11 de setembro de 2020

Entrevista: Lígia Petrucci, coordenadora do Unimúsica

Às vésperas da primeira edição virtual do festival de música, conversamos com Lígia sobre ‘Forrobodó – quando elas tocam’, edição dedicada a mulheres instrumentistas

Música

Entrevista: Amanda Zulke
Fotos: Dudu Sperb

 

Uma das mais belas e longevas programações artísticas do Estado, o Unimúsica chega a 2020 com o desafio de se reinventar em uma edição diferente de todas as anteriores: totalmente virtual, com um elenco integralmente feminino. Para aquecer para o início das cinco noites de shows da série ‘Forrobodó – quando elas tocam, nesta segunda (14), a Clandestina conversou com a produtora cultural à frente do festival desde 2002, Lígia Petrucci.

Para este Forrobodó, Lígia dividiu a curadoria com outras quatro mulheres: Ana Fridman, Ana Laura Freitas, Marta Schmitt, Nanni Rios. Juntas, elas costuraram uma programação que evidencia a pluralidade na arte destas 25 instrumentistas. ‘Ao contrário das cantoras, as instrumentistas, arranjadoras e compositoras ainda se vêm circunscritas a nichos específicos e têm de enfrentar até mesmo um certo desconhecimento por parte de seus pares. Mas é todo um cenário que está se redesenhando aos poucos. O reconhecimento da presença das mulheres instrumentistas passa também pela atuação engajada e atenta de curadores e curadoras, comunicadores e comunicadoras”, contextualiza Lígia.

Em um formato misto, conjugando a participação ao vivo com a exibição de performances solo pré-gravadas pelas artistas, a edição terá no repertório peças canônicas de tradições populares e da música de concerto, assim como composições próprias, algumas improvisações e duas estreias de obras que foram criadas especialmente para o festival: “Forrobodó na Floresta”, de Carol Panesi, e “Forrobodó na Quarentena”, de Denise Fontoura. As convidadas de cada noite atuam conjuntamente em um único momento: todas interpretam “Porto das Flores”, composição de Rosinha de Valença que será ouvida em diferentes arranjos nas cinco apresentações.

Confira a entrevista:

Clandestina - Lígia, pra começar, tu podes dividir conosco um pouco da tua trajetória como produtora cultural?

Lígia Petrucci - Fiz concurso para programadora cultural da UFRGS em 1989 e assumi a coordenação da sala Qorpo Santo no mesmo ano. Antes disso, havia trabalhado com produção de forma independente e artesanal com o Haikai, grupo de dança do qual participava. Em um curto período, entre 2005 e 2008, produzi também o espetáculo Arrabalero, de Dudu Sperb. É difícil conciliar minha função como produtora cultural do DDC da UFRGS com outras atividades, mas pude dar continuidade à minha formação com a especialização em política cultural pela Formation Internationale Culture (FIC), em Paris; a especialização em gestão cultural pelo Observatório Itaú Cultural, de São Paulo, e o mestrado em Artes Cênicas na UFRGS. Ou seja, é uma longa trajetória, de mais de 30 anos, porém bastante circunscrita ao serviço público da cultura em uma instituição de ensino. E é justamente nesses termos que penso a curadoria do Unimúsica, pela qual sou responsável desde 2002.

Clandestina - Mesmo nesse 2020, ano tão difícil no geral e mais ainda para a área da cultura, o Departamento de Difusão Cultural decide realizar uma edição bastante impactante e relevante, voltada 100% a mulheres musicistas. Como foi essa decisão e quais são os objetivos dessa edição Forrobodó - Quando Elas Tocam?

LP - Desde o primeiro ciclo temático, a série piano e voz, de 2004, o Unimúsica se preocupou em trazer novas perspectivas, em problematizar algumas noções, alguns assuntos do mundo da música popular. Este festival FORROBODÓ dá continuidade à linha curatorial do Unimúsica ao lançar uma programação que tenta se contrapor ao senso comum de que não há, ou há poucas, mulheres instrumentistas. Nosso objetivo principal é o de chamar a atenção para essas presenças ainda tão invisibilizadas. Partimos desse compromisso. E desejamos que o público possa se surpreender como nós nos surpreendemos nesta experiência de curadoria compartilhada, que permitiu a soma, a mistura, a combinação de diferentes referências, diferentes escutas.

Clandestina - Como foi o trabalho de curadoria esse ano?

LP - Somos cinco curadoras – Ana Fridman, Ana Laura Freitas, Marta Schmitt, Nanni Rios e eu –, e a maior parte do trabalho se deu por meio de encontros online. De início, a temática seria apresentada da forma tradicional, através de concertos mensais, presenciais, no Salão de Atos da UFRGS. A proporção do desafio surgiu já na primeira reunião, pois havíamos assinalado mais de cem nomes, que então teríamos que reduzir a quatorze. O formato de festival online acabou possibilitando a inclusão de um maior número de projetos artísticos, embora aquém do que gostaríamos. As combinações apresentadas a cada noite são o resultado das combinações imaginadas por cada uma de nós.

Clandestina - Na programação, encontramos 25 artistas muito diversas, de diferentes lugares e vertentes musicais. Qual a importância de mostrar para o público a pluralidade da produção musical feminina? 

