”, explica Panta. 

A primeira edição da revista teve mais de mil acessos, e Carolina já prepara a terceira, que será publicada no dia 31 de março. “Existe uma série de amarras e questões mercadológicas que ainda pressionam a publicação feminina. Uma delas é essa questão de achar que o texto produzido por uma mulher não seja uma literatura grande ou que não trate de temas grandiosos que mereçam ser publicados. A ideia é que quanto mais mulheres forem publicadas, mais mulheres serão lidas, mais resenhas serão feitas, mais livros serão comprados e assim a gente vai. Num passo de formiga, começamos a mudar esse imaginário coletivo”, finaliza a autora. 

Para adquirir o livro Olivetti Lettera 32, acesse o site da editora Zouk. 


Mais sobre a autora: 

Carolina Panta nasceu em Porto Alegre e é professora de Língua Portuguesa e Literatura formada em Letras pela UFRGS. Editora da revista literária La Loba, é ativista em busca do protagonismo feminino na cultura. Tem na mulher seu tema principal de escrita, como em seu primeiro romance, Dois Nós. Olivetti Lettera 32 é seu segundo mergulho às profundezas da dor e do prazer de ser mulher.

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