24 de junho de 2020

Três Perguntas: Luisa Geisler

Escritora e tradutora, Luisa é uma das principais autoras brasileiras da atualidade. Conversamos sobre o seu novo livro e sobre os desafios da profissão em tempos de pandemia

Literatura

Por Mariana Moraes

Fotos: Divulgação

Escritora, tradutora e mestre em processo criativo pela Universidade Nacional da Irlanda, Luisa Geisler é uma das principais autoras brasileiras da atualidade. Nascida em Canoas, Luisa iniciou a carreira literária aos 19 anos, quando ganhou o Prêmio Sesc de Literatura de 2010, na categoria conto, pelo seu livro de estreia Contos de Mentira. A produção também foi finalista do Prêmio Jabuti. Desde então, Luisa publicou outras cinco obras — Quiçá (2011), Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018), Enfim, capivaras (2019) e Corpos Secos (2020).  Além de ter sido novamente indicada ao Prêmio Jabuti e vencedora do Prêmio Sesc de Literatura, a autora também já ganhou os prêmios Açorianos de Narrativa Longa e do APCA de Narrativa Infantojuvenil. 

Sua última publicação foi o livro Corpos Secos, escrito em conjunto com Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado. A obra, lançada em abril, narra um Brasil assolado por uma doença fatal que transforma as pessoas em verdadeiros mortos-vivos, os chamados corpos secos. Em um cenário apocalíptico, alguns poucos sobreviventes cruzam o país em busca de um porto seguro. Em mais uma edição do “Três Perguntas”, a Clandestina conversou com a autora sobre o seu novo livro e sobre os desafios da sua profissão em tempos de pandemia. 

 

Clandestina - Você publicou o seu primeiro livro (Contos de Mentira, 2011) aos 19 anos. Quando você decidiu que queria ser escritora? Teve alguma(s) leitura(s) que te acompanhou nesse processo de se encontrar enquanto autora?

Luisa - Eu acho que só não parei de escrever. Escrevia quando era pequena, fazia uns livros com ilustrações grandes e tudo o mais. É claro que quando era pequena também dançava, atuava, cantava, mas a escrita foi o que ficou. Tenho a sensação de que todo mundo nasce com esse desejo de expressão, de escrita, mas em algum momento é podado. Eu acho que a minha árvore só era mais resistente, porque não era muito boa em redação na escola. Mas eu fazia fanfics e tudo o mais, então segui até chegar a uma oficina de criação literária na PUC-RS com o Luiz Antonio de Assis Brasil. Na oficina, soube de um prêmio literário que publicava originais e me inscrevi. O resto é resto. Mas sempre estive escrevendo, é o que quero dizer.

Sobre leituras, tentei ler Grande Sertão: Veredas quando tinha algo como 12 anos de idade. Uma professora falou que era um "livro difícil" e eu fui atrás por ser leitora. Não entendi droga nenhuma, mas li o livro de cabo a rabo, com uma paixão, uma fome de linguagem. Creio que Grande Sertão criou uma faísca de uma chama que até hoje existe. Mas só sou escritora porque gostava muito de ler. Sem ser leitora, não seria escritora.

 

Clandestina -  A sua última publicação foi o livro Corpos Secos. O livro narra um Brasil assolado por doença fatal que transformou o país em uma terra sem governo, leis ou esperanças. É quase impossível não notar semelhanças entre a ficção e o contexto atual do país. Você acredita que existem paralelos entre o Brasil distópico do seu livro e o que vivemos atualmente? Se sim, quais? Além disso, quando a história estava em processo de produção, você imaginou que o livro acabaria sendo publicado em um cenário de pandemia?

Luisa - Acho que sim, em especial alguns aspectos políticos. Alguns aspectos são assustadoramente premonitórios: cordões sanitários, outros países proibindo acesso de brasileiros, correntes de notícias falsas, pessoas em desespero, tentativas de caridade. E nunca imaginei que o livro seria publicado num cenário de pandemia. Eu imaginaria alguma crise política, mas não nesta gravidade, não com 50 mil mortos. O Samir Machado de Machado, co-autor, sempre diz que não precisava de uma bola de cristal para ver que o governo Bolsonaro seria um caos. Mas neste formato, agora? Não.

 

Clandestina - Como é ser escritora e leitora em tempos de pandemia? O que se tornou mais fácil ou mais difícil?

Luisa - Ser escritor sempre foi um processo solitário. Eu já trabalhava em casa e já tinha uma espécie de rotina nisso. Por outro lado, a ficção em prosa me tem escapado muito. Tenho tido dificuldade em escrever sem me lembrar de que "o mundo não é assim agora". Ao mesmo tempo, é difícil escrever sobre o coronavírus, porque cada semana parece uma eternidade e tem um novo sistema de regras e crenças. Não tenho escrito, exceto se obrigada por algum prazo ou compromisso anterior (risos). E não tenho encontrado o mesmo conforto em literatura de prosa. Tenho lido muita poesia: Angélica Freitas, Hilda Hilst, Wisława Szymborska, Paul Auster, Stephanie Borges. 

 

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