13 de dezembro de 2019

Entrevista: Luiza Lian

Conversamos com a artista, que sobe ao palco do Agulha nesta sexta (13) com o show/instalação 'Azul Moderno'

Música

Entrevista: Mariana Moraes
Foto: Filipa Aurelio e Fernando Banzi

"Que aquela hora, transando com você/ Eu senti que transava uma multidão/ Que eu era mil mulheres também.”


Luiza Lian, artista ganhadora do prêmio APCA como Melhor Disco de 2018, vem a Porto Alegre para apresentar, pela primeira vez na Capital,' Azul Moderno', espetáculo com grande força visual.  Para ela, o trabalho representa, após seu disco homônimo de 2015 e Oyá de 2017, o encerramento de uma série de ciclos pessoais e profissionais. Luiza Lian e todas as suas mil mulheres sobem ao palco do Agulha nesta sexta-feira, 13, fundindo ancestralidade e tecnologia em uma apresentação plena de camadas visuais. 

A Revista Clandestina conversou com a artista sobre força feminina, melancolia e a vida cotidiana presentes em Azul Moderno. Confira: 

Clandestina - O “Azul Moderno” é um álbum muito mais delicado, melancólico, tanto nas letras quanto musicalmente, quando comparado aos seus outros trabalhos. Essa foi a intenção ou foi algo que surgiu naturalmente? Como foi o processo de produção?

Luiza – Eu acho que um disco é consequência de vários momentos diferentes que a gente está vivendo, sabe? Eu acho que essa melancolia fazia parte de um momento meu, desde o momento que eu estava compondo. Mas na hora que eu estava produzindo ele, isso já começou a se transformar, porque não é aquela melancolia que está descendo, é uma melancolia que está subindo pra gente se transformar em uma outra coisa depois que a gente já foi, já se despediu. Foi algo que veio bem naturalmente.

Clandestina - A faixa “Mil Mulheres”, pessoalmente a minha favorita do álbum, traz um pouco dessa potência de ser mulher, a força do coletivo, o protagonismo feminino. Sendo artista e mulher, o que essa música representa pra ti?

Luiza – Essa música foi feita numa transa ou logo depois de uma transa de uma história que estava se desfazendo. Eu percebi que aquele sentimento era muito maravilhoso e muito triste ao mesmo tempo, porque por um lado era lindo esse lugar de se sentir mil mulheres, por outro é como se você se perdesse nessa multidão de mulheres que você está sendo ali. Eu escrevi, na verdade, um bilhetinho para deixar (que eu não deixei)... Acabei, assim, fazendo a música depois. Esse disco, de maneira geral, eu evoquei mesmo uma certa ancestralidade feminina, porque fiquei com vontade de, junto com a Leda (Cartum) que é compositora de algumas faixas comigo, evocar as histórias das nossas avós e da maneira como apesar da nossa geração já ter sido criada de um jeito muito diferente, a gente ainda, por mais que os amores se transformem, que estejam mais líquidos, que as pessoas tenham vontade de ser mais livres, se apóia em estruturas que são muito antigas. Então, acho que a gente quis contar um pouco essa história, do feminino mesmo, desse pertencimento e não pertencimento a esse tempo que a gente está vivendo. E também desses lugares, é tão clássico em música você ouvir falar sobre a espera, sobre a mulher que é deixada e ela fica ali esperando na janela. O quanto que em algum lugar ali, profundo e difícil de encontrar, por mais transformada que a gente seja, essas estruturas ainda ecoam dentro da gente. Eu quis trazer também a energia das Yabás, da Pomba Gira, que evocam essa dança, esse feminino das ancestrais. 

Clandestina - Em algumas músicas do álbum “Azul Moderno”, como “Geladeira”, “Vem Dizer Tchau” e “Notícias do Japão”, notamos um retrato de situações mais banais, cotidianas, ou até mesmo mais íntimas, indo além de uma espiritualidade que estava muito mais presente nos outros álbuns. Isso também foi recorrente a esse retorno para a ancestralidade feminina?

