23 de julho de 2020

Três Perguntas: Dessa Ferreira

A cantautora, percussionista, produtora e integrante do grupo Três Marias lança o videoclipe da música “Pulso” neste sábado (25)

Música

Entrevista: Mariana Moraes
Fotos: Luis Ferreira

No sábado, 25 de julho, Dessa Ferreira, cantora, produtora musical e integrante do grupo Três Marias, lança o videoclipe da música “Pulso”, seu primeiro trabalho autoral solo. A canção é uma das faixas que integram o seu primeiro álbum, que tem previsão de estreia para o final de 2020. O lançamento do videoclipe ocorre às 12h nas redes sociais da artista e em seu canal no Youtube. No mesmo dia, às 22h, Dessa realiza uma live que será transmitida em suas redes.  

Em “Pulso”, a artista retrata a busca pelas suas origens. Filha de piauienses, mas nascida no Distrito Federal, Dessa Ferreira vem reconstruindo e se reconectando com a sua ancestralidade indígena e africana a partir da sua vivência com a música e cultura popular. Em mais um entrevista da série “Três Perguntas”, a Clandestina conversou com a musicista sobre sua canção de estreia e traz detalhes sobre a produção do seu primeiro álbum. Confira!

 

Clandestina - “Pulso” é o seu primeiro trabalho autoral solo. A música fala sobre uma busca pela ancestralidade, por si mesma e pelas suas origens. Como nasceu essa canção e de que forma ela se relaciona com a sua vida e com aquilo que pulsa dentro de você?

Dessa - Essa canção nasce em um momento em que estou buscando mais informações sobre as minhas origens. Eu tenho uma inquietação por não saber quais são as minhas raízes africanas ou indígenas. Por muito tempo, na minha família, eu ouvia falar “seu avô era negro de origem indígena”, mas não se sabe mais nada em relação a isso. E eu sei que o Piauí, que é de onde minha família vem, assim como todo o Brasil, é território indígena. Essa busca é algo recente, veio de um processo meu de reconhecimento enquanto mulher negra e indígena. Também vem muito da minha relação com a música e com a cultura popular, dos mestres e mestras de tradições musicais e culturais de origem africana e indígena. Eles passaram a me contar histórias que eu não ouvia na minha família e que faziam muito sentido, que pulsavam em mim. 

A minha família tem uma caminhada muito presente dentro do catolicismo. Eu associo que toda essa influência do catolicismo na minha família, por mais que tenham vários pontos positivos, fez com que nos afastassemos muito das nossas raízes africanas. Esse é o processo colonial. E o catolicismo foi uma ferramenta de colonização, que ajudou nesse processo de apagamento e silenciamento das nossas histórias. Não só da minha história, mas de várias mulheres negras e indígenas. Quando eu falo pulso, também é no sentido de que por mais que eu não saiba conscientemente de muitas coisas, eu sinto pulsar dentro de mim. É importante a gente ouvir esse pulsar, que é a intuição, o coração. “Pulso” é tudo isso, traz todos esses significados.  

 

Clandestina - “Pulso” será lançada no Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha e na data que se celebra a vida da líder quilombola Tereza de Beguela. Por que esse dia foi escolhido e como você acha que sua música se relaciona com essa data?

Não foi por acaso. “Pulso” tem tudo a ver com o dia 25 de julho, porque eu estou falando de referência, da história das mulheres negras, das nossas buscas e lutas. Como mulheres negras, enquanto não nos reconhecemos e fortalecemos, não conseguimos criar muitas perspectivas, porque vivemos em uma sociedade que nos sufoca. Uma sociedade machista, misógina e extremamente racista. Nesse sentido, o 25 de julho é um dia de conquista para as mulheres negras. Em 1992, na República Dominicana, a partir de um encontro de mulheres afro-latino-americanas e afro-caribenhas, foi criada uma rede de mulheres e decretou-se o Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. No Brasil, essa data só foi oficializada no Governo Dilma, através da Lei 12.987/2014. A data foi declarada como o Dia Nacional de Tereza Beguela e da Mulher Negra. Beguela foi uma quilombola muito importante no processo da luta e da libertação do povo negro no Brasil. Então é um dia que tem tudo a ver com o clipe, porque nele falamos do aquilombamento de mulheres, da importância de nos conhecermos, trocarmos experiências. A partir desses encontros, podemos ressignificar muitas coisas e até achar algumas respostas e referências sobre o nosso passado, que é comum e também diverso. 


Clandestina - “Pulso” é uma das faixas que vai integrar seu primeiro álbum autoral solo, que será lançado ainda este ano. Como está sendo o processo de produção em meio a pandemia? E o que mais você pode nos adiantar sobre esse disco?

Assim, eu comecei a gravação em 2018. A maioria da músicas do álbum fazem parte do meu trabalho de conclusão do Bacharelado em Música Popular que eu fiz na UFRGS. Como eu tive a chance de entrar em estúdio para realizar o meu trabalho de conclusão, eu aproveitei essa oportunidade e coloquei minhas composições. Falei sobre elas, sobre o processo de produção musical, e trouxe também várias questões relacionadas à solidão da mulher negra dentro das instituições de poder. Isso veio da frequente situação de ser a única mulher ou a única mulher negra em muitas disciplinas que eu fazia. E também a única mulher percussionista do grupo em todo período em que eu estive no Instituto de Artes. Fui tentando entender o que nos afasta, por que que não estamos ali. A partir desse trabalho dentro da universidade, eu quis aproveitar esse material e lançar de forma profissional. Agora estamos em processo de mixagem, editando algumas coisas. Com essa questão da pandemia, ainda não sei muito bem como vamos finalizar. A previsão é que no final desse ano seja lançado o EP.

Compartilhe
GALERIA DE FOTOS