12 de março de 2020

Entrevista: A Banda Mais Bonita da Cidade celebra 10 anos de carreira no Theatro São Pedro

Conversamos com Uyara Torrente, vocalista do grupo paranaense

Música

Por Mariana Moraes
Fotos: Lubi  Meirelles

Em 2011, A Banda Mais Bonita da Cidade ficou mundialmente conhecida com o clipe da música “Oração”, alcançando 40 milhões de visualizações no Youtube. O sucesso da música abriu uma nova etapa na carreira da banda que no mesmo ano lançou seu primeiro disco. Desde lá, dois outros álbuns foram gravados e o grupo realizou sete turnês internacionais, tocando pela França, Espanha, Portugal, Argentina, Uruguai, Colômbia e Venezuela. Atualmente, a banda é formada por Uyara Torrente (vocalista), Vinícius Nisi (tecladista), Thiago Ramalho (guitarrista), Marano (baixista) e Luís Bourscheidt (baterista).

Em 2020, o grupo completa dez anos de estrada. Hoje, às 21h, no palco do Theatro São Pedro, A Banda Mais Bonita da Cidade celebra dez anos de descobertas, crescimento e inicia uma nova fase da carreira, com a saída do baixista Marano. A Clandestina conversou com a vocalista Uyara Torrente sobre a trajetória do grupo, amadurecimento e sobre os planos futuros da banda. Confira!

Clandestina: A Banda Mais Bonita da Cidade está completando 10 anos de carreira. Como vocês começaram? Você já cantava profissionalmente? 

Uyara: Eu era estudante do curso de artes cênicas da Faculdade de Artes do Paraná e não tinha um grande envolvimento com música.  Eu cresci em uma casa com muita música, meu pai trabalha com isso. Mas eu mesma não tinha tido nenhum projeto que me envolvesse verdadeiramente com a música. Quando eu estudava teatro, eu conheci o Vini (Vinícius Nisi), que estudava música na federal. Eu propus para ele que fizéssemos um projeto para cantar músicas de compositores paranaenses. Eu estava muito encantada com as composições que eram feitas aqui. A gente acabou convidando alguns amigos pra entrar junto nessa. Era um projeto bem despretensioso, e no fim das contas, com o vídeo de “Oração”, acabou acontecendo, o que mudou a história da banda.

Clandestina: Como você citou, a banda estourou quando vocês divulgaram a música “Oração” no YouTube, até hoje todo mundo conhece. É muito comum vermos artistas que têm grandes hits sumirem e caírem no esquecimento. Dentro desse cenário musical, que às vezes é tão imediatista e volúvel, como é o sentimento de estar completando 10 anos de carreira e ainda ter o trabalho reconhecido?

Uyara: É muito trabalho mesmo. O estouro do vídeo de “Oração” foi o impulsionador de tudo, a gente nem tinha a banda como projeto principal. Isso foi muito importante para que continuássemos botando uma pilha nesse trabalho. Mas eu acho que acima de tudo, a gente trabalhou muito mesmo, realmente vestimos a camisa desse projeto. A partir disso, começamos a entender o que a gente queria fazer, quem éramos dentro desse projeto. Nesses dez anos, tudo se transformou, passamos de adolescentes para adultos, então teve toda uma transformação pessoal, além de encontrar uma sonoridade e entender tudo o que a gente queria fazer. Nos esforçamos muito para não deixar a peteca cair, que é algo muito fácil de acontecer, ainda mais sendo uma banda independente. Tivemos que aprender a gerir uma empresa e a fazer outras funções para além de músicos. Eu fico sempre bem emocionada e bem orgulhosa dessa trajetória.  

Clandestina: Sabemos que é muito difícil viver de música no Brasil, principalmente com todas as transformações que ocorreram na última década. Como tem sido a experiência de ser uma banda independente nesse cenário?

