23 de dezembro de 2020

Os 16 melhores livros nacionais de 2020

Do romance à poesia, confira os principais títulos brasileiros deste ano

Literatura

Por Mariana Moraes

2020 foi um ano muito difícil, com muitas perdas e desafios para toda sociedade brasileira. O meio artístico e os trabalhadores da cultura foram alguns dos mais impactados pela pandemia da Covid-19 em todo o país, e, mesmo com tantas adversidades, ainda conseguiram entregar produções de qualidade para nos consolar e entreter nos dias de isolamento social. 

De norte a sul, a produção literária foi intensa - livros de todos os gêneros e para todos os gostos foram lançados ao longo do ano. Do romance à poesia, escritores de todo o país produziram obras relevantes, apresentando ricos retratos do nosso tempo e das injustiças, angústias e dúvidas que permeiam as relações e a sociedade brasileira. Entre tantas produções, a Clandestina selecionou os 16 livros mais marcantes do ano de 2020. Confira:

 

O avesso da pele, de Jeferson Tenório

O livro narra a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca do passado da família para refazer os caminhos paternos. Com uma narrativa sensível e por vezes brutal, Jeferson Tenório traz à superfície um país marcado pelo racismo e por um sistema educacional falido, e um denso relato sobre as relações entre pais e filhos.

 

Batendo Pasto, de Maria Lúcia Alvim

É o primeiro livro de poemas de Maria Lúcia Alvim após 40 anos sem publicar inéditos (até o ano de 1980 ela teve 5 livros publicados). A chegada desta obra em 2020 se mostra como um verdadeiro acontecimento, pois é fruto de um trabalho conjunto que envolve descobertas, recuperação crítica e encontros fortuitos. Guilherme Gontijo Flores e Ricardo Domeneck foram os responsáveis por esse périplo em busca das publicações e informações sobre a poeta.

 

Canções de Atormentar, de Angélica Freitas

Oito anos depois da publicação do já célebre Um útero é do tamanho de um punho, a autora traz em seu novo livro um olhar afiado, com inteligência e ironia, observando a si e ao mundo. Os poemas rememoram a infância no Sul, com o pé de araçá plantado pela avó, relatam o esforço inútil de tentar compreender o Brasil de hoje e discutem a injustiça, o machismo e a nostalgia de uma nação que não passou de projeto.

 

Os Supridores, de José Falero

No primeiro romance do autor, Falero nos leva direto ao supermercado Fênix, na região central de Porto Alegre. É ali que trabalham Pedro e Marques, dupla que aos poucos veste a carapuça de um Dom Quixote e de um Sancho Pança amotinados. Moradores de vila, eles invertem o jogo mesmo que as consequências sejam graves. Os dois conhecem pessoas que traficam na periferia onde moram, por isso insistem em se manter na legalidade. Mas, diante de uma “seca” de maconha devido ao desinteresse dos traficantes em comercializá-la, e já cansados da exploração do trabalho, os dois amigos decidem entrar para o tráfico. 

 

Terra nos Cabelos, de Tônio Caetano

Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura na categoria Contos, o livro reúne 15 contos protagonizados por mulheres, encantando pela força e pela dinâmica das histórias. Os contos deste livro se propõem a uma espécie de investigação do íntimo, das descobertas do outro, e instigam o leitor a mergulhar na vida dos personagens, abordando temas como mundo do trabalho, o primeiro beijo, ritos de iniciação e violências externas e internas a que as mulheres são submetidas. 

 

As sobras de ontem, de Marcelo Vicintin

No romance, dois narradores privilegiados se alternam para contar cada um a sua história. Um deles é Egydio, herdeiro de uma empresa de navegação, que cumpre pena em prisão domiciliar após ser flagrado por uma força-tarefa da Polícia Federal; a outra é Marilu, espécie de arrivista em busca da imagem perfeita, mergulhada num presente frenético e incerto. São personagens que não buscam a simpatia do leitor, pelo contrário. Mas seu encanto está justamente no que neles há de corrompido. O livro é um retrato da degradação da elite econômica brasileira. 

 

Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso

É uma manhã qualquer quando Maju atravessa a praça ao lado de Cora. Puxando a menina pelo braço, Maju sobe a avenida, pega um ônibus e desaparece. Afundada numa crise pessoal, Fernanda, mãe de Cora, demora a perceber que Maju e a menina sumiram sem dar notícias. O sequestro de Cora abala as engrenagens do passado e do presente, do desejo e do ressentimento, e a procura desesperada que se segue é também um doloroso acerto de contas com a vida e as expectativas que construímos. Suíte Tóquio é um romance vertiginoso e tragicômico que fala daquele lugar tênue entre o que as pessoas querem ser e o que de fato são.

 

O pequeno príncipe preto, de Rodrigo França

Em um minúsculo planeta, vive o Pequeno Príncipe Preto. Além dele, existe apenas uma árvore Baobá, sua única companheira. Quando chegam as ventanias, o menino viaja por diferentes planetas, espalhando o amor e a empatia. O texto é originalmente uma peça infantil que já rodou o país inteiro. Agora, Rodrigo França traz essa delicada história no formato de conto, presenteando o jovem leitor com uma narrativa que fala da importância de valorizarmos quem somos e de onde viemos. 

