29 de outubro de 2020

Sem cegueira, com lucidez: Cardamomo celebra trajetória intensa em 'Nada a Fazer', primeiro álbum do trio

Confira a entrevista com a banda instrumental

Música

Por Luiza Padilha

 

O trio instrumental Cardamomo lançou hoje seu primeiro álbum, "Nada a Fazer", que celebra a trajetória da banda, que já nos mostrou que abraçou sua natureza intensa após uma sequência admirável de lançamentos. Após um EP, diversos singles, um projeto de remixes e seis clipes, agora a Cardamomo entrega para o mundo um belíssimo trabalho que consolida a primeira fase da banda e um processo que envolveu muito trabalho, esforço, e, claro, muita criatividade. O álbum, gravado ao vivo, expressa um notável amadurecimento da banda desde o lançamento do EP homônimo (2019) e é caracterizado por uma sonoridade orgânica e alterna entre momentos de introspecção, com variações de dinâmica e também de estilo musical, sem nunca se prender a rótulos e assim reforçando a identidade única da banda. Ao lado de várias outras bandas da cena porto-alegrense, como Quarto Sensorial, Trabalhos Espaciais Manuais e As Aventuras, a Cardamomo segue levantando e defendendo a bandeira da música instrumental - ainda bem.

"O nome 'Nada a Fazer' pode ser interpretado como uma sensação de resignação frente ao que está fora do nosso alcance, ou até mesmo como uma ideia de inércia e tédio, mas essas sensações também convivem com outros sentimentos contrastantes, de enfrentamento e persistência, apresentados pela banda", comenta o trio, que se acostumou a passar perrengues e a trabalhar “na guerrilha” para concluir projetos. Em seu primeiro trabalho, a banda quer falar sobre a aceitação de um caminho, sobre seguir em frente, sobre acreditar na sua identidade e deixar que os desafios batam no peito e vencer um a um.


Capa do álbum "Nada a Fazer". Arte de Tiziana Scur (@tizianascur)

O álbum abre com a música “Gules”, batizada sob o nome de uma das primeiras festas nas quais o trio tocou. A música já estabelece de certa forma a abordagem mais diversa do conjunto aos elementos do rock alternativo, utilizando da linguagem de desconstrução fornecida pelo pós-rock para criar sua identidade musical. “Saturado”, terceira faixa do álbum, já mostra outras influências do trio, mais alinhadas ao pós-punk. Com baixo carregado de efeitos, bateria com alguns elementos eletrônicos e uma guitarra que carrega o som para diferentes momentos, a música é talvez a mais distante da sonoridade média do álbum.

"À Deriva” é a música escolhida como de trabalho do disco, e conta com Felipe Eugênio citando um trecho do livro “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago. Tanto a leitura quanto a música dão a sensação de luta, de um combate tortuoso seja ele mental ou físico. “Pra nós é sobre enfrentar as questões que nos apavoram, como os complexos sentimentos das relações humanas, dos grandes problemas que temos como sociedade. Da nossa luta com tudo isso”, confirma a banda.

Mais uma das inéditas do disco, “Posada” é outra que traz um elemento novo. No trecho final, a banda utiliza uma frase instrumental da música “Walk on a Wild Side” de Lou Reed para puxar um final caótico e contrastante com o trecho mais solto e dançável da primeira parte. Fechando o álbum, “Woo (Pt. 1)” e “Como faz pra voltar?” juntam-se em uma dobradinha que resume bem a Cardamomo: guitarras por vezes suaves, uma bateria inerentemente forte, baixo que acompanha os caminhos traçados pela guitarra, juntamente com outras influências também presentes no trabalho como o math rock, o grunge e o rock progressivo.


Foto por Isabelle Krüger (@vermenocerne)

“Nada a Fazer” é também um disco que chega em um ano repleto de sentimentos intensos com a premissa de dar novas cores, novas interpretações para a posição na qual nos encontramos. Fala sobre enfrentar os problemas e aceitar que lutas precisam ser travadas, e que pode fazer parte da nossa trajetória vencê-las, assim como o lançamento deste trabalho, considerado uma imensa vitória para o trio independente que financiou o disco inteiramente com cachês das mais de quarenta apresentações realizadas em cerca de um ano de existência do conjunto.

A Cardamomo nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no final de 2018. É formada pelo guitarrista Marcelo Henkin, pelo baterista Guilherme Boll e pelo baixista Johnny Oliveira. 

Ouça o disco "Nada a Fazer"

 

 

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"Banda não é entidade filantrópica"

Confira a entrevista que realizamos com a banda, falando sobre o processo de criação, o planejamento do lançamento do álbum em plena pandemia, expectativas e indicações do que ouvir.

