12 de março de 2020

Qual o futuro da Cinemateca Capitólio?

Discordâncias entre o meio cultural gaúcho e a Prefeitura colocam em jogo as incertezas e certezas sobre o que está por vir para um dos espaços culturais mais importantes

Cinema

Texto: Mariana Moraes
Fotos: Nícolas Kneip

 

Era final da década de 90 quando o Cine-Theatro Capitólio fechou suas portas. Os anos passaram e o prédio seguiu por muito tempo inativo e abandonado. Foi no começo dos anos 2000 que se iniciaram as obras de restauro do antigo prédio e o projeto de uma cinemateca no espaço começou a nascer. Em 2015, mais de 15 anos após o encerramento das atividades do Cine-Theatro Capitólio, a Cinemateca Capitólio foi inaugurada. O espaço foi resultado de uma soma de esforços do poder publico municipal e federal, da classe cinematográfica do Rio Grande do Sul, além dos moradores do entorno do prédio histórico. Nesse período, a Fundacine (Fundação Cinema RS), instituição privada que trabalha para impulsionar o desenvolvimento da indústria cinematográfica e audiovisual do estado, foi parceira na busca de recursos e de incentivo para a realização da restauração e ocupação do prédio da Cinemateca.

Em cinco anos de existência, a Cinemateca se tornou uma referência em termos de programação, educação e memória. Atualmente, a média de público é duas vezes maior que a média nacional, de acordo com programador da Capitólio, Leonardo Bomfim. De 2015 até os dias atuais, a Secretaria Municipal de Cultura, através da Coordenação de Cinema e Audiovisual, fez a gestão da Cinemateca Capitólio. No entanto, desde o ano passado, a Prefeitura de Porto Alegre planeja outro modelo de gestão: a contratualização. A medida vem gerando polêmica e críticas de diversas entidades e pessoas ligadas ao audiovisual em Porto Alegre. No dia 08 de fevereiro, a resistência do meio cultural ganhou força quando uma multidão saiu às ruas em um ato de defesa pela gestão pública da Cinemateca.

O que é a contratualização?

A contratualização propõe um regime de cooperação entre Prefeitura de Porto Alegre e uma organização da sociedade civil (OSC), que receberá dinheiro público para administrar o local. Ou seja, a gestão operacional do espaço passa a ser terceirizada. De acordo com Thiago Ribeiro, secretário de Parcerias Estratégicas, o modelo proposto estabelece uma série de metas que devem ser atendidas pela futura organização. Essa OSC será responsável por entregar relatórios periódicos de acompanhamento para a prefeitura, a quem caberá o papel de fiscalização e regulação do trabalho. A organização será selecionada por meio de um edital. “Nós tivemos o cuidado de, a partir das informações da Secretaria Municipal de Cultura, estabelecer metas mínimas de atendimento para essa futura organização da sociedade civil. Partimos do pressuposto que temos que entregar o mesmo tipo de serviço, com os mesmos quantitativos dos últimos anos, porém com espaço para que essas metas sejam melhoradas”, afirma Thiago. As metas a serem cumpridas pela OSC só serão conhecidas após a divulgação do edital de contratualização, que tem previsão de publicação para março.

Algumas organizações já têm demonstrado interesse em gerir o espaço, entre elas a Fundacine. Entretanto, a proximidade da publicação do edital não diminuiu o clima de insegurança .“A Cinemateca vem funcionando muito bem há cinco anos, com uma equipe impressionante que se dedica em nível educativo, de memória do acervo, na função social de uma cinemateca mesmo. Nada nos garante que a OSC que vencer esse edital vai realmente ter esse compromisso sociocultural com a cidade”, salienta Giordano Gio, vice-presidente da APTCRS (Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do RS).

“O que mais choca é que a parceria público-privada, que eles estão propondo, pode até não ser tão ruim, mas por que aplicar em lugar que funciona bem?”, questiona Beti Tomasi, ex-funcionária da Cinemateca e secretária da AAMICA (Associação dos Amigos do Cinema Capitólio). A associação se posiciona contra a medida da Prefeitura. “Esse é o grande problema que vemos: um administrador público entregando e se ausentando do seu dever dentro de uma ideia de que isso que é o moderno”, ressalta Luiz Antonio Grassi, presidente da AAMICA.

O que está em jogo?