Uyara: Tivemos algumas experiências de assinar com algum empresário ou com alguma gravadora. Todas as vezes que fizemos isso foram os nossos piores momentos, foi quando fomos mais infelizes. Perdíamos autonomia, tínhamos menos controle sobre o nosso trabalho e sobre o que queríamos fazer. Consequentemente, vendíamos menos, é bem engraçado isso. Os momentos em que tivemos só a gente, como banda independente, foram quando as coisas caminharam melhor. É um processo que muitas vezes é dolorido, às vezes não temos tanta estrutura. Em alguns momentos estamos super bem, vendemos muitos shows, e tem épocas que não vende tanto. É bem inconstante mesmo, mas o preço emocional de você ter a sua liberdade, de poder fazer o que acredita, de fazer as coisas no seu fluxo e no teu tempo, não em um tempo de mercado, é o que funciona para nós. Quanto mais em dia estamos com o nosso coração, mais as coisas acontecem, mesmo sendo difícil e tendo altos e baixos. 

Clandestina: Nesses dez anos, o que você nota de diferente daquela banda que começou com “Oração”, ainda aprendendo a ser uma banda, para o grupo que existe hoje?

Uyara: Essa trajetória nos apresentou para nós mesmos. Como eu falei, o projeto era bem despretensioso, tínhamos feito poucos shows. A gente tinha tesão, desejo, fome de fazer as coisas. Eu posso falar por mim, eu demorei muitos anos para entender exatamente o que estava acontecendo, que eu tinha virado uma cantora, assumir esse lugar de estar à frente de uma banda, de ser uma comunicadora. Esses dez anos foram um processo de compreensão dessa história que foi muito maluca, um grande furacão. Eu acho que tem um amadurecimento especialmente pessoal de cada um, de se entender no meio disso tudo. A partir disso, também entendemos o que a gente queria como sonoridade, qual era a nossa estética. Mas, com certeza, partiu primeiro de uma compreensão pessoal do que a gente estava fazendo ali. 

Clandestina: Em relação à sonoridade e a estética das músicas da banda, apesar de ter passado dez anos, vocês ainda possuem uma marca autoral e uma autenticidade muito forte. Como vocês mantiveram isso?

Uyara: A banda surgiu justamente porque eu queria cantar obras de compositores do Paraná. O repertório da banda não é a gente que compõe, somos uma banda intérprete. Todo o repertório é uma pesquisa que eu faço, eu gosto muito de pesquisar especialmente artistas independentes. Agora, eu estou muito a fim de gravar mais mulheres, porque eu percebi que dentro da história da banda, o número de compositoras mulheres é muito menor do que o número de compositores homens. Não tem muito critério, eu ouço as coisas e tem algumas que falam muito com o meu coração. Tem coisas que eu falo: “Ah, eu preciso cantar isso”. Eu vou selecionando essas composições, e vamos entendendo a unidade que existe dentro disso e criando uma unidade também na parte instrumental e nos arranjos. Não temos muita regra, tipo “tem que soar um ritmo x ou y “, a gente é mais “o que essa música está pedindo?”. Vamos seguindo nesse fluxo. 

Clandestina: A música de vocês possui uma potência lírica muito marcante. Em algumas músicas, as letras são quase mais faladas do que cantadas. As canções se relacionam com outros tipos de arte?

Uyara: Eu venho do teatro, então me seduz muito a música como dramaturgia. Eu gosto muito de pensar nas personagens que estão sendo cantadas, porque existe ali uma história sendo narrada. No começo, o primeiro repertório da banda era formado por composições de pessoas do teatro. O Fressato (Leo Fressato), por exemplo, compositor de “Oração”, “Canção pra não voltar” e  “Bailarina Torta”, era meu veterano na faculdade de artes cênicas. Então, eu sempre penso muito na relação da música com dramaturgia mesmo. 

Clandestina: Esse papel de ser a vocalista, esse protagonismo que existe em estar à frente de uma banda, como foi assumir esse papel como mulher e artista?

