06 de março de 2020

Entrevista: Nathalia Timberg retorna a Porto Alegre com o espetáculo ‘Através da Íris’

Atriz, que interpreta a nova-iorquina Íris Apfel, recebeu a equipe de Clandestina no Theatro São Pedro

Artes Cênicas

Entrevista: Ícaro Kropidloski
Foto: Gil Tuchtenhagen

 

A atriz Nathalia Timberg apresenta entre hoje (06) e domingo o monólogo ‘Através da Íris’ no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Com texto de Cacau Hygino e direção de Maria Maya, o espetáculo é, ao mesmo tempo, inspiração e homenagem à Iris Apfel, ícone mundial da moda que completou 98 anos em agosto. Ano passado, sua intérprete dos palcos brasileiros comemorou 90 anos enquanto conciliava a rotina de apresentações com sua mais recente personagem da TV, a Gladys da novela global A Dona do Pedaço. 

Há dois anos em cartaz, ‘Através da Íris’ engrossa agora a turnê gaúcha com mais quatro cidades - além da Capital, haverá sessões em Caxias do Sul (14 e 15), Santa Maria (21 e 22), Lajeado (27) e Pelotas (29) durante o mês de março. Longevidade e vivacidade de criador e criatura encontram-se novamente nas coxias gaúchas nas próximas semanas. Para falar sobre sua energia vital, traduzida em inúmeros projetos nos palcos e nas telas, e sobre trazer a história de Íris Apfel ao teatro, entrevistamos Nathalia em seu camarim no Theatro São Pedro, na quinta-feira (5) à noite.

Ao pesquisar sobre a vida da Íris e a sua, me chamou atenção dois pontos em comum entre vocês duas: a longevidade e a atividade na vida e no trabalho. ‘Através da Íris’ é um bom exemplo de história certa que chegou no momento certo pra você contar? 

Eu sempre preferi os personagens mais distantes de mim, porque você vem sem um modelo pré-fabricado pra ele. Mas realmente existe um caminho que eu tive que fazer, porque ela se expressa através desta persona e essa exuberância e extravagância são formas dela expressar uma personalidade que tem necessidade de se expressar e que, ao mesmo tempo, possui o retrospecto de uma vida. Uma vez eu perguntei a ela numa correspondência como que foi passar da decoração de interiores para a decoração do ser humano, que é o que ela faz. E faz isso de uma forma tão eclética, tão rica de coragem e de não ter, digamos, cânones pré-estabelecidos, porque ela mistura toda uma experiência de vida com essa mistura, com essa estética especial que é dela. Então, de repente, eu sou uma pessoa tão oposta disso. Se fosse nas Artes Plásticas, que eu fiz, haveria uma semelhança, mas com uma abordagem muito diferente. 

Eu sou realmente low profile, por exemplo, você me vê assim (ergue as duas mãos na altura do pescoço e faz um movimento para baixo que sinaliza o look básico composto por um sapato fechado e sem salto  preto, uma calça social de mesma cor e uma camisa preta social de seda com estampa geométrica em tons terrosos) e eu já estou no meu máximo, entendeu? E de repente eu entro no caminho para essa forma de expressão que não é a minha, por isso que eu prefiro personagens distantes de mim. Porque  eu não quero trazer a Nathalia, eu quero analisar a proposta de um autor, de um universo, de um ser-humano que ele me apresenta e que de repente tem os componentes dele. Então para mim isso não é uma facilidade. Eu tenho dentro de mim um posicionamento de vida quase que oposto; entretanto eu pude assumir, comprar e perceber outro. Ela é uma artista plástica muito influenciada pelo Matisse, pelo colorido e eu já não tenho isso. Então fica mais difícil você fazer a personagem quando é muito próximo de você. Eu não gosto de trazer a Nathalia para o que eu faço, a Nathalia fica em casa. 

A senhora disse que vocês conversaram por carta...

Eu tô fazendo essa personagem e ela (Íris Apfel) sabia que estava acontecendo esse espetáculo. O Cacau (Hygino, diretor da peça) teve contato com ela e houve um momento que fizeram uma brincadeira onde eu fazia umas perguntas pra ela e ela fazia umas pra mim. E uma dessas que eu coloquei, sabendo da formação dela na decoração de interiores, era de como foi passar da decoração de interiores para a decoração do ser humano. Porque ela usa muitos acessórios, ela mesmo faz questão de dizer que não é um estilista e reclama que usam o termo fashionista. 

Ela é um ícone, certo? Qual a sua relação com a moda?