Em uma breve conversa com alguns frequentadores assíduos, encontra-se uma constante quando se fala da programação da Cinemateca: a diversidade. Na contramão das salas comerciais de cinema, o perfil da programação da Cinemateca procura trabalhar com a história do cinema, buscando as mais diversas relações entre os filmes, conforme explica o programador Leonardo Bomfim. “O objetivo é que a pessoa que frequente o espaço sempre saia de uma sessão ou das mostras com uma ideia mais ampliada do que é cinema. Acho que isso é uma regra de toda cinemateca”, explica Bomfim. Além disso, o programador destaca ainda que o planejamento da programação da Cinemateca não começou ali, sendo fruto de um trabalho que iniciou anos antes na extinta Sala P. F Gastal, com a Coordenação de Cinema e Audiovisual. “Cada dia de programação aqui (na Capitólio) tem 20 anos de história da Coordenação de Cinema e Audiovisual pensando programação”, relembra. De acordo com Thiago Ribeiro, não existem riscos de perda para a programação, porque o edital estabelecerá metas que a organização selecionada deve cumprir para manter a pluralidade do que é exibido. Entretanto, Bomfim discorda: “Eu acho que isso é você transformar um trabalho criativo em diretrizes de um edital; para uma programação de cinema tem que ser um trabalho mais profundo”.

Para além de uma sala de cinema, a Cinemateca também é um espaço de memória, possuindo um acervo que está em constante crescimento. Além da função de guardar os materiais relacionados à memória audiovisual do Rio Grande do Sul e nacional, o acervo tem um importante papel na preservação e tratamento dos registros audiovisuais e demais documentos relacionados à cinematografia. A educação também faz parte dos cinco anos de história da Capitólio. Parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura, a Cinemateca Capitólio, o Ministério da Cultura do Governo Federal e a Faculdade de Educação da UFRGS, o Programa de Alfabetização Audiovisual vem realizando uma série de atividades que envolvem cinema e educação. Exibição de filmes para estudantes e professores da Educação Básica, formações docentes e cursos de extensão universitária, oficinas de introdução à realização audiovisual e mostras de cinema estudantil estão entre ações do projeto. Além disso, o Programa também produz pesquisa, reflexão teórica e publicações na área do cinema, audiovisual, educação e formação de público para o cinema nacional.

Para muitos dos frequentadores e das pessoas e entidades ligadas ao meio cinematográfico, assim como a programação, o acervo e o projeto estão em risco com a contratualização, destacando-se principalmente o primeiro, pois demanda cuidados especializados de manutenção e preservação. O secretário Thiago Ribeiro garante a continuidade das iniciativas. “Nos parece positivo o modelo porque ao mesmo tempo que ele mantém e aprimora o que já existe na Cinemateca, ele abre caminho para que o processo de gestão seja mais eficaz, mais eficiente e menos burocratizado”, enfatiza. O secretário ainda garante que a prefeitura de Porto alegre deve repassar um valor maior do que o do ano passado para garantir a qualidade dos serviços da Cinemateca Capitólio. Em 2019, a Prefeitura aplicou cerca de R$ 1,5 milhão, a Fundacine captou em torno de R$ 400 mil e a Petrobrás entrou com patrocínio de um pouco mais de R$ 200 mil, somando-se R$ 2,1 milhões em recursos. Com o novo modelo de gestão, a Prefeitura deve aumentar o valor aplicado para a casa dos dois milhões, sinaliza o secretário. O controle da utilização da verba caberá a Secretaria Municipal de Cultura.

De acordo com a coordenadora de Cinema e Audiovisual, Daniela Mazzilli, a equipe de funcionários da Cinemateca Capitólio seguirá pertencendo a Coordenação de Cinema e Audiovisual, apesar de não trabalhar mais diretamente com a Cinemateca. A coordenadora afirma que existem diversos projetos em desenvolvimento para próximos anos, inclusive a operação da Sala P.F Gastal, que deve ser reinaugurada em 2020.

Por mais que o termo pareça novidade, a contratualização não é algo pensado exclusivamente para a Cinemateca Capitólio. A política já foi implantada no Centro Multimeios da Restinga e está em processo na Pinacoteca Ruben Berta e no Atelier Livre. Pelo Brasil, existem outros exemplos de espaços culturais públicos que foram contratualizados, como o Museu de Arte do Rio (MAR). O espaço é citado pelas entidades cinematográficas como um alerta para os problemas e consequências ruins que podem derivar dessa mudança. Em novembro do ano passado, o MAR quase fechou as portas porque o Instituto Odeon, organização da sociedade que administra o local, não havia recebido os repasses públicos para executar aos serviços e pagar os funcionários.

A Cinemateca Capitólio se consolidou como um dos locais culturais de maior prestígio de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Até a publicação do edital de contratualização, seu futuro segue incerto.

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