 

A matéria inacabada das coisas, de Marcelo Martins Silva

Segundo livro do autor, a obra reúne poemas produzidos entre 2019 e 2020, posteriores a seu livro de estreia O que carrego no ventre. O percurso pelos textos demonstra, além do apuro técnico para construir uma linguagem própria, uma grande paixão pela poesia, sentimento que transborda e emociona, mesmo quando expõe a carne viva dos dias. Os poemas atravessam temas como cotidiano, as dores, as belezas e os fatos e busca desfazer as hipocrisias da verdade.

 

Corpos Secos, de Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado

Uma doença fatal assola o Brasil e o transforma em uma terra pós-apocalíptica: sem governo, sem leis e sem esperanças. Os sobreviventes tentam cruzar o país em busca de um porto seguro. Um jovem aparentemente imune à doença está sendo estudado por uma equipe médica e precisa ser protegido a qualquer custo; uma dona de casa vive em uma fazenda no interior do Brasil e se encontra sozinha precisando reagir para sair de seu isolamento; uma criança vê a mãe tentar de tudo para salvar a família e fugir do contágio; uma engenheira de alimentos percebe que seus conhecimentos técnicos talvez não sejam suficientes para explicar o terror que assola o país. Juntos, eles vão narrar suas jornadas, em busca do último refúgio ao sul do país.

 

Solução de Dois Estados, de Michel Laub

O livro traz um romance sobre ódio, perdão e os modos como nossa intimidade é definida pela política e pela barbárie do nosso tempo. Na obra,  uma cineasta alemã, marcada por um trauma, prepara um documentário sobre a violência brasileira. Os principais entrevistados são dois irmãos: Raquel, artista de cento e trinta quilos cujo trabalho se baseia em episódios que a levaram a detestar o próprio corpo, e Alexandre, empresário que atua no ramo fitness na periferia de São Paulo. Ambos foram escolhidos por causa da repercussão mundial de uma agressão que Raquel sofreu, no início de 2018, durante um debate sobre arte e política num hotel da capital paulista.

 

Todas as Cartas, de Clarice Lispector, organização de Larissa Vaz

O livro reúne correspondências escritas por Clarice Lispector ao longo de sua vida. A seleção de cartas, das quais cerca de meia centena é inédita para o público, configura um acervo fundamental para compreender a trajetória literária da escritora. As correspondências foram organizadas por décadas – dos anos 1940 a 1970 – e contam com notas da biógrafa Teresa Montero, que contextualizam o material no tempo, no espaço e nas inúmeras citações a personalidades e referências culturais. O volume resultou de longa pesquisa realizada pela jornalista Larissa Vaz.

 

Estão Matando os Meninos, de Raimundo Carrero

A obra é composta por 14 contos, que narram as agressões sociais vividas no Brasil, principalmente com crianças, mulheres e negros. “Não posso silenciar diante deste revoltante genocídio que se abate sobre o Brasil, com o assassinato de meninos e meninas, diariamente, em cidades e localidades onde são realizadas operações policiais em combate com traficantes e bandidos de toda ordem, dizem eles, atingindo, em geral, crianças que vão ou voltam das escolas. (...) Escrever estas histórias talvez tenha sido a atitude mais dolorosa que enfrentei nesses meus setenta anos de vida. E, é claro, na minha carreira literária. Estou cansado, mas ainda assim acredito que minha obra, de alguma maneira, contribuirá para o fim desta guerra de bandidos, que só mata crianças e dizima uma geração de brasileiros”, escreveu o autor sobre seu livro.

 

Todo abismo é navegável a barquinhos de papel, de Davi Koteck

Entre o refluxo lírico, os sanatórios de ternura e as cascas de parede, o autor extrai poesia dos gestos e das cenas mais simples, desfiando imagens e sentimentos inesperados como numa conversa íntima, e cria novos sentidos com a facilidade de quem sabe revirar o verso pelo avesso até extrair âmago do poema.

 

A Organização: A Odebrecht e o Esquema de Corrupção que Chocou o Mundo, de Malu Gaspar

Malu Gaspar destrincha, numa crônica eletrizante, a história completa (e a secreta) da ascensão, do auge e da queda da Odebrecht.  A autora desvenda as engrenagens de um sistema de corrupção que parecia inviolável e lança luz sobre as espúrias relações entre Estado e empresas que condicionaram por muito tempo uma espécie de "capitalismo à brasileira".

 

Você nunca mais vai ficar sozinha, de Tati Bernardi 

Aos trinta e cinco anos, Karine faz roteiros para prêmios como "Você Faz a Diferença no Setor Têxtil" ou "Prêmio Nacional de Saúde Bucal". O emprego que não a satisfaz intelectualmente — seu sonho é escrever para o cinema — permitiu ao menos que ela saísse de seu bairro natal, o Belenzinho. Sua obsessão com sucesso financeiro é o caminho mais curto que encontrou na tentativa desesperada de se afastar da vida tacanha e neurótica de sua família. "Você nunca mais vai ficar sozinha" é a frase que ela ouve de sua mãe quando conta que está grávida de uma menina. Hipocondríaca, ela cumpre com rigor a rotina de exames pré-natais. Em intermináveis conversas com sua enfermeira predileta, Karine rememora episódios da turbulenta relação com a mãe, maldiz as agruras da gestação e antecipa o amor e os medos da maternidade.
 

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