16 de novembro de 2020

A pluralidade de Alberto Nepomuceno

A Clandestina relembra a história e revisita a obra do compositor

Música

Por Mariana Moraes

Em outubro de 1920, o Brasil se despediu de uma das figuras centrais da música brasileira: Alberto Nepomuceno. Mesmo 100 anos após sua morte, Nepomuceno se perpetua como um dos grandes compositores da música de concerto, com uma produção marcada pelo uso da língua portuguesa e de elementos da música popular e do folclore brasileiro. A Clandestina relembra a história e revisita a obra do compositor.

Quem ouve o reco-reco misturado aos sons tradicionais de orquestra no último movimento da obra Série Brasileira não imagina a ousadia e originalidade por trás do seu compositor. A música, estreada em 1897, rendeu duras críticas a Alberto Nepomuceno, principalmente por incluir um instrumento típico da cultura brasileira em uma orquestra sinfônica. A obra é uma das mais conhecidas de Nepomuceno e, para muitos, um dos principais marcos do seu nacionalismo — mesclando temas folclóricos, gêneros urbanos cariocas, melódica nordestina e ritmos afro-brasileiros. No entanto, os aspectos nacionalizantes presentes em Série Brasileira representam apenas uma possibilidade estética entre muitas outras que atravessam a produção plural de Nepomuceno.

Compositor, pianista, organista e regente, Nepomuceno nasceu em 1864, no Ceará. A música foi algo muito presente em sua vida desde a infância — seu pai era violinista, professor, mestre da banda e organista da Catedral de Fortaleza. Com apenas 18 anos, em 1882, o compositor assumiu a direção dos concertos do Clube Carlos Gomes de Recife, cidade para onde se mudou com a família para aperfeiçoar os estudos musicais. Em 1885, foi para o Rio de Janeiro e realizou suas estreias como pianista e professor no Clube Beethoven. A partir de 1888, Nepomuceno estudou em Roma, Berlim, Viena e Paris. Na Europa, o compositor teve contato com grandes nomes da música clássica e com ideais nacionalistas.

No entanto, não foi apenas o contato com o nacionalismo europeu que o fez se atentar para a riqueza cultural brasileira. No final do século XIX, o Brasil vivia um momento de grande efervescência social, política e cultural. A monarquia dava seus últimos suspiros e a campanha republicana e o movimento abolicionista ganhavam força. O país passava por muitas transições e tentava, em meio a diversas transformações, encontrar uma identidade enquanto nação. Muito envolvido com questões sociais e políticas, Nepomuceno também sofreu influência desses processos históricos, buscando uma identidade musical e realizando pesquisas sobre a música regional e o folclore brasileiro.

Conforme explica Luiz Guilherme Goldberg, professor da UFPEL (Universidade Federal de Pelotas) e pesquisador da obra do compositor, nesse período, a música de concerto era tida como a de maior prestígio, o gênero musical “sério”, enquanto a música popular era considerada apenas entretenimento. Ao incorporar elementos da música popular e do folclore à sinfônica, Nepomuceno transverteu os valores da época, abrindo caminho para novas possibilidades dentro da música de concerto brasileira. “Ele foi um dos compositores que levou a música popular para junto da música de concerto. Se eu misturo música popular com de concerto, eu estou criando uma afinidade entre elas”, explica Goldberg. A composição Garatuja, inspirada na obra homônima de José de Alencar, é considerada a primeira ópera verdadeiramente brasileira no tocante à música, incorporando ritmos populares como o maxixe e o lundu. “Ele usa na abertura de uma ópera ao menos duas músicas que são do povo, que são da rua. E que não eram, segundo alguns críticos da época, dignas da música de concerto”, enfatiza o pesquisador. Assim, o compositor iniciava seu trabalho intenso pela nacionalização da música de concerto.

Nepomuceno também foi um ferrenho defensor do uso da língua portuguesa na música clássica. Em 1895, ele apresentou uma série de canções autorais em português no Instituto Nacional de Música — o que lhe rendeu muitas críticas. Muitos afirmaram que a língua portuguesa era inadequada para o bel canto. Em resposta, o compositor enfatizava: “Não tem pátria um povo que não canta em sua língua”. Um dos grandes críticos era Oscar Guanabarino, defensor ardoroso do canto em italiano. “Nepomuceno foi um grande incentivador do canto em português. Podemos dizer que ele o institucionalizou. A questão é que a prática do canto em português já existia no Brasil bem antes. Mas com certeza ele deu um empurrão muito forte enquanto diretor do Instituto Nacional de Música”, ressalta Goldberg. Nepomuceno esteve à frente do Instituto Nacional de Música por duas gestões e foi maestro da Associação de Concertos Populares. Sua atuação nas duas instituições tiveram consequências determinantes para a cultura musical do Brasil.

Para além da música, Nepomuceno foi um grande apreciador da literatura brasileira, sendo que parte de sua produção foi inspirada em obras literárias. Os movimentos romântico, simbolista e naturalista, em ascendência na Europa, influenciaram diversos escritores brasileiros, como Olavo Bilac, Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Coelho Neto. Da parceria com poetas e escritores, surgiram várias composições: Ártemis (1898), com texto de Coelho Neto; Coração triste (1899), com Machado de Assis; Numa concha (1913), com Olavo Bilac.

Além do nacionalismo, uma das características mais marcantes do compositor foi sua capacidade de conciliar as diversas escolas de composição que o influenciaram ao longo de sua formação, como o romantismo e o simbolismo, por exemplo. Para o professor Luiz Guilherme Goldberg, é até mesmo possível identificar aspectos modernistas na produção de Nepomuceno. Independente das possibilidades estéticas que atravessam as obras do compositor, o que se perpetua é o legado de valorização e representação da cultura brasileira e uma herança musical que se aproxima da vida cotidiana e ainda se faz atual.

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