A minha relação com a moda é como a de qualquer pessoa informada nos dias de hoje, mas nunca foi um hobbie ou uma atenção específica minha. E nesse ponto talvez eu tenha algo em comum, depois que eu conheci as propostas dela. Por exemplo, eu odeio quando existem imposições estéticas de ano, de momento. Eu gosto quando eu vejo roupas bem pensadas, que dificilmente você vê hoje, porque são obras de arte e de conhecimento. O Dener (Dener Pamplona de Abreu, estilista paraense) foi um grande amigo meu, mas eu nunca tive essa preocupação. Eu gosto de me vestir de acordo com o que eu sinto, eu uso da moda o que eu acho que seja uma sugestão que me agrada. Eu prefiro não usar o que está na moda no momento porque vira uniforme. Eu tenho uma formação de artes plásticas, então eu desenvolvi essa espécie de observação estética que tem a ver com a minha visão das coisas. A moda às vezes é interessante e às vezes ela é absurda, porque ela procura atender a coisas que funcionam pra um indivíduo, mas não funcionam pra outro. Eu acho que a moda hoje em dia tem que atender um mercado que precisa se renovar, então geralmente procuram com que você tenha que jogar tudo fora. Antigamente uma roupa ela vinha e ia mudando porque a vida ia mudando, mas não era assim. É claro que a mulher assumiu a calça comprida, diante da vida moderna você não vai vestir uma anquinha ou pufe. Por outro lado há coisas que te inspiram, então eu me dou essa liberdade que essa mulher tem, que é uma das coisas lindas dela. 

E nessa personagem que ela desenvolveu, apesar de todo exagero que ela usa, do exotismo, aquilo sempre tem uma estética. Se quer um exemplo disso procura ver o livro que o Eric Boman fez da exposição dela. Imagina que essa mulher é a única pessoa viva que teve uma exposição no Met (Metropolitan Museum of Art em Nova York), que pediram a ela para fazer as composições e ela fez pessoalmente com o acervo dela. Então você pode, por temperamento, se vestir de outra maneira, mas entender e encontrar a estética e o discurso dessa estética que é o importante. Então se o ser humano tivesse o bom senso, usaria da moda o que lhe estimula, o que lhe convém. Eu adoro caftan, por exemplo. Eu acho bonito o bailado dos panos, a proposta. Se você deixa o pano cair naturalmente, ele já tem uma proposta linda. Eu sempre gostei disso, isso faz parte do que eu gosto. Eu já acho, por exemplo, que quem tem um corpo, digamos, anatomicamente agradável diante do que você considera agradável, me agrada. Eu nunca achei nada de agressivo no nu, fiz escola de Belas Artes e o que eu mais fiz foi desenhar (corpos) e é lindo o corpo humano. Agora você tem que saber usar o corpo humano, tem pessoas que esteticamente procuram expor uma coisa que era melhor não expor. Não é que ela deva se sentir mal, mas ela deve usar melhor esteticamente aquilo que ela tem e não procurar usar só porque está em moda. Eu quero que você veja bem que eu não estou falando em preconceito em relação a uma coisa física, mas você tem a sua estética e de repente você sabe ver exatamente o que, dentro de uma proposta, serve e não serve independente da moda. Algo que ao invés de te colocar melhor, te expõe numa situação em que você não vai ficar bem. A moda tem certas regras que nós devemos ter o bom senso de distinguir. O próprio caminhar das coisas no mundo leva você a procurar uma coisa que te sirva melhor. Eu acho que tudo na vida antes de mais nada tem a ver com bom senso.

A gente está conversando aqui no Theatro São Pedro e a senhora teve uma relação de amizade com a Dona Eva Sopher, certo?

Uma relação de amizade baseada em admiração do ser humano, do que ela representava e da qualidade humana dela. Eu tive o prazer de ver essa relação crescer e se transformar em uma amizade na forma mais profunda dessa palavra que hoje em dia virou meio genérica. Ao mesmo tempo, ela nasceu de uma profunda admiração que eu tinha por essa mulher.

É especial se apresentar no Theatro São Pedro? 

Pra mim é. Eu não consigo entrar aqui sem de alguma forma abraçá-la e me sentir abraçada. Ela e tudo o que isto representa, porque a forma dela em sentir e ver o teatro é próxima da minha. De ver a arte de forma geral, a música, a literatura. Eu dizia sempre que as pessoas que tomam a responsabilidade de um teatro nas mãos, deviam ter sido obrigados a fazer um estágio com essa mulher pra entender o que é ter um teatro nas mãos. 

Depois de Porto Alegre vocês visitarão cidades do interior do Estado e esse movimento de contemplar cidades fora do circuito das capitais é muito interessante. 

Cidades que eu já conheço muito porque eu visito o estado que eu adoro. Porque vocês têm uma forma especial de se relacionar com o teatro. Eu sempre digo que eu frequento o Theatro São Pedro antes da grande reforma, eu fiz a primeira e única viagem do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia, do qual fez parte de 1956 a 1962), eu vim com quatro peças aqui. Eu estive em Santa Maria algumas vezes, estive em Pelotas e eu sinto um movimento muito intenso de interesse verdadeiro pela cultura no estado e nesta cidade em particular.

