16 de dezembro de 2019

Cine Esquema Novo: BASE- Líbano

Entrevista com Ali Khodr, da mostra Mostra Universitária BASE-Líbano, que integrou o último Cine Esquema Novo, em novembro

Cinema

A Mostra Universitária Base-Líbano, que integrou o último Cine Esquema Novo, em novembro, apresentou um encontro entre processos, entreolhares de cinco realizadores e seus primeiros filmes, que se abriram para outras formas-cinema, menos convencionais, contaminados pela temporalidade e pela materialidade da experiência, por vezes brutal, e suas sutilezas. São títulos assinados por alunos da faculdade de cinema da AUL Kaslik no Líbano com curadoria da BASE-film, plataforma colaborativa de produção audiovisual a partir de práticas processuais de construção de imagem, capitaneada pelos brasileiros Camila Leichter, Mauro Espíndola e o libanês Ali Khodr.

A Revista Clandestina conversou sobre as obras que compõe a Mostra BASE-Líbano com o curador Ali Khodr. Confira!

Clandestina - Como foi o processo de curadoria dos filmes que integram a Mostra Universitária Base-Líbano? Existem temáticas comuns que perpassam os filmes? Se sim, quais? 

Ali Khodr - O processo de seleção e temáticas que perpassam os filmes não se deu através de uma curadoria mas pelo meu envolvimento, como professor, com quatros estudantes da faculdade de cinema da AUL Kaslik, sendo três deles formandos cujos filmes eram projetos finais, e o filme Lucid, de Nariman Zahran, que era o projeto final  para uma disciplina.

Este envolvimento foi acontecendo desde o início do processo. Enquanto percebia um potencial muito forte destes estudantes de fazerem trabalhos interessantes, o contato humano foi revelando pessoas dispostas a trocar, elaborar juntos ideias e rever questões que se relacionam com as formas sociais no Líbano.

Uma pessoa que conhece um pouco o país e sua composição política e social, seria capaz de identificar de que área, de que setor vêm cada um desses quatro realizadores que estão à procura de uma poética a partir da sua própria realidade. Uns com mais força, outros com mais delicadeza, eles vão trazendo referências que também correspondem às suas origens. No Líbano existe um sectarismo originário desde o mandato francês até a guerra civil que acabou politizando e separando ainda mais a sociedade. Seria como, por exemplo, imaginar a bancada evangélica no Brasil de agora com vários partidos expressivos baseados em princípios religiosos e pensar isso dentro do tempo, sendo alimentado e enraizado na sociedade por décadas. A questão é que existem muitas pessoas, especialmente da geração destes realizadores, que tem colocado essas questões em cheque e que tem pensado diferente. Ainda assim, é possível perceber a aparição destas referências sectárias nos trabalhos da mostra. Cada um tem uma referência bem clara de como pensa o mundo e essa referência de como pensa o mundo diz respeito a seita que pertence, mesmo que não assumidamente. Então, as questões da fabricação das heranças e como isso também é tratado na arte é um aspecto importantíssimo desta experiência fílmica que propomos, realmente importante na realidade libanesa e diante do que está acontecendo no mundo. É um olhar sobre coisas que talvez os próprios realizadores não tenham tido uma noção anterior e que surgiu nas discussões após terem realizado o trabalho. No processo, queria que eles realmente avançassem, aprofundassem as questões que queriam colocar, questões que não são ligadas diretamente ao sectarismo do Líbano, seja xiita, sunita, maronita, ortodoxo, cristão ou muçulmano; questões que não são postas diretamente mas que transpareceram quando passamos a analisar juntos cada filme. Foi assim que aconteceu. Em termos gerais, foi o processo de envolvimento com esses trabalhos que gerou a proposta da mostra, principalmente por terem um posição crítica diante de questões urgentes e que são bem diferentes umas das outras. 