Luiza – Sim, total. Tem bastante a ver mesmo. “Geladeira” é uma música que começamos a fazer com um exercício de brincar com os lugares da casa. Eu mostrei o refrão para a Leda que eu tinha feito: “pano pra molhar o chão, hoje não”, e a gente ficou imaginando uma casa que fosse tomando memória da pessoa e que fosse se transformando.  Essa pessoa ao mesmo tempo está se desfazendo dessa casa, dessa mulher que esperava. Claro que a espiritualidade é algo muito presente na minha música, porque é algo muito presente na minha vida e no meu universo simbólico. Mas eu tive vontade de levar para um lugar que senti que poderia ficar um pouco mais natural para mais gente, que era o lugar dos entendimentos, de onde as coisas estão, coisas que são palpáveis. Claro que esse universo simbólico específico, cantar para as Yabás, Pomba Gira, ele tem um lugar dele, mas eu acho que quando eu canto sobre despedida, sobre você se transformar, isso também é espiritual. Para mim, espiritualidade é isso, apesar de eu ser dessa religião que louva os Orixás ou Caboclos, eu sou uma pessoa de São Paulo, eu estou no cotidiano, naquela selva de concreto, não tenho muita certeza de nada, mas tem alguns mitos que me direcionam. Então, eu tento trazer esse híbrido mesmo, que eu acho que é o meu lugar de fala. 

Clandestina - Em uma outra entrevista sua, descobri que você foi criada em Trancoso, na Bahia, e depois se mudou para São Paulo. São lugares bem diferentes, São Paulo é uma megalópole. Em algumas músicas, você fala sobre essa dicotomia entre a cidade e a natureza, você acha que ter morado nesses lugares influenciou na presença dessas temáticas nas suas letras?

Luiza – Acho que muito, com certeza. Apesar de eu ter deixado Trancoso ainda criança, eu voltei muito para lá, e era um lugar com uma natureza muito poderosa, muito lindo, paradisíaco. Eu sempre fui muito para natureza, meus pais me levavam muito para viajar, eu tive essa oportunidade. E para mim, a vida é espiritualidade, é estar nessa conexão. Mas por outro lado, como eu falei, eu cresci na cidade, eu adoro morar em São Paulo, eu morava no centro da cidade, no meio de toda a loucura, de todo o caos, acompanhando as vidas que vão ficando invisíveis por quem só passa por ali. Talvez a religião tenha sido uma maneira de ter me mantido conectada com a natureza. Eu sou bem conectada, eu preciso muito de tempos em tempos voltar para a natureza, estar no silêncio, desligada. 

Clandestina – De onde que vem essa tua conexão com a natureza, com a religião?

Luiza - É uma coisa que veio da minha família. Ela é bem espiritualizada, tanto minha mãe quanto meu pai. Desde pequena, meu pai me levava em terreira de Umbanda. Minha mãe fazia parte de histórias mais míticas, um pouco mais alternativas. Com 15 anos, eu comecei a tomar daime e tomo a vida toda desde então. É uma coisa que veio da minha família, mas de um jeito muito tranqüilo, sempre em lugar de que são entendimentos, cada um pode ter o seu, sempre com muito respeito. 

Clandestina – Então trazer essa espiritualidade, a religião para a tua música foi algo muito natural?

Luiza – Eu acho que até mais do que trazer, a espiritualidade, a religião são a minha música. Recentemente, eu gravei uma música com o Bixiga 70, e a gente fez algumas coisas no tambor, e eu realmente, durante esse três anos, fiz questão de deslocar o máximo que eu conseguisse para não parecer que eu estou tentando criar uma terreira eletrônica ou reproduzir algo que acontece nos terreiros no meu palco. Eu propositalmente tive vontade de construir esse espelho para um outro lugar, ainda que eu tivesse cantando espiritualmente. Mas cantar com os tambores é a minha casa, é a minha maior escola, isso é uma coisa que faz parte da vida há muitos anos, então naturalmente isso vai invadir a minha música. 

Clandestina - Em um espaço de tempo relativamente curto, desde o lançamento do teu primeiro álbum em 2015, você já produziu outros dois álbuns. O que você nota de diferente da Luiza, tanto como pessoa quanto como artista, de 2015 para a de 2019? 

Luiza – Nossa, muitas coisas. O meu primeiro álbum foi feito em bastante tempo, acho que a gente começou a fazer ele em 2012. Já o segundo álbum, “Oyá Tempo”, não tava planejado para ser meu segundo disco, eu já tava começando a fazer o “Azul Moderno”, mas daí eu fiz a experiência do Oyá, porque eu tava precisando, era uma coisa que gritou mais do que eu. Eu acabei fazendo um álbum visual, ele foi consequência de várias alianças, com vários artistas diferentes. No momento que eu fiz isso, que eu dei essa quebrada no curso do trabalho, eu percebi que era isso que eu precisava fazer, sempre me colocar a prova, me desafiar, me colocar em lugares que não são necessariamente confortáveis. Acho que nosso trabalho agradece quando a gente faz isso, quando a gente se arrisca por ele. Agora eu tenho uma Luiza que tem mais coragem de se arriscar e que conseguiu fazer a história dela nesse movimento mesmo. Acho que quem me acompanha sabe que eu vou mudar e que tudo bem, não significa que eu vou perder minha integridade. 

