05 de novembro de 2019

Entrevista: Viridiana, a persona artística de Bê Smidt

A artista porto-alegrense dá vida à Viridiana e convida o público a conhecer os entre-lugares sonoros da sua produção musical

Música

Entrevista: Sarah Lima
Fotos: Noia Design e Vinícius Silveira 

 

Bê Smidt é uma artista gaúcha que permeia e se insere nos entre-lugares da música. Em agosto de 2019, ela deu vida à Viridiana, sua persona artística, e lançou o EP “Androgênia”. No dia 07 novembro, “Anatômica”, a performance audiovisual do projeto, vem como um átomo complementar de todo Trabalho de Conclusão de Curso de Música Popular da artista. O espetáculo acontece na Galeria LaPhoto, a partir das 20h, com entrada franca.  

Em ‘Anatômica’, Viridiana combina suas canções com projeções de vídeo, criando uma performance que evoca os diferentes lugares e expressões do não-binário, seja como gênero ou como manifestação artística. A Clandestina conversou com ela sobre todo o processo de criação deste projeto e muito mais. Confira!

 

Clandestina - Tu é super nova, tem 21 anos. Como foi teu primeiro contato com música?

Bê  - Eu comecei a tocar música quando eu tinha 10 anos, que foi quando eu comecei a aprender violão. Eu quis aprender a tocar porque eu comecei a jogar Guitar Hero, aquele vídeo game de guitarra, no colégio. Alguns amigos me convidaram pra jogar e aí isso se tornou minha vida. Fiquei apaixonada pelo joguinho das bolinhas coloridas que vão descendo e tu tem que tocar na hora, e foi aí que falei “mãe e pai, quero tocar violão”. Aí comecei a fazer algumas aulas coletivas no colégio e o professor chegava com um “fichariozão”, que continha várias cifras de música e a gente tocava o que tinha ali - Cazuza, Legião Urbana, etc. Era isso e ok, lá aprendi os acordes mais simples, assim. Mas depois de um tempo enchi o saco porque era muita função, mas segui com a mesma prática de “ah, quero tocar tal música que eu gosto” e ia lá, pesquisava a cifra e aprendia. E agora é fácil analisar que já naquela época eu tava tocando guitarra, cantando e mexendo no computador, que nem hoje em dia, mas de um jeito diferente (risos). E por muito tempo foi assim, até meus 13 anos, quando um professor me disse que eu deveria parar de aprender músicas feitas e começar a aprender teoria musical, escalas, formação de acordes, harmonia, etc, mas eu disse que nunca iria “trabalhar” com música, então não precisava (risos). Então assim, eu comecei por causa da guitarrinha de plástico e porque eu gostava da sensação de poder tocar o que eu gostava de ouvir. Daí quando entrei na faculdade de Música da UFRGS eu percebi que eu não gostava de dizer que era violonista ou guitarrista, porque sempre vinha o pensamento: “será? Será que sou? E se sou, por que parece que estou mentindo?”. Muito porque eu via outras pessoas tocarem e, ok, essas pessoas manjam muito mais que eu - e acho que é uma sensação que todo mundo tem, né? E enfim, sempre que tocava eu cantava junto, era estranho chegar em aula de prática coletiva e não poder cantar enquanto eu tocava. Daí eu fui assumindo esse papel aos pouquinhos.

Clandestina  - E como tu foi construindo essa persona?

Bê - Fiz várias coisas, algumas amei, outras não gostei tanto. Até em coral já cantei.

Clandestina - Sério? Como foi isso? 

Bê - Foi rico de certa forma. No coro eu era baixo, pois minha voz é grave; daí em coros tem a divisão de vozes “femininas” e “masculinas”, e dentro das vozes masculinas, as mais graves são os baixos e o apelido dos nosso naipe era “machos” (pela similaridade das palavras). E na real era um ambiente que me causava muito desconforto. E não só a disforia de “você é um homem”, eu aprendi a usar a minha voz de um jeito que na música se considera “masculino”, porque lá queriam moldar o timbre pra todo mundo ser igual, afinal, era um coro e padrão de voz dos baixos é uma voz muito masculina. 

Em paralelo ao coro, eu comecei a andar bastante com o pessoal da música experimental e comecei a mexer bastante com distorções, sintetizadores, pedal de guitarra. E são duas experiências bem diferentes, né? Lado a lado. A experiência no coro me dava uma certa potência porque eu pensava “ok, se eu não quero fazer isso, no meu tempo livre eu vou investir tudo de mim no que me satisfaz”. 

Clandestina - E quando tu começou a pensar no teu projeto de TCC?

Bê -  No início 2018 em diante. Naquela época eu pensei: “tá, já fiz a tour das coisas que não quero fazer, então o que é que eu quero fazer?”. E aí fui atrás de me encontrar, descobrir o jeito que eu gostasse de usar a minha voz e a teoria musical, que também é uma coisa que aprendemos de uma forma normativa. Daí, agora em 2019, ano que estou fazendo meu Trabalho de Conclusão de Curso de Música Popular, eu sabia que ia ter esse espaço. E esse ano eu me toquei que passei 2018 inteiro investigando coisas e agora eu queria criar alguma. 

 

Clandestina - E como foi o arco do teu processo de criação? Como tu comentou, em 2018 tu reuniu todos os elementos que tu queria que estivessem presentes no teu “produto” final, quais são esses elementos?