O filme A Lover’s Journey, de Jawad Rida, um libanês de origem xiita, foi feito no Irã e faz parte do seu processo de busca pela poesia num contexto em que o xiismo é considerado assustador, principalmente agora quando a revolta do povo está tirando as máscaras de representantes religiosos e políticos como Hassan Nasrallah do Hezbollah. A questão de como o povo libanês tem uma espécie de receio dos xiitas, se recusando em pensar o país sob a ótica iraniana, que tem um exército, uma milícia armada que controla o país de forma indireta e também direta, apareceu claramente. Uma pessoa dessa origem não vai poder reinventar suas referências e fazer coisas além, coisas para criticar a sua própria realidade. É nesse contexto que Jawad vai ao encontro de um amigo no seu lugar de origem para encontrar os dervixes que dançam, inclusive uma mulher que dança e que, ao dançar tão livremente e sem véu, transgride diretamente um tradição. No oriente, uma mulher que dança sem o véu numa sessão de dervixes sufis é realmente uma transgressão direta e de grande poesia. A imagem de Jawad está impregnada do seu olhar apaixonado pelo que estava acontecendo. Considero que este trabalho vai no âmago das questões da origem do Jawad e traz consigo esse algo, essa coisa com uma poesia muito real, quase documental. Ele está ali, apenas olhando e capturando as imagens. Já Ahmad Moussally é sunita e tem um pensamento ortodoxo da religião. Mas como um sírio imigrante, trás também uma camada diferente. Os sunitas existem em maior quantidade no Oriente Médio em outros países. Palestinos, jordanianos, na Arábia Saudita, no Egito e na Síria a maioria sunita são pessoas que pensam de uma forma esteticamente, sem querer resumir, ao pé da letra. Para os ortodoxos, as interpretações do Alcorão, por exemplo, são ao pé da letra. Ahamd tem esse literalismo duro. The Middle Beast é feito por recortes, encenações compostas e recompostas que refletem uma maneira de pensar, uma sintetização que tenta elaborar uma forma cinema crítica sobre a posição da mulher. O filme tem algumas ressalvas por questões de tempo de trabalho de filmagem mas achei que Ahmad realmente conseguiu trazer sua maneira de ver as coisas esteticamente e colocar questões sociais muito presentes, inclusive a destruição da Síria que, no filme está na ideia do personagem principal que realiza uma cirurgia para poder enxergar e, quando consegue ver, toda essa realidade, tão literal, tão dura, tão recortada, faz com que essa personagem deseje voltar a ser cega, voltar a não ver. Lucid, de Nariman Zahran vai propor uma sensação de enjôo da realidade e da sua dureza, um dobramento da própria realizadora que performa uma tentativa de negociação das suas questões internas no filme. E, por fim, Lust vai abordar diretamente da questão religiosa dos maronitas que são considerados os católicos do Oriente. O filme propõe um dilema da estudantes de artes que se apaixona por um padre durante uma aula de pintura e essa questão, para a realidade do Líbano que tem esse problema da afirmação das identidades muito forte e presente é uma questão crítica. São trabalhos que precisam ser vistos no contexto mas que também possuem uma autonomia poética. Ainda hoje, é muito mal visto tratar dessa questão aqui onde, diferentemente do ocidente, o cristianismo é muito forte e é preciso equilibrar todas essas forças das religiões existentes nesse pequeno país.

Clandestina -  Qual a proposta da mostra e como ela dialoga com o restante da programação do Cine Esquema Novo?

Ali Khodr - Estamos vivendo um momento de radicalidade. No Líbano, as ruas estão tomadas pelo povo, as praças foram ocupadas por gritos de rebeldia, revolta e insatisfação. Queremos mudar todo o sistema.

A ideia surgiu como uma possibilidade de intercâmbio, de troca de olhares entre a faculdade de cinema da AUL Kaslik e o Cine Esquema Novo, envolvendo trabalhos que abordam perspectivas diferentes, estéticas e o processo de quatro realizadores, estudantes orientados por mim e propor um encontro entre olhares. Começamos em junho, ao final do processo de conclusão de curso quando, pela primeira vez, incorporamos ao nosso trabalho de produção audiovisual enquanto BASE-film que é esse espaço de produção audiovisual entre Mauro Espíndola, Camila Leichter e eu, uma proposta de relação com o espaço de montagem de experiências construídas por outros artistas, constituindo com eles aquilo que tem sido a nossa prática de tentar dar a ver questões que nos habitam, nos assombram por meio da construção poética da imagem e da experiência audiovisual. 