Clandestina - Além de cantora, você também é artista visual. Quem surgiu primeiro: a Luiza cantora ou a artista visual?

Luiza – Boa pergunta essa, não sei se eu já pensei sobre. Desde pequena eu gostei muito das duas coisas; eu achava que ia ser cantora, mas minha mãe não botava muita fé, ela achava que eu ia ser mais artista plástica, eu amava desenhar. Quando eu escolhi fazer uma faculdade, eu sabia que eu queria cantar, mas eu imaginei que a formação de artes visuais ia ser mais rica para mim. Eu acho que foi bom ter esses dois lados. Eu acho que essa duas Luizas andam muito juntas, porque tem muita imagem na minha música, eu componho enquanto artista plástica. Eu me inspiro muito nos artistas visuais para criar música. Hoje em dia, eu consegui encontrar esse papel que para mim tem sido mais interessante, de ir direcionando o trabalho, não faço questão de ser essa millenium que faz tudo, mas eu faço questão de ser a minha diretora, a diretora do meu show, de ser a diretora artística do meu trabalho. Para mim, essas duas coisas foram me levando para esse caminho de ser uma diretora, que é o que eu curto fazer. 

Clandestina - No álbum “Oyá Tempo”, que também faz parte do repertório do show no Agulha, você propõe uma reflexão sobre o tempo, sobre o passado, sobre nossa ancestralidade. Qual a importância você vê em refletir sobre essas questões? Você acha que o passado nos ajuda a compreender o presente?

Luiza - Eu acho que o passado está aqui, a gente olhando para ele ou não. Ele compõe muitas estruturas, seja nosso passado que não lembramos, como quando você é criança e muita coisa acontece com você e te constrói socialmente, seja esse passado mais estrutural, social, que vai formando o que a gente é agora, tanto as nossas belezas, a nossa cultura, os nossos preconceitos, nossas limitações. Tudo isso é formado por um conjunto de pessoas que vieram antes de você. Eu acho que olhar para isso é libertador sempre, dolorido muitas vezes, mas para mim olhar para o tempo é uma fonte de muita sabedoria. Tanto esse tempo que foi, do passado, dos ancestrais, esse tempo da história, quanto o tempo que acontece enquanto a gente está aqui, que é tão precioso, tão estrutural e fundamental que a gente nem enxerga direito. Nesse momento, eu tava refletindo sobre milhares de coisas, milhares de dores, de ideias sobre como o tempo está se transformando com essa coisa de que a gente está congelando tudo o tempo todo. O quanto que aquela lenda de que os nativos ficavam assustados quando alguém os fotografava, que eles achavam que aquilo ia roubar a alma deles, não é um pouco verdade no sentido que a gente vai se transferindo para uma coisa que é externa a nós. Eu acho que é uma  reflexão tão grande, que tem tantos lados, que é até difícil falar. É algo que vai me acompanhar a minha vida inteira. Eu vejo uma beleza e uma importância muito grande em pensar sobre isso, porque é lembrar que a gente está aqui e na real não é por muito tempo. Por mais que perdure, que as coisas que a gente faça tenham uma continuidade, que a gente deixe os nossos rastros no mundo, a gente não está aqui por muito tempo. Se eu viver 100 anos não é muito tempo. 

Clandestina - O visual é algo muito presente no seu trabalho. Tanto que seu álbum anterior “Oyá Tempo” era um álbum visual. Além da dimensão sonora, o show de hoje promete um espetáculo audiovisual também. O que podemos esperar?

Luiza –  Eu pensei esse show com muito carinho, esses shows da turnê do “Azul Moderno” e, especialmente, esses do Natura Musical. Eles foram feitos com muita delicadeza, pensados muito nessa construção narrativa junto com esses três artistas que me acompanham: A Bianca Turner, que faz as projeções, que vem comigo desde de o “Oyá Tempo”, o Diogo Terra, que faz o laser, e a Amanda Amaral, que faz a luz. Eu peguei esses elementos e tentei levar eles como se a gente tivesse ao mesmo tempo caminhando no nosso passado e no nosso futuro. Ao mesmo tempo que tem um caminho, uma volta para a ancestralidade, tem um pouco dessa ideia de que a gente está embarcando em um novo universo em que a gente encontra essas preciosidades dos nossos ancestrais. Então, o show tem uma ideia de narrativa não linear, uma ideia de que as pessoas mergulhem nele, que entrem nessa viagem, um pouco como elas entram em um filme. 

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