30 de novembro de 2019

A alegria política do Bloco da Laje

O coletivo de carnaval criado em 2011 nas ruas de Porto Alegre lança ao mundo ‘4 Estações’, seu primeiro álbum visual, somando resistência política e brincadeira

Eventos de Rua

Texto e entrevista: Amanda Zulke
Depoimentos: Mariana Moraes
Fotos: Vitória Proença e Vinicius Angeli

 

Era uma vez um grupo de amigos apaixonados por teatro e carnaval que resolveu unir suas energias e criatividades para reavivar o carnaval de rua em Porto Alegre. Esse pequeno grupo, formado lá pelo fim de 2011, criou uma identidade própria, cresceu em número e maturidade, construiu suas canções, figurinos e cores, consagrou um público fiel, agregou gente da rua e multiplicou em cada encontro pelas ruas seus sonhos de uma cidade que brinca. Hoje, depois de quase nove anos de trajetória no carnaval de rua, o Bloco da Laje se legitima e se reinventa como um dos movimentos mais incensados e efervescentes de Porto Alegre.

Neste sábado, 30 de novembro, a cidade vai conhecer ao vivo e a cores o primeiro álbum visual do coletivo, que reafirma a beleza de seu ritual nas ruas e seu potencial artístico. “4 Estações”, contemplado no edital do Natura Musical, com financiamento da Lei de Incentivo à Cultura Pró-Cultura do Estado, será apresentado na Travessa dos Cataventos da Casa de Cultura Mario Quintana. O trabalho, que contou com a produção conjunta do Bloco da Laje e Marquise 51, transita entre imagem e som, real e virtual. 

O registro audiovisual e os videoclipes foram feitos pela Bloco Filmes. Os vídeos são assinados por um diretor convidado, que, ao lado de integrantes do Bloco da Laje, costuram olhares e sensibilidades para as narrativas visuais: ‘O que tu tem cidadão’’ (Julia Ludwig e Antônio Ternura); ‘Pregadão’ (Thiago Lazeri e Biel Gomes); ‘Deixa Brincar’ (Diego Machado e Martino Piccininni) e ‘Recanto Africano’ (Juliano Barros e Tuane Eggers). A direção geral dos vídeos é de Thiago Lazeri e a direção artística é de Diego Machado, Julia Ludwig e Juliano Barros.

Com um trabalho autoral cênico e musical, o Bloco da Laje segue se expandindo desde sua criação. Além de captar cada vez mais o público local, que orna-se nas cores da Laje, fantasiando-se para os ensaios, saídas e shows, tem rompido as fronteiras geográficas e levado seu carnaval vermelho, azul e amarelo para outras regiões do Brasil. A tarefa, muito embora resulte desafiadora nos aspectos logísticos, devido ao número de integrantes, não parece complicada: bastam alguns minutos observando a movimentação da Laje para ver a entrega de qualquer folião, seja local ou não, às brincadeiras do grupo.

A Clandestina conversou com integrantes do Bloco da Laje, que resgataram um pouco da formação do coletivo e dividiram os processos do novo momento. Confira abaixo.

Clandestina - O começo de tudo: Como era Porto Alegre e como eram os integrantes quando nasceu o Bloco da Laje?

Bloco da Laje - Na transição de 2011 para 2012, o período era de muitas manifestações nas ruas do Brasil e do mundo. A ocupação dos espaços públicos, o direito à cidade e a livre manifestação artística foi uma das forças motoras que fez a gente erguer pela primeira vez nosso estandarte. Tudo começou com um grupo de amigos, amantes de uma das maiores manifestações da cultura brasileira. O carnaval foi o ponto de encontro dos entusiastas da alegria. Começamos com os ensaios abertos na Redenção... nos primeiros ensaios éramos um grupo de, no máximo, 50 pessoas e nossas apostas para saída era de 200 a 500 pessoas. No dia 12/02/2012 às 16h, no Largo Zumbi dos Palmares na Cidade Baixa, nasceu o Bloco da Laje, sob o signo de Aquário, transgressivo e diverso. Mais de mil pessoas se encontraram para fazer o primeiro cortejo, superando nossas expectativas. “Na Avenida girando, estandarte na mão pra anunciar”.

Clandestina - Quem é hoje o Bloco da Laje?

BL - Um grupo de amigos que resolveu acreditar num caminho lúdico e que entendeu a brincadeira nas ruas como forma de resistência. Fortalecemos nossos afetos e aprofundamos a linguagem que já vínhamos desenvolvendo. Com toda essa rede de afetos, nos últimos anos começaram a chegar as crianças, que também trazem um novo olhar para quem somos nesse momento. A Família Laje cresceu, e o espírito da brincadeira só vem se fortalecendo.

Clandestina - Quando é que a brincadeira começou a andar junto com trabalho?