- Quando eu comecei, no início de 2019, a pensar nesse projeto, era muito louco porque eu não conseguia botar meu pé firme em nenhuma decisão. Não sabia se eu queria fazer um disco, se eu queria fazer um show, se as minhas músicas iam ser muito experimentais ou se iam ser canções voz e violão, sabe? Porque eu pipoquei em todas essas experiências. E paralelo a isso, eu comecei a entender que era muito assim que eu penso o meu gênero, não é confortável pra eu me definir como homem nem como mulher. Então acredito que isso está no DNA da minha prática artística também. Quando eu cheguei pra minha orientadora e falei “quero fazer um projeto não-binário”, ela brincou “não complica”. Mas voltando um pouco, pra contextualizar, eu comecei a me entender como não-binária bem nova. A primeira vez que experienciei esse sentimento, de uma forma bem rudimentar mesmo, foi em 2014, eu tinha 16 anos e me lembro de tentar explicar pra um amigo da seguinte forma: pensa que eu sou 25% homem e 75% mulher. Antes disso já tinha tido um episódio em que eu senti que não era homem e que, posteriormente, entendi que afinal aquilo era disforia de gênero. Eu construo isso dentro de mim, essa inquietude com relação ao meu gênero, desde que eu tinha 15 anos, e aí ao longo do tempo eu fui meio que lapidando isso. Entendi que existe um ENTRE-lugar que eu posso ocupar na minha identidade e o termo que as pessoas usam pra isso é “não-binário”. Por mais que eu me sinta mais confortável em ser tratada no feminino, me vejo nesse ENTRE, e é eu queria traduzir isso no projeto que iniciei esse ano. Com o EP (Androgênia) e a performance (Anatômica) eu queria criar uma coisa que estivesse entre. Eu tenho pensado muito nesses processos de criação, porque por mais que sejam “dois produtos”, eles são um grande universo. Eu queria que as canções existissem não apenas no som, mas também em vídeo. E uma coisa que percebi, elaborando inicialmente as músicas do EP, é que essas músicas tinham muito forte e marcado é a questão do corpo e esse corpo como lugar, como sentimento, enfim. E quando eu comecei a elaborar a performance, pensar nas projeções e o figurino, eu queria então elucidar pras pessoas, trazer à tona, o que eu enxergo de corpo. A performance é uma visita guiada às minhas músicas, meio que como o fonezinho de ouvido no museu, sabe? Tipo, quando fiz essa música eu pensei nisso, nessa textura, nessa cor, nesse timbre, etc. É assim: bom, isso é o que eu estava pensando, mas quando vou apresentar, percebo que pode ser outras coisas também. O processo acaba criando coisas novas por si só, como uma ramificação de raízes em que elas vão se espalhando e se cruzando, tem umas que saem da terra e outras que ficam muito lá embaixo e não saem. Então o show tem esse movimento de no início trazer partes muito materiais do corpo, como pés e mãos, e depois eu passo mais pra ideia de um corpo diluído, um corpo que não é o rosto, mas a ideia que eu tenho sobre meu rosto. Ou a expressão facial que aquela pessoa fez quando me falou que eu tava fudid*. Trago também o aspecto de que a mão que agride é a mesma que acaricia. São coisas que eu trabalhei nas imagens e que quero levar pra performance “Anatômica”, que farei dia 7 de novembro no LaPhoto, e que são elementos que estavam em mim quando criei as músicas. 

Clandestina - Tu quis deixar bem claro o que tu queria dizer? 

Bê - Não sei se deixar bem claro, mas mostrar “a minha versão da história é essa”. Mas quando lancei as músicas, eu me fiz disponível pras pessoas criarem as versões delas também, porque sei que as pessoas têm interpretações diferentes, sentimentos diferentes. 

Clandestina - Foi uma escolha lançar o EP antes da performance? Foi pensado que tu soltasse as músicas primeiro, para que cada um que ouvisse tivesse sua interpretação, e depois tu apresentar a tua visão, no caso com Anatômica?

Bê - Bom, esse é o meu TCC, então tem prazos, né? Na primeira parte do ano eu me dediquei ao EP e na segunda parte me dediquei a performance, então não foi pensado. 

Clandestina - E com relação às músicas e aos elementos sintéticos dos teus sons, como é pra ti andar sempre com essa “parafernália”?

Bê - Quando eu comecei a pensar como eu tocaria eu sabia que eu queria usar aquilo tudo: sintetizadores, pedal, computador. Eu quero ver trazer essa coisa que é digital, que é robô. Daí senti que pra eu apresentar isso, preciso ser um ser só com a parafernália. Quando eu pensava na música Androgênia, e na pessoa que canta Androgênia, era isso que eu via, o cyborg, android mesmo. Essa foi a primeira música que eu escrevi do disco e de certa forma tem coisas que eu sinto e que nela traduzo de uma forma muito honesta, por mais que tudo seja, nesta música especificamente são muito carnais no sentido de ver essa pessoa que é também máquina. Porque tem a pessoa que foi parida e o todo que vem depois, que é criado, o artificial, e eu gosto muito disso. E é por isso que eu gosto tanto de tocar assim, com a parafernália toda, porque me sinto fazendo um grande malabarismo, mas faz parte do meu corpo. Tipo, eu tenho um teclado aqui, uma controladora ali, a guitarra nos braços e quando apresento Anatômica, sinto como partes do meu corpo. Muita coisa é improvisada, por exemplo, na minha controladora tenho alguns efeitos que posso aplicar não só nas trilhas, como na voz, nas projeções, e isso eu faço na hora. E pra mim é como fazer um gesto de levantar o braço e ao mesmo tempo colocar um delay na minha voz pra ela ficar longa. Então essa parafernália eu vejo assim, como as partes do meu corpo. Eu to no entre cantora-instrumentista-dj e tudo isso confluindo para se tornar o que eu vou mostrar dia 7 no LaPhoto, em Anatômica.

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