LP - Penso que a pluralidade é importante e desejável em quaisquer circunstâncias, salvo recortes que têm objetivos bem específicos. No caso do FORROBODÓ, a exposição de tão variados instrumentos – além de piano, fagote, clarinete, flauta, saxofone, harpa, violão, violino, viola, rabeca, sanfona, contrabaixo, synths, guitarra, percussão, bandoneón – e as diferentes abordagens é uma afirmação estética e também política. A ideia corrente é de que não há, justamente, tanta pluralidade quando se trata de instrumentistas, porque é uma cena ainda pouco reconhecida. Lembramos sobretudo de pianistas, violinistas, flautistas, e especialmente no contexto da música de concerto. Essa edição procura mostrar, ao contrário, quão plural e heterogênea é a música produzida por mulheres, como ela existe em todos os cantos do país e se relaciona com inúmeros gêneros e propostas.

Clandestina - Um dos pontos fortes dos shows do Unimúsica é a beleza do cenário - o Salão de Atos da Universidade. Como tu entende os desafios de transpor os espetáculos do teatro para o ambiente virtual? 

LP - De fato, essa é uma das grandes preocupações, e nós nos detivemos bastante sobre esse tema. Gostaríamos de poder manter a atmosfera de co-presença entre artistas e audiência e, ao mesmo tempo, preservar, na medida do possível, a qualidade técnica das performances musicais. A solução encontrada é um formato misto em que se alternam a exibição de performances solo pré-gravadas e a participação ao vivo das convidadas, comentando suas trajetórias e músicas apresentadas. A proposta é de que esses encontros virtuais possam também contemplar elementos da identidade visual do projeto, criada pelo aluno-bolsista Marcelo Freire.

Clandestina - O Unimúsica foi criado em 1981 e é um dos projetos musicais mais bem-sucedidos, em termos de qualidade, continuidade e consistência, do Rio Grande do Sul. A quais fatores tu atribui esse sucesso? 

LP - Costumo dizer que a perenidade do Unimúsica é exemplar para os padrões brasileiros e acredito que ela se deva a uma soma de fatores. Em primeiro lugar, é fundamental o reconhecimento e o apoio da administração central da Universidade, o que permitiu que o Unimúsica tenha sido mantido por sucessivas gestões. Igualmente importante é o fato de ter conquistado, ao longo dos anos, um público fidelizado e ao mesmo tempo heterogêneo, uma plateia atenta, envolvida com as propostas. Por fim, creio que essa duração de quase 40 anos se deva também a sua capacidade de transformação: o Unimúsica dos anos 1980 não é o mesmo Unimúsica dos anos 1990, que, por sua vez, é completamente diferente do Unimúsica das séries temáticas e do Unimúsica que veremos neste ano.

Clandestina - Quais são as tuas lembranças das primeiras edições em que estiveste envolvida com o Unimúsica?

LP - O primeiro concerto em que estive envolvida foi do Vitor Ramil, em 1998. Claudia Boettcher e eu estávamos começando nosso trabalho no DDC. Claudia havia assumido a direção do departamento, e eu era responsável pela coordenação do Unicultura, programa ao qual estava vinculado o Unimúsica, que tinha curadoria de José Carlos de Azevedo. Claudia teve a ideia de fazer um “trote cultural”, uma programação especial para a recepção dos calouros, e propus como mote a importância da criatividade na formação acadêmica. Escolhemos como divisa a frase “acima de tudo, criar”. Durante o show, Vitor se mostrou totalmente cúmplice da ideia, dizendo mais de uma vez ao público que lotava o Salão de Atos: “não esqueçam, criatividade acima de tudo na universidade!”.

Clandestina - Pode citar algumas das edições mais marcantes para ti?

LP - Difícil dizer, mas acho oportuno e até emblemático lembrar neste momento a apresentação de Helena Meirelles, violeira e compositora mato-grossense. Dona Helena integrou a programação que idealizei em 2002, já na condição de curadora, para marcar os 21 anos de criação do Unimúsica. Era uma mulher pequeninha, magrinha, de 79 anos, que siderou a plateia do Salão de Atos. Apesar de ter tido um reconhecimento tardio, ela se tornou um fenômeno da música instrumental depois de ter sido escolhida como instrumentista revelação de 1993 pela revista norte-americana Guitar Player. Antes disso, enfrentou imensos desafios para poder tocar sua viola em bares e inferninhos. Mulheres instrumentistas fazem parte do tecido cultural brasileiro e sua luta por reconhecimento vem de muito tempo.

Clandestina - Voltando à temática das mulheres na música, quais são, para ti, as musicistas que tem chamado atenção? 

LP - Vale passar a lista com todos os nomes elencados? 😉

Clandestina - Sabemos que a cultura e as artes ainda são uma área, como muitas da sociedade, dominada pelas produções masculinas. Como produtora cultural, quais são as principais dificuldades que as musicistas e artistas ainda enfrentam para ganhar seu espaço no meio cultural? 

LP - Ao contrário das cantoras, as instrumentistas, arranjadoras e compositoras ainda se vêm circunscritas a nichos específicos e têm de enfrentar até mesmo um certo desconhecimento por parte de seus pares. Mas é todo um cenário que está se redesenhando aos poucos. O reconhecimento da presença das mulheres instrumentistas passa também pela atuação engajada e atenta de curadores e curadoras, comunicadores e comunicadoras. Além do trabalho dessas artistas, é importantíssimo legitimar o jornalismo, a crítica e a programação musical que vêm sendo desenvolvidas por mulheres; é igualmente importante considerar e incentivar a participação das profissionais de bastidores, ainda uma forte minoria: técnicas de som, roadies e iluminadoras, por exemplo.

 

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Sobre o Unimúsica:

Criado em 1981 pela Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS, o Unimúsica tornou-se referência tanto para o público que acompanha a programação, quanto para os profissionais da música – artistas, críticos, professores –, que veem nele um espaço privilegiado para a difusão da música popular brasileira. Desde 2004, o festival tem se dedicado a divulgar e articular a produção de músicos e pensadores através de séries temáticas anuais;

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