BL - Sempre deu muito trabalho movimentar o Bloco da Laje, no sentido em que a gente sempre desenvolveu um diálogo com os órgãos públicos para os nossos cortejos, e também no que demanda a organização de um evento dessa dimensão. Pensamos em fazer um resgate da memória de outros carnavais, então formalizamos um projeto onde também poderíamos desenvolver nossa poética teatral. Muitos dos integrantes do Bloco têm sua formação no teatro. E a gente entendeu que isso poderia potencializar nossos cortejos, bem como somar nossos saberes com os músicos. Pensamos em um projeto com oficinas e dois cortejos pelas ruas da cidade. Foi então que fomos contemplados pelo FAC - Fundo de Apoio À Cultura. Esse projeto abriu um caminho de desenvolvimento de pesquisa que mais tarde ia dar forma ao grupo-show que hoje também é um braço importante pro Bloco da Laje.  

Clandestina - Quais foram os momentos mais marcantes desses quase nove anos de caminhadas?

BL - Nossa, foram inúmeros momentos marcantes. Mas tem os cortejos abaixo de chuva que com certeza foram emblemáticos. A chuva caindo e a gente junto com a multidão cantando e dançando na chuva. Depois disso a gente já se prepara para quando a chuva vem curtir a Laje.

Clandestina - Como é o Bloco da Laje na organização e gestão enquanto coletivo artístico?

BL - Estamos fazendo e aprendendo a fazer essa gestão de um coletivo tão grande. É um desafio imenso porque temos duas frentes: o formato palco (que tem 30 pessoas) e o formato rua (que tem em torno de 150 pessoas envolvidas em todo processo). Em 2019, contamos com a produção da Marquise 51 que representa a banda. Mas ao mesmo tempo escolhas artísticas e de rumos demandam muito diálogo e a busca por um senso comum. Os caminhos a seguir sempre foram múltiplos para o coletivo e chegar até aqui é resultado de muita escuta. O maior desafio de gestar o coletivo é ter criatividade para dar os passos de maneira sustentável (se inscrever em editais, buscar parceiros, montar campanhas de financiamento coletivo) e fazer uma comunicação interna eficaz que torne possível todo mundo caminhar para o mesmo lado.

Clandestina - A Laje surgiu num momento em que Porto Alegre carecia da energia do carnaval de rua. Hoje, já num momento diferente, com bastante efervescência nas ruas, o Bloco segue arrastando multidões. Será que reside na reinvenção do coletivo enquanto artistas criadores esse sucesso todo?

BL - Também. O sucesso é fruto de muito trabalho e intuição. São 9 anos experimentando ter o Bloco na rua. Nossa busca sempre foi fazer um cortejo saudável para a cidade e para as pessoas. E quando a gente busca uma aproximação com carinho, a gente recebe carinho em troca. Por quatro vezes tivemos nossa saída totalmente financiada pelas pessoas que curtem o Bloco da Laje. De certa forma todos os Blocos que participaram desse movimento de retomada canalizaram uma vontade das pessoas de ocupar as ruas com arte, afeto e carnaval. Nós somos uma parte desse movimento.

Clandestina - O álbum visual "Quatro Estações" costura diversas linguagens e capta o espírito e a estética bem particular do Bloco. Como nasceu a ideia e como foi atravessar essa fase de trabalho tão diferente?

BL - Gravar em estúdio e fazer clipes sempre foi um sonho do coletivo. Desde a primeira saída o Bloco da Laje já contava com músicas autorais e gravá-las sempre foi um desejo latente. O Natura Musical é um edital que contempla artistas novos e a intuição nos apontou esse caminho. Nós já tínhamos um trabalho audiovisual forte nas redes e uma linguagem própria. Muitos integrantes do bloco são da área cênica. Então pensamos nesse formato transmídia que pudesse funcionar isoladamente com os clipes e ao mesmo tempo apresentasse uma narrativa quando exibido em sequência. Foram meses para criar e ensaiar arranjos que funcionassem num formato fonográfico. Ricardo Pavão e Vini Silva procuraram referências de gravação e não encontraram algo que lhes parecesse adequado para nosso trabalho. Muitas foram as tentativas para encontrar uma estética que deixasse a bateria, as vozes e a harmonia em camadas equilibradas. O resultado não privilegia um setor em detrimento do outro. Foi um trabalho minucioso. O filme é o resultado do trabalho de dezenas de profissionais do audiovisual local que compraram a ideia. Cada clipe teve a direção compartilhada entre um artista convidado e um integrante do Bloco. Essa soma de saberes possibilitou um produto tecnicamente lindo e ao mesmo tempo com a cara da Laje. É um registro de que estivemos aqui nesse ano de 2019 espalhando nossas ideias e nossas indignações.

Clandestina - Ao mesmo tempo em que têm uma relação forte com a cidade de Porto Alegre, o Bloco começa a se espraiar por outros cantos. Foi para São Paulo e Floripa recentemente, toca no Morrostock, interior de Santa Maria... Como está sendo a experiência de levar os cortejos para outros cantos?

