13 de novembro de 2020

Três Perguntas: Supervão lança o EP Depois do Fim do Mundo

A Clandestina conversou com o grupo sobre o novo trabalho, trazendo detalhes sobre a produção

Música

Por Mariana Moraes

Nesta sexta-feira (13), chegou às plataformas digitais o novo EP da banda Supervão: Depois do Fim do Mundo. Com seis faixas que remetem ao techno, ao house e ao pós-punk, o álbum foi composto e gravado durante o isolamento social, retratando e descrevendo alguns dos sentimentos que preencheram os dias pandêmicos. A produção inaugura uma nova fase da banda, com novas experimentações e sonoridades, e reforça o encontro do indie com a música eletrônica que já é marca registrada do grupo. A Supervão é formada por Mario Arruda, Leonardo Serafini e Ricardo Giacomoni. Ouça aqui Depois do Fim do Mundo.

A Clandestina conversou com Mario Arruda sobre a produção de Depois do Fim do Mundo e sobre a nova fase da banda. Confira: 

Clandestina: O EP Depois do Fim do Mundo foi gravado e composto durante o período de isolamento social. Como foi produzir um EP durante uma pandemia? E como foi esse período de isolamento para a banda? Muitos artistas tiveram dificuldade em produzir e dar continuidade ao seu trabalho em quarentena, vocês vivenciaram algo parecido?

Mario Arruda: A ideia inicial para 2020 era gravar um disco ao vivo para pegar a força do encontro. A pandemia impediu esse plano completamente, mas continuamos com a vontade de seguir gravando e lançando músicas. Adaptamos o processo para a realidade pandêmica gravando cada um de sua casa, compartilhando os projetos das músicas e os equipamentos que temos para gravação. O que poderia se tornar um fator de desânimo se tornou uma possibilidade de experimentação. Mas esse momento não é tão diferente do momento pré-pandemia… Sempre se faz o que os fluxos levam a fazer. Um disco é sempre obra do acontecimento, do contexto, do lugar, das condições, das relações… Em 2020, tivemos uma diminuição de possibilidades, claro, mas ao mesmo tempo surgiram o desafio e a oportunidade de usar sonoridades, assuntos, estruturas, modos de gravar que em outros momentos seriam deixados de lado. De certa forma, a arte é essa atividade de produção de possíveis em momentos que só temos condições de enxergar barreiras em um primeiro olhar. O ato de criação parece ser um movimento que se acopla a essa necessidade de reinvenção lançada pelos acontecimentos do mundo.

 

Clandestina: O novo álbum é descrito como o começo de uma nova fase para a Supervão. O que seria esse novo momento da banda? O que mudou na música de vocês nesse novo trabalho e o que permanece da identidade da Supervão?

Mario Arruda: De certa forma, estamos sempre recomeçando. Cada álbum ou EP acaba sendo uma nova pesquisa, um novo experimento, gerando novas sonoridades e estruturas. Ocorre que a cada produção se abre uma nova perspectiva, que nos mostra caminhos, questões em aberto, novas necessidades. Talvez fazer música seja uma forma de conhecer o mundo, o pensamento, as tendências. Todo lançamento adiciona novos desafios a serem trilhados no futuro, é um caminho infinito. Talvez o momento atual tenha como característica principal a percepção desse infinito. Depois do Fim do Mundo, esse conceito, é sobre isso. É fim e começo ao mesmo tempo. Uma nova fase é tanto uma ruptura quanto uma continuidade. E o que continua é esse processo de variação contínua. Gosto muito da ideia de que alguns artistas da música pop tiveram essa concepção no interior de seus trabalhos, tendo até produzido manifestos que descreviam sistematicamente os vetores que operavam a diferenciação na sua estética musical. No Brasil, a tropicália fez da máxima antropofágica “só me interessa o que não é meu” uma peça de sua máquina. David Bowie também tinha algo parecido, tendo ficado conhecido como camaleão da cultura pop. E existem muitos outros nessa linhagem durante a história da música… Daft Punk, Beatles, Lady Gaga, John Cage, Varèse, Pierre Boulez, Elza Soares, o rap todo com seus samples, tipo o Afrika Bambaata, a internet music, como The Avalanches...

 

Clandestina: Quais músicas do álbum você destacaria como as principais? Por quê?

Mario Arruda: Difícil dizer, é um EP que circunda uma única questão: 2020. Cada uma complementa a outra conceitualmente. “Depois do Fim do Mundo” é sobre esse fim recomeço; “Fim de Nós / Fim do Sol” é sobre uma alteridade radical, pensando que cada pessoa tem sua essência formada por suas relações; “Get Out” é sobre uma vontade descontrolada de sair da prisão-pandemia, sentir alguém; “Sdd"  é sobre a saudade como sentimento constante, que se repete em relações diferentes, com pessoas, lugares, momentos; “Lembranças, cicatrizes e as nossas tatuagens” é uma mensagem sobre como os momentos difíceis também fazem parte da vida; e "House In" é sobre uma imagem frequente nas comunicações por vídeo hoje, nas quais uma casa está dentro da outra.  Deixo pra quem ouvir o EP a escolha de quais são as músicas principais, corresponde aos seus critérios próprios. 

 

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