A Cardamomo é uma banda que, em pouco tempo de estrada, já colocou no mundo uma quantidade significativa de trabalhos. Como funciona a dinâmica da criação entre vocês?

Johnny: A gente tem vontade de colocar bastante coisa na rua, por isso que estamos sempre pensando no próximo lançamento, no futuro. Mesmo na véspera de lançar um single, minha cabeça tá no próximo, e no próximo. Sobre criações, o Marcelo compõe muito, então fica fácil pra acrescentar a minha parte. É uma dinâmica interessante.

Boll: É isso, os guris não sossegam. Quando tem uma coisa sendo lançada, tem outra sendo preparada, outra sendo pensada, e mais 4 novas composições sendo concebidas. Então, normalmente, tiramos alguns momentos de ensaios para ir experimentando ideias diferentes em cima das ideias “base” que vieram pro grupo.

Marcelo: Estamos sempre inquietos querendo produzir e lançar material novo. Sobre as músicas em si, eu tô sempre levando ideias de novas músicas, tanto nos ensaios diretamente quanto por áudios à distância. O Johnny também às vezes manda ideias de música nova a partir de linhas de baixo. Aí nos ensaios as músicas vão ganhando o contorno final com todo mundo colocando suas partes e a gente vai tocando até ter a música finalizada. E na verdade os guris acabam tendo que me conter nisso, porque, por mim, teria música nova toda semana.

Já não estava sendo fácil ser artista no Brasil e com a pandemia essa situação só se agravou. Como vocês estão lidando com a situação? Quais foram as maneiras que vocês encontraram de não perder o pique e seguir produzindo?

Johnny: A gente deu a sorte de já ter uma grande quantidade de material gravada. Quando entramos em isolamento, nosso disco tava 80% pronto, então só nos restou dar o acabamento. O resultado tá aí. Agora, a parte triste é não ter mais os shows, momentos esses que são meus preferidos de ter uma banda.

Boll: Não ter shows tá difícil. A gente tava com uma rotina bem boa, pelo menos dois shows por mês, teve mês com 4, enfim, faz realmente falta, e também é quando entram os pilas necessários pra viabilizar o corre. Mas além do disco que já tava bem encaminhado, a gente também inventou de fazer um projeto a parte, com remix (Projeto Desancorado) e também começamos a venda de uma nova coleção de camisetas pra ajudar o cofre da banda neste período.

Marcelo: A gente gravou o disco no verão de 2020, e, quando começou a pandemia, faltava mixar as músicas. Como a gente não tinha dimensão de quanto tempo as coisas ficariam paradas com a pandemia, optamos por lançar o disco mais pro fim do ano, e ao longo do ano fomos mixando as músicas à distância, o que sempre leva mais tempo. Enquanto isso, pra não ficarmos parados, resolvemos gravar - cada um quarentenado em casa - uma música que fazia parte de nosso repertório nos primeiros shows, Desancorado, e aí surgiu o Projeto Desancorado, que contou com participação de muita gente massa remixando essa música.

Lançar um disco nesse contexto também não deve ser fácil. Como vocês arquitetaram esse lançamento?

Johnny: A gente ainda tá planejando tudo. Nossa receita é tentar adiantar o máximo de trabalho possível, cada um fazer sua parte que daí no fim dá tudo certo. Mas tô bem ansioso sobre o disco, não vou falar muito mais que já me dá piripaque. 

Boll: Piripaques de sobra, cobrando mil pessoas diferentes na segunda de noite pra fazer tudo acontecer. Mas a gente fez todo o processo de mixagem do disco a distância. Se isso é melhor ou pior não tenho certeza ainda, mas sem dúvida é uma dinâmica diferente. E a parte de arquitetar o lançamento é videochamada pra lá e pra cá, pautas e pautas e torcer pra nao esquecer nada das mil e duas coisas que precisam ser feitas.

Marcelo: Praticamente todo dia tem conversa por mensagem, raramente chamadas de vídeo, e as coisas vão sendo pensadas, e os guris são muito pilhados de fazer todas as coisas possíveis ao nosso alcance pra fazer tudo bem feito e organizado e acho que no fim das contas arquitetamos bem esse lançamento, dentro do possível e das limitações.

Quais são as expectativas da banda com o nascimento do álbum?

Johnny: Que seja recebido pelas pessoas de peito aberto, que a gente consiga alcançar o maior número de pessoas possível, que o resultado supere essas expectativas, mas só o fato de lançar um disco já é um sonho, pra mim só lançar já tá 10.