Como BASE trabalhamos com uma necessidade de elaboração de pensamento e de reconhecimento de um lugar comum. É por onde buscamos por condições próprias de nos relacionar, por meio da experiência audiovisual, com o que do passado nos habita, e com o que afeta o outro. Esse lugar de convívio e de produção audiovisual tem nos permitido transformar a distância que delimita nossa prática, entre sul do Brasil e norte do Líbano e compartilhar um modo de operar que foi se formando ao longo de experiências de trabalho em diferentes países e contextos de produção como França, Inglaterra, Alemanha e, em 2017, Líbano quando realizamos BLANK Damour que participou do Cine Esquema Novo em 2018. Foi por meio desse processo, desde realização à exibição, que tivemos um entendimento de como é a realidade daqui. E O Cine Esquema Novo que desde o começo do nosso trabalho vem nos apoiando e possibilitando espaços para uma interlocução muito específica, acolhendo nossas experimentações e permitindo que elas sejam compartilhadas, possibilitou mais uma vez um espaço para um diálogo como esse que configurou a mostra. Fomos tateando um pouco no escuro de como isso poderia entrar neste espaço de troca, de intercâmbio mas acho que as coisas foram acontecendo de uma forma muito natural como a revolução foi acontecendo aqui no país. Tinha tudo para isso acontecer, para sair para fora, para as pessoas colocarem essa realidade para fora e sinto que entre a BASE e o Cine Esquema Novo aconteceu da mesma forma.

Os filmes foram produzidos e realizados poucos meses antes da revolução que agora esta acontecendo no Líbano. Havia um terreno sendo preparado para as pessoas descerem às ruas e se encontrarem em todas as suas diferenças, misturando todas as cidades desse país onde cada cidade pertence a uma vertente política e religiosa específica. É durante esse movimento revolucionário que esses filmes foram produzidos. Nesse meio tempo, acontecimentos no Brasil que buscam embrutecer as relações e as diferenças por meio da violência, destruição ambiental, capitalização da vida, perseguição da cultura e assustadoramente, imposição religiosa colocando todos nós diante de um abismo que hoje no Líbano sofremos as consequências brutalmente. É como os acontecimentos no Líbano nos permitisse ver um possível duplo temporal de um futuro no Brasil. 

Clandestina-  Como você avalia a importância do intercâmbio de olhares entre os realizadores libaneses e o público brasileiro? O que você acha que pode nascer desse tipo de troca?

Ali Khodr - NA mostra foi uma preparação de terreno meio que espontânea e depois os fatos e a realidade confirmaram interesse de isso existir. A Mostra Universitária BASE-Líbano foi organizada através da BASE-film como o Cine Esquema Novo e acho que isso tem uma importância pelo período que estamos passando e pelo que esta acontecendo no mundo inteiro, da revolta das pessoas que quererem ser apenas seres humanos com seus direitos e que não querem mais essas separações partidárias, dicotomias multitônicas pois tem necessidades muito mais profundas de quererem viver uma realidade com o mínimo possível e com dignidade e é isso que tem acontecido aqui. No Chile, na América Latina em geral, na França, em vários outros países e isso mostra que essa abertura que temos no Brasil, agora em risco, esse olhar para uma realidade outra que ainda é possível e como podemos nos ver nela e como isso pode ser importante nas nossas trocas, de se reconhecer no outro diante do que no Brasil está acontecendo, de se distanciar na laicidade na política, um projeto de religião e política de algumas décadas enquanto no Líbano é algo que acontece desde a sua origem.

Acho que pode de alguma forma, num contexto micropolítico, essa relação que a mostra representa dialoga no nível de ver para que lado o mundo esta indo.

Os filmes que saíram deste contexto foram uma proposta de diálogo com o Cine Esquema Novo e quando a decisão vem de que vamos realizar esse projeto explode a revolução que não poderia ser mais espontânea. Foi realmente espontânea e tinha que ser dessa forma e assim também esperamos que aconteça no Brasil.

Fiquei muito feliz com essa troca e meus alunos, que agora não são mais alunos e já estão começando a trabalhar também. Eles estão dentro da revolução, participando, filmando e projetando coisas adiante e espero que isso possa criar novos projetos e novos olhares e também ampliar uma troca. Não sabemos como vai ser para adiante. Vivemos aqui uma realidade cada vez mais tangente ao mundo.

A Mostra Universitária BASE-Líbano ocorreu em sessão no dia  22 de novembro de 2019 na Cinemateca Capitólio Petrobras integrando a programação da 13º edição do Cine Esquema Novo, mesmo dia em que se comemora a independência do Líbano, marco de uma história oficial que hoje estamos lutando para reinventar.

Compartilhe
GALERIA DE FOTOS