Uyara: Posso te dizer que eu estou conseguindo entender e assumir esse lugar de uns tempos para cá, é bem recente isso. Eu passei muitos anos tendo medo desse lugar, porque de alguma forma eu não escolhi exatamente, aconteceu. Eu demorei muito tempo para me sentir segura. O feminismo foi uma coisa que entrou na minha vida e me ajudou muito a assumir esse lugar e a entender que eu era uma comunicadora, que eu estava à frente de uma banda, que eu era mulher, que eu tinha um público e que eu tinha coisas importantes para comunicar. Isso foi um processo de muitos anos, mas que só recentemente eu venho sentindo segurança de ocupar esse espaço. Foi um processo também entender que eu tava me comunicando com um público jovem, pessoas que são importantes que a gente se comunique. Se eu tivesse tido na minha juventude um canal tão direto com artistas que me dissessem coisas como a gente diz hoje sobre feminismo, por exemplo, talvez a minha história, como mulher, fosse diferente. 

Clandestina: Em relação a essa comunicação com o público, é comum vocês receberem um retorno de fãs que se identificaram com as músicas? Se sim, como é sensação de ver as pessoas se identificando com seu trabalho?

Uyara: É muito doido. É sempre muito emocionante. É tão sem barreiras, a música chega em tantos lugares, a gente tem o feedback de tantas histórias: mães que perderam filhos, e a música da banda fez parte do processo de voltar a acreditar na vida. Tem coisas muito fortes. Já vimos também adolescentes que estavam em relacionamentos abusivos e vão aos nossos shows e se percebem fortes, terminando essa relação. Então, eu fico muito emocionada. Eu não estou falando de maneira pretensiosa, tudo o que pudermos fazer para estimular a potência das pessoas, o melhor das pessoas, a gente vai fazer, porque acreditamos muito nisso. 

Clandestina: Quais são as suas referências musicais?

Uyara: As mulheres têm me inspirado muito. É um momento em que a gente vem abrindo cada vez mais o lugar para o feminino e para o feminismo. Eu tive que atravessar muitos medos para assumir esse meu lugar de hoje. Eu só consegui chegar nele inspirada por outras mulheres que fazem o mesmo que eu. Me inspirei em outras cantoras, como a Julia Branco, por exemplo, que é uma amiga, cantora e compositora maravilhosa de Belo Horizonte.  

Clandestina: Vocês já fizeram muitas turnês internacionais, como é a experiência de tocar fora de casa? Quais são as melhores lembranças que você têm dessas turnês?

Uyara: Acabou de acontecer uma coisa muito linda. A gente foi fazer uma turnê em Portugal, não fazíamos turnê lá desde 2012. Na primeira vez, fomos em um momento muito próximo do sucesso do vídeo de “Oração” e ficamos todos esses anos sem ir. E agora no final do ano passado, retornamos e foi muito emocionante chegar lá e ver o público muito atualizado e muito presente. Mesmo depois de tantos anos sem ir, ver as pessoas cantarem as músicas do começo da banda e as mais recentes foi algo bem emocionante para mim. 

Clandestina: O último álbum que vocês lançaram, “De cima do muro que eu vi o tempo”, é de 2017. Vocês têm planos de lançar um novo disco em breve? O que os fãs podem esperar do futuro da Banda Mais Bonita da Cidade?

Uyara: Nós estamos começando um novo álbum, vamos lançar alguns singles. O plano é trabalhar esse ano para lançar ano que vem um disco novo. Estamos vivendo um momento bem diferente agora, porque o baixista (Marano) da banda, que nos acompanha desde 2013 e foi uma pessoa muito importante na nossa história, está se mudando para Portugal. Agora, estamos começando todo um pensamento novo sobre a nossa estética. Decidimos não ter outro baixista, então estamos revendo toda a nossa sonoridade. Esse show que vamos fazer no Theatro São Pedro é também uma estreia desse novo momento. Estamos muito vivos. Vamos entendendo esses novos momentos para assim trabalhar em um novo disco.

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