BL - Quando a gente resolveu seguir na investigação de um trabalho cênico musical, a ideia era criar diálogo com outros públicos, e foi o que aconteceu. Nosso primeiro Morrostock foi a experiência que nos fez sentir que estávamos no caminho. O festival reúne pessoas do Brasil inteiro e muito contribuiu para que o Bloco da Laje chegasse em outros palcos, como por exemplo o Psicodália em SC em 2018. Muitas pessoas também acabam se mobilizando pra chegar junto na saída oficial do carnaval: amigos, amantes e foliões de vários cantos do Brasil. É novo para o coletivo esse movimento de colocar o pé na estrada, mas esse é o desejo que vem pulsando em nossos corações. É tão gratificante ver no olho no olho que a nossa proposta de brincadeira carnavalizada pode tocar tantas pessoas, e saber que nossa poética está ganhando novos espaços. Celebrar o convívio e espalhar nosso canto “Na Avenida girando, estandarte na mão pra anunciar”.

 

O Bloco da Laje nas palavras do seu público fiel

Por onde o bloco passa, constrói histórias que ficam para sempre na mente e nos corações daqueles viveram. Amizades, amores, momentos indescritíveis e engraçados que reverberam e fazem com que coloquemos o bloco na rua mais uma vez. Reunimos alguns relatos de pessoas que mantém uma relação afetiva com o Bloco da Laje para entender as motivações do vínculo com o coletivo e sua onda vermelha, azul e amarela.

Amor de mãe para filho
Taísa Rosa, 32 anos

Taísa conheceu o Bloco da Laje em 2012 e a cada ano foi se aproximando e se apaixonando mais. Ela já acompanhou o bloco em diversos momentos desde ensaios até shows particulares e saídas. Segundo ela, cada experiência foi única, trazendo muito mais que uma festa. Atualmente, ela divide esses momentos com seu filho de 4 anos. “Lembro dele bebê, grudadinho em mim, no sling amarelo, com carinha de feliz a cada ensaio de domingo na Redenção. Depois, quando ele começou a caminhar, fomos em um ensaio onde ele desfilou no meio da passarela formada pelas pessoas na música “Deixa Brincar” e o olho dele brilhava de felicidade. Nos intervalos dos ensaios, ele tocava todos os instrumentos da bateria, na maior farra e parceria dos integrantes”, conta.

Para ela, o Bloco da Laje é muito mais que um carnaval, é evento de encontros, de trocas, de amor, de resistência e de muita amizade. “Quando vai chegando o mês de outubro, na minha casa a frase é sempre a mesma: ‘Mãe, começou a fazer verão? Vai ter Bloco da Laje domingo na Redenção?’. É puro amor!”

 

Estado de espírito
Paula Karro, 36 anos

Paula se aproximou do Bloco da Laje em 2016, por conta da amizade com Juliano Barros, o Dionísio da Bloco da Laje. A partir disso, ela passou a frequentar os ensaios na Redenção, não perdendo quase nenhum nesses 4 anos.  Para ela, os shows de palco da Laje proporcionaram momentos muito especiais de troca com os artistas. “Nos shows do Morrostock, de 2016 a 2019, e no Morrodália, em 2019, vivi momentos inesquecíveis: tipo meu migo Ju me dando um selinho do palco. E no último Morrostock, além do querido Diego Machado me dar a mão no início do show, o Bloco da Laje encerrou o show épico com uma música nova, que eu criei o refrão: ‘IMAGI-NA NA SAÍDA, IMAGINA NA SAÍDA’. Após o Morrostock, Ju Barros, Chico Perereca, o sensacional Jesus Pregadão do Bloco da Laje, e minha pessoinha aqui, evoluímos a música e ela já foi tocada no último ensaio. Não consigo dimensionar a alegria e o orgulho que estou sentindo”, conta. 

Paula assegura não conseguir mais viver sem o Bloco da Laje: “O Bloco da Laje não é apenas um bloco de carnaval, é um estado de espírito, é um ato de resistência, recheado de arte, cultura e alegria”.

Resistência e amizade
Mariana Vaz Azevedo, 32 anos

Marina conheceu o Bloco da Laje em 2015, mas apenas quando terminou um relacionamento em 2017 que começou a ter uma relação mais próxima com o coletivo. Em pouco tempo, ela sabia todas as músicas e já não conseguia mais ver as cores azul, amarelo e vermelho da mesma forma. Ela passou a ir em todos os eventos, em um período que descreve como de reconexão consigo mesma. “São tantas memórias incríveis, tantos amigos, amores. O Bloco da Laje me juntou aos amigos que tenho hoje. Todo mundo conectado por essa paixão comum. A saída do IAPI foi muito marcante pra mim. Descobrir espaços de resistência da cidade, celebrar a liberdade, a cultura. Foi muito bonito ver tanta gente que amo junto, de azul, vermelho de amor”, relembra. Além disso, Marina faz aniversário sempre próximo da data de saída do bloco, o que torna, além de tudo, os momentos junto dos cortejos uma grande celebração da vida. Segundo ela, a Laje vai muito além de carnaval. “É cultura, é resistência, é aceitação. É um ambiente democrático e acolhedor, que defende publicamente a alegria. Exalta o teatro e resgata a criança que existe em nós, convidando para brincar”, enfatiza.

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