17 de junho de 2020

Três Perguntas: Kunumí MC

Rapper indígena da Aldeia Krukutu, em São Paulo, o músico conversou com a Clandestina sobre sua produção musical e literária, sobre a resistência dos povos indígenas e sobre o futuro

Música

Por Mariana Moraes
Foto: Divulgação

No dia 29 de maio, o rapper Kunumí MC lançou o clipe do seu novo single Xondaro Ka’aguy Reguá (Guerreiro da Floresta). Com dois discos lançados, o EP de estreia Meu Sangue é Vermelho (2017) e o álbum Todo Dia é Dia de Índio (2018), o músico encontrou no rap uma forma de retratar a realidade de força e resistência dos povos indígenas. Morador da Aldeia Krukutu, localizada na zona sul de São Paulo, Werá Jeguaka Mirim, nome de nascimento de Kunumí MC, começou a expressar seus pensamentos através da literatura, ofício herdado do pai.  Desde então, o artista já publicou dois livros  —  Contos dos Curumins Guaranis, escrito com o irmão Tupã Mirin, e Kunumi Guarani. 

Ao se aproximar da poesia, a vontade de fazer rap surgiu quase como uma consequência. Entretanto, o desejo de dar visibilidade à luta do povo indígena é antigo. Em 2014, com apenas 13 anos, Werá Jeguaka Mirim foi convidado para representar a população indígena no primeiro jogo do Brasil na Copa. Sobre o gramado da Arena Corinthians, o jovem soltou uma das três pombas da paz antes do início da partida. Ao sair do campo, ele estendeu uma faixa com os dizeres “Demarcação já”, pedindo a demarcação das terras indígenas. O protesto ganhou repercussão nacional e internacional. 

No dia 21 de junho, o rapper se une a grandes nomes nacionais e internacionais no festival mundial SOS Rainforest Live. O evento online tem como objetivo arrecadar fundos para ajudar povos indígenas e comunidades locais que lutam contra a destruição das florestas tropicais. A Clandestina conversou com o Kunumí MC sobre a sua produção musical e literária, sobre a resistência dos povos indígenas e sobre os planos para o futuro. Confira! 

 

Clandestina -  Você já tem dois livros publicados, e a literatura parece ter sido sempre algo muito presente na sua vida. Aos 17 anos, você lançou seu primeiro álbum (Meu Sangue é Vermelho). Como iniciou a sua relação com a música e, mais especificamente, com o rap? Como a sua proximidade com a poesia e com escrita se relacionam com a sua produção musical?

Kunumí MC - Quando eu era criança, meu pai sempre contava histórias aqui na aldeia. Eu gostava muito, até hoje gosto. Com sete anos, aprendi a ler e escrever, e a partir disso eu decidi escrever alguns contos indígenas, criados por mim mesmo. Eu mostrei para o meu pai e ele gostou muito. Decidi ser escritor, meu pai disse que eu tinha um dom para literatura nativa.  

Assim como comecei na literatura nativa, no rap não foi diferente. Um dia, eu estava lendo o livro de poesias do meu pai, chamado 500 anos de Angústia, e resolvi escrever poesias também. Eu vi que a poesia parecia muito com a música. Comecei então a cantar essas minhas poesias e vi que era rap, porque a letra falava de luta e tinha muitas rimas. Eu também já tinha ouvido o Brô MC's, que é o primeiro grupo de rap indígena aqui do Brasil. Eu vejo que o rap também é literatura nativa, é um rap nativo, em que o índio escreve com o pensamento dele. Assim como na literatura, eu escrevo da minha visão, na minha língua, o meu pensamento.

 

Clandestina - Recentemente, você lançou o clipe do single Xondaro Ka’aguy Reguá (Guerreiro da Floresta), que fala da resistência e da força dos povos indígenas. Em meio a tantos retrocessos, principalmente em relação à demarcação de terras indígenas, e à vulnerabilidade frente ao coronavírus, como é cantar sobre luta diante desse cenário?

Kunumí MC - Essa música é muito importante, porque é uma música de resistência. Eu canto em guarani, acredito que o nosso idioma tem a força de levar a mensagem mesmo que não entendam o que estou querendo dizer. Muitas pessoas sentem a força na própria língua. Espero que quem ainda não ouviu, ouça, porque nessa música eu levo a potência dos meus ancestrais e antepassados. Em meio a essa pandemia do coronavírus, a música também é um pedido de força. Agora chegou essa nova doença chamada Covid-19. A gente ficou com medo, porque somos uma população menor do que os não-indígenas, temos medo que o nosso povo seja infectado. Desde 1500, quando as nossas terras foram roubadas, os portugueses trouxeram muitas doenças para os indígenas. Foi ali que muitos morreram, e hoje nós somos a minoria. O nosso maior sonho é que as terras indígenas sejam demarcadas, porque a gente já perdeu muita coisa. A gente quer a natureza, a natureza viva, porque pertencemos a ela.

 

Clandestina -  Quais são os seus projetos para o futuro?

Kunumí MC - Eu moro aqui na aldeia e divulgo pela internet o meu trabalho. Sobre os projetos futuros, eu pretendo continuar cantando e escrevendo a minha literatura. Eu tenho várias músicas que eu escrevi que ainda não foram gravadas. Também tenho vários textos que eu produzi de histórias indígenas. Eu espero que alguma editora se interesse pelo meu trabalho e que eu possa publicar algum livro ainda esse ano. É muito importante para a sociedade conhecer o pensamento indígena, que não é um só  —  existem muitos idiomas, culturas e povos. O índio não é só um, não tem só um povo, existe muita diversidade.

Espero que o meu trabalho seja conhecido em muitos lugares do Brasil. Eu pareço estar sozinho, mas dentro de mim estão todos os meus ancestrais, todo o meu povo. Eu não canto sozinho. Canto junto com o meu povo: terra, ar, mar, demarcação já!

 

 

 

Compartilhe
GALERIA DE FOTOS