Como a senhora tem percebido o público que vai ao teatro no Brasil? 

Nos dias de hoje nós temos realmente um momento muito difícil no mundo. Então certas coisas estão evidentemente numa passagem dolorosa, seja ela qual for. Você tem pavor de retrocessos, enquanto que a tecnologia avança vertiginosamente, o pensamento humano tem regredido por não saber lidar com a velocidade que o nosso tempo imprimiu e que impede às vezes o aprofundamento. Eu digo isso em todos os níveis. Agora quando você chega ao nível que nós estamos vivendo no século 21, em que você ainda se depara com posicionamentos sociais e políticos inaceitáveis no mundo de hoje, você questiona como está sendo dirigida essa visão de uma modernidade que quer conquistar tempo em detrimento de uma qualidade de pensamento que o homem já atingiu. 

Já foi mais fácil ser artista?

Já foi mais fácil viver nesse mundo. Porque eu acho que se você quer conhecer uma época você vê a arte que ela produziu, a arte é sempre a expressão de uma época. Mas você sente que essa época não está ainda encontrando a sua forma de ser e resistir, porque ela está cheia de todas controvérsias possíveis e os grandes embates ainda estão acontecendo e de uma forma bastante atabalhoada e inaceitável para quem já viu o caminho que a humanidade tomou e os problemas que hoje ela enfrenta, de ódios raciais e políticos. Há um desentendimento completo do que seja os direitos, eu não falo dos Direitos Humanos porque isso pode ser tomado agora como um posicionamento diante de uma coisa que não é. 

Aquelas coisas dos caminhos da humanidade, porque toda caminhada civilizatória, seja em qual parte do mundo ela foi, ela teve um caminho. Eu digo a você, eu sou quase centenária, eu sou nonagenária e eu me lembro de quando terminou a guerra e eu era menina - durante a segunda, porque na primeira eu não era nascida. Eu era bem jovem, mas já tinha um princípio de formação que é o que está sendo abandonado por fórmulas e aparelhos e por regras novas de educação onde a criança não entendeu as operações, mas está aprendendo a apertar botão. As pessoas estão vivendo apertando botões e sem entender os caminhos, então estamos andando tecnologicamente pra frente cada vez mais rápido, mas cada vez se raciocina menos. Há uma mutação vertiginosa no mundo e lidar com isso não tem sido fácil, o que não pode é regredir na percepção do homem de si mesmo e achar normal tratar um ser humano que não teve acesso a sua formação como um ser inferior. Talvez ele tenha uma civilidade que vá muito mais longe porque é vivida do que uma que é técnica. Temos que rever essas conquistas e colocá-las na dimensão que o homem já atingiu. Acho eu. Não estou querendo ditar regras. 

Ano passado você participou também da temporada de Sessão de Terapia e da novela A Dona do Pedaço. Você tem planos de projetos futuros que possa dividir conosco?

Eu tenho planos futuros com os mesmo produtores de Através da Íris, nós já temos uma peça programada. Terminando essa etapa nova da Íris vamos entrar com a peça Três Mulheres Altas do (Edward) Albee. 

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Serviço

ATRAVÉS DA IRIS
Dias 06, 07 e 08 de março
Sexta e sábado, às 21h e domingo, às 18h
Theatro São Pedro
Praça Mal. Deodoro, s/n – Centro Histórico – Porto Alegre/RS

Duração: 50 minutos
Gênero: Documentário Cênico
Classificação etária: 12 anos

Ingressos
Galerias: R$ 50,00 (inteiro) / R$ 25,00 (meia-entrada)
Camarote Lateral: R$ 100,00 (inteiro) / R$ 50,00 (meia-entrada)
Camarote Central: R$ 110,00 (inteiro) / R$ 55,00 (meia-entrada)
Plateia: R$ 120,00 (inteiro) / R$ 60,00 (meia-entrada)
Cadeiras Extras: R$ 120,00 (inteiro) / R$ 60,00 (meia-entrada)

Descontos*:
50% para associados da AATSP
50% para estudantes, jovens de baixa renda e pessoas com deficiência
50% para idosos
50% para associados titulares Clube do Assinante ZH e um acompanhante
*mediante apresentação de documentos que comprovem o direito ao benefício

Vendas:
– Online: www.teatrosaopedro.com.br
– Bilheteria do Theatro São Pedro: de segunda a sexta-feira, das 13h até o horário de início dos espetáculos. Quando não há espetáculo, das 13h às 18h30. Nos sábados e domingos, das 15h até o horário de início dos espetáculos.

Mais informações para o público:
(51) 3227.5100 / 3227.5300 com a equipe do Theatro São Pedro

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