Boll: Disco é filho no mundo, né. É um registro de uma fase, como também depois com os shows pode ir sendo alterado e evoluindo. Mas sobre expectativas é algo complexo, porque qualquer previsão é espaço pra frustração. Mas alcançar mais pessoas, fazer nosso som ser ouvido por uma galera maior, e ver isso ser convertido em mais shows é o que eu quero.

Marcelo: Que resulte em mais shows, em mais gente conhecendo e curtindo a banda. Mas pra ser sincero, pessoalmente o fato da gente produzir e lançar um disco já é pra mim uma baita realização e motivo de muita alegria. A Cardamomo é minha primeira banda, então tudo isso que estamos fazendo há quase 2 anos é novidade, antes disso eu nem imaginava estar tão imerso nas atividades de uma banda, e tem sido uma baita experiência, um aprendizado também. Nós três entramos de corpo e alma no troço e fizemos muita coisa pra chegar até aqui. Tô bem feliz com o resultado, podemos nos orgulhar bastante.

Vocês já estão pensando nos próximos passos após o lançamento do disco? Quais os planos?

Johnny: Continuar divulgando, pensar em mais clipes, torcer pra vacina vir em breve que fazer show é o que eu quero.

Boll: Assim que chegar a vacina tem que rolar tour, nem sei por onde, mas tem que rolar. Mas a vontade de compor novas músicas e já voltar a gravar também é grande. Certamente alguma coisa a gente vai aprontar.

Marcelo: Seguir na divulgação do disco, esperar que no ano que vem a pandemia seja controlada pra podermos fazer uns shows, e eu tô bem na pilha de já produzir músicas novas.

Existe alguma faixa que seja a queridinha de vocês? Quais as favoritas de cada um e por quê?

Johnny: Gosto muito de "Labrador", que foi single nosso ali na primeira metade do ano. É uma música que pra mim tem uma sonoridade um pouco grunge, me agrada bastante.

Boll: Difícil, gosto muito de todas. Mas "Posada" acho que é meu xodó, principalmente pela parte B dela, que tem um lance meio hip hop. "Bertha" curto muito tocar também - é tipo uma maratona e eu fico exausto.

Marcelo: "Como faz pra voltar?" é minha preferida. Tocamos ela ao vivo há bastante tempo, é sempre uma sensação diferente, e saio dos shows pingando como se tivesse jogado duas horas de futebol. A outra preferida é "Bertha", pela composição e por levar o nome de uma das minhas avós.

A questão do streaming acaba sempre retornando, pois sabemos que o valor revertido para os artistas, na maioria das vezes, é ínfimo. Numa época em que artistas estão impossibilitados de realizarem shows, que é uma das principais fontes de renda, quais estão sendo as alternativas que vocês encontraram para isso?

Johnny: A gente conseguiu, através de economias pessoais, fazer umas camisetas, no momento a venda delas é nossa única fonte de renda. Também temos todo nosso catálogo no Bandcamp, mas por mais que a gente divulgue nós vendemos pouca coisa por lá.

Boll: Eu não canso de falar: banda não é entidade filantrópica. A gente precisa que algum dinheiro entre para tentar fazer as coisas acontecerem, e o retorno de play em streaming não faz nem cócegas nos gastos da banda. Mas é isso, inventar produtos, aceitar toda contribuição, trabalhar com pessoas que estão correndo junto contigo.

Marcelo: Esse é o grande desafio para todas bandas independentes, e não tá fácil pra ninguém. Por enquanto, durante a pandemia, conseguimos tirar grana da venda de camisetas novas e é isso.

Em relação à música instrumental, vocês encontram barreiras no momento de disseminar a música? Quais são os prós e contras?

Johnny: Nunca encontramos barreiras, pelo contrário, tivemos uma circulação muito boa. Temos acho que perto de 50 shows em dois anos de banda, eu acho um ótimo número. Sou suspeito pois sou apaixonado por instrumental, mas pra mim não tem nenhum contra, só prós.

Boll: Eu entrei nesse mundo pelos guris e hoje não abro mão, é instrumental até o caroço. Não precisar de mesa de som e PA viabilizou tocarmos em diversos lugares por termos o equipamento necessário. E é divertido ver uma galera que vincula instrumental apenas a música de orquestra, erudita e afins nos ouvindo e falando “eu não gostava de música instrumental, mas adoro o som de vocês”. Único contra é que é mais difícil criar o nome da música e eu lembrar qual a música pelo nome.

