15 de outubro de 2020

Três Perguntas: Gabriela Poester

A Clandestina conversou com a atriz sobre carreira, o filme Aos Olhos de Ernesto e planos para o futuro

Artes Cênicas

Por Mariana Moraes

Atriz e diretora de teatro, Gabriela Poester vem se destacando na cena local e nacional pelos seus trabalhos no cinema, na televisão e no teatro. Nascida em Cachoeira do Sul (RS), Poester é formada em direção teatral pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e como atriz pela Casa de Teatro de Porto Alegre. Por suas atuações, já foi agraciada com diversas premiações. Em 2014, recebeu o Prêmio Açorianos de Melhor Atriz pela montagem A Coisa no Mar. Já em 2015, ganhou o prêmio Assembleia Legislativa de Melhor Atriz, no Festival de Cinema de Gramado, pelo curta-metragem Bruxa de Fábrica

Como atriz, Poester participou de séries como Paralelo 30 (Prime Box Brasil) e Necrópolis (Netflix) e da peça Bailei na Curva. Em 2020, estreou seu mais recente trabalho, o filme Aos Olhos de Ernesto, em que interpreta a protagonista Bia. No longa-metragem, dirigido por Ana Luíza Azevedo, acompanhamos a jornada de Ernesto (Jorge Bolani) para enfrentar as limitações e desafios da velhice, como a solidão e a cegueira crescente. É quando Bia, uma cuidadora de cães, entra em sua vida que o personagem passa a perceber o envelhecimento de uma forma diferente. Nessa edição da série Três Perguntas, conversamos com Gabriela Poester sobre carreira, Aos Olhos de Ernesto e planos para o futuro. Confira!


Clandestina: Como começou a sua relação com o teatro? O que te motivou a querer ser atriz e trabalhar com direção teatral?

Gabriela: Eu sempre gostei de fazer teatro mesmo sem saber exatamente o que era isso. Cresci em Cachoeira do Sul e lá, de vez em quando, vinham algumas peças que se apresentavam no clube da cidade. O teatro é um lugar muito mágico, eu me lembro vividamente de todas as peças que eu assisti naquele palco, eu vi pessoas que hoje são meus colegas de trabalho, como o Julinho que também faz o Aos Olhos de Ernesto. Eu brincava de fazer teatro com meus vizinhos, colegas de aula. Quando finalmente tive idade para entrar no grupo da escola, o professor foi morar em outra cidade, aí eu e mais uma colega assumimos esse papel de organizar e dirigir. Como a gente não tinha acesso a muitos textos de teatro, começamos a escrever o que queríamos montar. 

Meu sonho sempre foi ser atriz, mas eu sempre tive uma relação esquisita com isso, como se só atuar não fosse suficiente. Talvez o que me incomode é esse lugar de objeto que as atrizes são colocadas, e eu entendi isso desde muito cedo. Aí eu mudei de ideia. Fui fazer cinema. Queria ser diretora de arte. Mas na faculdade, eu só atuava em todos os exercícios que meus colegas faziam. Resolvi então que era teatro que eu queria fazer, vim para Porto Alegre e entrei na UFRGS. Comecei no curso de atuação, mas no meio do caminho mudei para direção. Dirigir fez com que eu aprendesse muito mais sobre atuar, e era isso mesmo o que eu queria. Eu entendi que a atuação em si é só uma pequena parte sobre ser atriz. Tenho que produzir, criar, escrever, dirigir, respeitar e valorizar o trabalho da equipe e de meus colegas de elenco, assistir muitos filmes, muitas peças de teatro e errar, muito. É preciso viver coisas diferentes para aumentar minha bagagem de vivências, para ter material e ferramentas para quando eu for atuar. Ser atriz é viver muitas vidas em uma só e é isso o que eu mais gosto.

 

Clandestina: Recentemente, foi lançado o filme Aos Olhos de Ernesto, em que você interpreta a personagem Bia. Nas redes sociais, você já mencionou a produção como 'o filme da sua vida’. Como foi a experiência de fazer parte de Aos Olhos de Ernesto? Qual a importância desse filme para sua carreira?

Gabriela: Eu falo que Aos Olhos de Ernesto é o filme da minha vida, independente de quantos outros filmes eu vier a fazer, porque ele ocupa um lugar muito especial no contexto que eu estava vivendo. A Ana me chamou para fazer o filme antes de eu começar um tratamento com quimioterapia. Eu recém tinha descoberto um câncer, aos 28 anos, e eu estava vivendo uma fase extremamente incerta, eu não sabia como eu estaria para filmar, se teria cabelo, se teria forças, mesmo. Então me preparei para rejeitar o convite de trabalhar no filme. Mas a Ana me convenceu que não, que eu faria independente do que acontecesse, se eu estivesse careca eu poderia usar peruca. Enfim, se passaram alguns meses até a gente filmar. Fiz todo o tratamento. Nesse período, eu ia para Casa de Cinema ensaiar sem nenhum fio de cabelo no corpo, com a pele cor cinza, fraca, mas muito determinada. Visualizar fazer a Bia no final desse processo era o que me motivava a comer melhor, a não reclamar, a me sentir bem e aguentar a dor. Um pouco antes das filmagens começarem, meu cabelo veio com força total e eu consegui fazer o filme. 

Então, para mim é muito mais do que um trabalho. Foi um presente de vida que eu ganhei, acompanhado de um carinho imenso de toda equipe. Para minha carreira, essa foi a primeira oportunidade que eu tive de protagonizar um longa-metragem e isso foi muito especial. Ainda mais com uma personagem como a Bia, que se transforma de forma sutil do começo ao fim, em um filme muito bem escrito pela Ana e o Jorge. Além disso, eu tive o privilégio de poder ver uma equipe extremamente qualificada trabalhando. Eu adoro bastidores, assistir as pessoas, aprendo muito com todas elas. E claro, ver o Jorge Bolani ser o ator gigante que ele é. Eu admiro ele desde quando assisti Whisky ainda adolescente na casa dos meus pais. Agora ele é meu amigo querido. A experiência que a gente está tendo agora, do filme ser assistido por tantas pessoas, está sendo um prazer imenso. Para além da carreira, Aos Olhos de Ernesto me deu a oportunidade de realizar o sonho de visitar Cuba, durante o Festival de Cinema de Havana, o que foi uma experiência indescritível que eu vou lembrar para sempre. Amo assistir e fazer cinema, quero fazer muito mais. Mas, sem dúvida, Aos Olhos de Ernesto vai ter sempre um lugar de afeto tão especial nas minhas memórias que eu nem consigo explicar.

Clandestina: Sabemos que o cenário pandêmico torna nebuloso o futuro, mas quais são os seus planos daqui para frente? Tem algum outro projeto sendo preparado?

Gabriela: Eu nunca paro, estou sempre inventando coisas, mas, de fato, está tudo esquisito agora, bem incerto. Por isso, eu prefiro nem falar muito dos projetos porque vai que depois não acontece, né? Eu estou fazendo um curso à distância de formação em teatro virtual e aplicando esses conhecimentos no grupo de teatro que faço parte, a Fiasco. Tenho me envolvido bastante com cinema e penso em me aventurar e dirigir alguma coisa logo mais. Além disso, eu faço colaboração curatorial para um festival de teatro, o Porto Alegre em Cena, que logo mais estreia de forma online. Mas também preciso e quero atuar muito mais, é o que eu mais me divirto fazendo, meu olho brilha só de pensar.

 

Aos Olhos de Ernesto está disponível nas plataformas de streaming Net Now, Vivo Play, Oi Play e Looke. 

 

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