Marcelo: Talvez muita gente não escute música instrumental e sinta que falte uma voz, isso é verdade, mas em termos de ter palco pra tocar, não tivemos barreira. Pra mim essa questão nem é uma questão, porque eu ouço música instrumental desde sempre, desde rock, jazz, chorinho, ambient, e a maneira mais natural pra me expressar musicalmente é pelos sons, sem letra, então não tem mistério. E um amigo me disse que adora música instrumental porque ele fica “de olhos fechados, viajando, concentrando apenas nos sons dos instrumentos”. Confio no meu amigo.

Pensando no cenário pré-pandêmico, como vocês avaliam os espaços de trocas culturais de Porto Alegre? Qual a visão de vocês sobre espaços para bandas independentes?

Johnny: Acho que temos bons espaços, tem bastante coisa acontecendo. Ali no verão fizemos uma noite com o RVST e com o Fernie Canto na Casa Obscura que acabou lotando o lugar, foi realmente um ponto alto da nossa trajetória no palco. Também tivemos shows bacanas com iniciativa da UFRGS, do nosso amigo Vitor Cunha, diversos shows em estúdio também. Enfim, tem coisa rolando, esperamos que esses espaços sobrevivam a essa estiada. 

Boll: É, espero que sobrevivam, pois de fato estava acontecendo um movimento muito massa. Temo dizer que fazia algum tempo que a tal da “cena” não tava borbulhando tanto.

Marcelo: Acho que tem bastante espaço pra banda independente tocar, muitas iniciativas e lugares para shows. Além disso, nesse momento de crise decorrente da pandemia acho que as pessoas vão percebendo ainda mais a importância de apoio mútuo e das trocas culturais, pro fortalecimento da cena local.

A Cardamomo é uma banda que trabalha com diversos artistas, de diferentes estilos e abordagens. Um exemplo disso foi o Projeto Desancorado, em que vocês chamaram diferentes artistas para contribuir. Além disso, também houveram parcerias em outras músicas, e também em trabalhos audiovisuais e gráficos. Pra vocês, qual a importância e relevância dessas parcerias dentro do contexto cultural? 

Johnny: Acho que é uma magia que acontece, né. A gente convida alguém quem a gente admira o trabalho, ou que é nosso amigo e queremos ter junto, ou alguém que somos curiosos pra ver como resultaria a colaboração e aí acontece. Pra mim é muito massa isso, de trazer pra perto do nosso som diferentes pessoas, de diferentes vivências. Acrescenta muito pro projeto também, porque torna a coisa menos fechada.

Boll: O rolê todo fica menos quadrado mesmo, nos abrimos a experimentar ideias diferentes. E a parte gráfica a gente curte muito também, sempre nos importamos com isso, de não apenas fazer a parte da música, mas ter um cuidado com esse lado visual, de artes e tal. E o melhor jeito é sempre trazer pessoas que gostamos da arte dessa pessoa, e do profissionalismo também, e deixar a pessoa de certa forma livre pra fazer a sua expressão de arte pra somar com a nossa.

Marcelo: Acho que a valorização da arte local é essencial, toda essa troca e aprendizado entre a galera envolvida. Vamos conhecendo o trabalho das pessoas mais de perto e é muito massa esse processo.

A banda lançou diferentes playlists durante a pandemia com indicações de músicas e isso foi muito massa. Mas aqui, no momento dessa entrevista, o que vocês mais têm ouvido? O que recomendam?

Johnny: Nos últimos dias ouvi bastante Sonic Youth (tô respondendo isso enquanto escuto The Sprawl, na sessão do From The Basement), Dinosaur Jr., enfim, essa coisarada boa.

Boll: O último disco do Hot e Oreia, “Crianças Selvagens” eu já ouvi umas mil vezes. o “Gratitrevas da ÀIYÉ, e tudo do IDLES, vira e volta eu to sempre ouvindo.

Marcelo: Nos últimos dias ando ouvindo muito Spinetta, Essential Logic, Swell Maps, The Doobie Brothers e Paulinho da Viola. De recomendação de coisa nova, sugiro o álbum This Devastating Map, da banda Helvetia (que tô ouvindo enquanto digito as respostas aqui), pra relaxar e fritar a cuca.

Querem deixar algum recado para as pessoas que estão lendo? Esse espaço aqui é de vocês!

Johnny: nos sigam nas redes sociais, no Youtube, fiquem na nossa cola que tem bastante coisa vindo.

Boll: Botem a gente nas playlists de vocês, naquelas que vocês escutam mesmo, na de correr, de transar, de cozinhar, de trabalhar, todas tão valendo. Não deixa de indicar pros amigos tudo, e lembra de ir em show quando acabar essa quarentena eterna, 15 pila ingresso de show é de graça.

Marcelo: Além de tudo que os guris falaram acima, não esqueçam de tomar água.

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