02 de novembro de 2019

Entrevista: Rodrigo Pederneiras, coreógrafo do Grupo Corpo

Companhia apresenta o espetáculo inédito 'GIL' neste final de semana em Porto Alegre

Dança

Entrevista: Amanda Zulke
Foto: Jose Luiz Pederneiras

Grupo Corpo chega a Porto Alegre neste final de semana (2 e 3 de novembro) para apresentar o inédito 'GIL', espetáculo em que homenageia um dos maiores nomes da música brasileira, Gilberto Gil. Com 44 anos de trajetória, a companhia de dança fundada em Belo Horizonte pelos irmãos Rodrigo e Paulo Pederneiras tem desfrutado do sucesso absoluto por onde passa, casando brasilidade e danças do mundo com trilhas sonoras inéditas. 

Neste ano, os irmãos resolveram colocar em prática um sonho antigo: convidar Gilberto Gil para compor a trilha da nova peça. O resultado é um espetáculo que resgata e presta uma homenagem à estrada musical grandiosa de Gil, que Porto Alegre conhecerá neste sábado e domingo, no palco do Teatro do Sesi. 

Conversamos com o coreógrafo e um dos fundadores da Companhia, Rodrigo Pederneiras, sobre a escolha por Gil, os processos de apropriação da trilha composta e, claro, o êxito do Grupo Corpo. Confira abaixo:

Clandestina - Daria pra dizer que o espetáculo ‘Gil’ é uma homenagem a um dos músicos mais dançantes do Brasil?

Rodrigo Pederneiras - Claro, sem dúvida nenhuma. É uma grande homenagem ao cara que a gente é apaixonado, né? É um sujeito que fez pela cultura e pela arte no Brasil o que poucos fizeram. (Gilberto) Gil tem uma dimensão rara dentro da cultura brasileira. E a ideia era exatamente essa: prestar uma homenagem a essa grande personalidade. Porque, obviamente, o Gil já estava na nossa mira há alguns anos e, dessa vez, meu diretor artístico Paulo Pederneiras achou “bom, tá na hora da gente chamar o Gil”. Aí ele foi para o Rio de Janeiro e eles conversaram e lá mesmo nesse encontro já surgiu a ideia da peça se chamar ‘Gil’, porque era uma homenagem. O nome geralmente é a última coisa que a gente define, mas nessa peça o nome foi a primeira coisa que surgiu.

Clandestina - Quando se deu esse início de conversação?

Rodrigo Pederneiras - Isso foi ano passado. Sempre que a gente faz convites, e tal, é sempre com, no mínimo, um ano de antecedência, pois são compositores que têm uma agenda cheia também. Então os caras tem que achar um espaço na agenda, pra criar, pra compor, depois entrar em estúdio, gravar, contratar músicos, enfim, é um processo mais lento.

Clandestina - O Gil reúne tudo ou quase tudo, em se tratando de estilos musicais, na vasta obra dele, né? Bossa nova, samba...

Rodrigo Pederneiras - É, é. Uma coisa que é impossível, na verdade, em 40 minutos fazer quase que uma síntese da carreira dele.

Clandestina - Como foi costurar tudo isso?

Rodrigo Pederneiras - Quando a gente fala de Gil, a gente fala de MPB, a gente fala de rock’n’roll, a gente fala de jazz, a gente fala de música afro, a gente fala de tudo que Gil é. E de uma certa forma ele fez isso tudo dentro desses 45 minutos, dessa trilha. Uma coisa muito legal, muito interessante, que ele fez foi que em vários momentos ele cita grandes sucessos, como “Aquele Abraço”, esses hits maiores dele. Então você tem ao mesmo na trilha um Gil que é conhecido da gente e um Gil do futuro, que pelo menos eu não conhecia, um Gil que trabalha com muitos efeitos de computador. Então eu acho que na trilha ele conseguiu algo que eu achava que era impossível que foi criar uma vitrine de toda a história dele.

Clandestina - E sobre a trilha sonora ser feita especialmente para o grupo e essa liberdade dada aos artistas, algo próprio do Grupo Corpo: isso faz com que vocês tenham que lidar com o elemento surpresa, com imprevistos, né? É algo desejado?

Rodrigo Pederneiras - Eu acho que isso que é o barato. A ideia é que a gente não vai influenciar ninguém. A ideia está aberta para ser influenciada. E essas pessoas, obviamente, cada compositor que chega - e já trabalhamos com tantos - traz novos ares, ideias novas. São postas janelas que se abrem para lugares completamente diferentes. Então a gente tá sempre aprendendo, porque como você falou, tem sempre o elemento surpresa. E isso é o que acho que é o mais instigante da história toda.

Clandestina - Como são os primeiros passos depois de receber a trilha? Como é o teu processo? Quanto tempo normalmente tu leva pra sentir a música e entender ela e, posteriormente, coreografar?

Rodrigo Pederneiras - No caso de ‘Gil’, por exemplo, ele entregou em três partes, primeiro entregou 15 minutos, depois mais 15 e depois 10 minutos. E ele era muito pontual, se dizia que entregar em determinado dia, ele entregava. Impressionante, e é muito bom trabalhar assim. A medida que a música foi chegando eu fui escutando, e escutando, e esperando vir a inspiração. E quando tive a trilha inteira, eu dormia e acordava com ela (risos). Logo depois comecei a fazer a peça, que é uma coisa muito difícil porque você tem um chão aí, como na peça anterior, ‘Gira’ - existe um mundo onde você vai utilizar e vai pesquisar. Agora você fazer uma homenagem ao Gilberto Gil é muito vago e muito subjetivo. Então eu fui buscando coisas, assim, ideias. A procissão do Gil, né, olha lá vai passando a procissão. O Gil é uma pessoa que tem um cargo muito alto na hierarquia do candomblé, então eu busquei alguns elementos do candomblé que tivessem a ver com Gilberto Gil e fui montando coisas nesse sentido porque eu também precisava de um chão para fazer as coisas. E eu acho que deu certo porque precisava de um fio condutor que fizesse com que a peça fosse coerente e não apenas elementos soltos.

Clandestina - Tem alguma curiosidade sobre a peça que tu poderias contar pra quem ainda não a assistiu?

Rodrigo Pederneiras - Tem um movimento específico que eu uso que permeia e que eu uso ele o tempo todo na peça, só que cada hora que ele entra ele entra de uma forma completamente diferente das outras. É um movimento muito simples, que é um movimento do candomblé do Santo Guerreiro, que é meio que chamando as outras entidades para guerra e o Gil é o guerreiro. O movimento de bater com uma mão no peito e outra nas costas, daí repetidamente, invertendo, a mão que bateu no peito, agora bate nas costas e vice-versa, mas cada vez de uma maneira completamente diferente. Então eu busquei coisas nesse sentido para servirem de fio condutor.

Clandestina - Com relação à história da companhia, a construção da identidade, enfim, padrão de qualidade do Corpo, que é algo muito louvável e, provavelmente, resultado de um trabalho coeso de diferentes áreas. Como tu observas isso depois de 44 anos de estrada?

Rodrigo Pederneiras - É muito legal construir uma identidade e é muito raro, falando mundialmente mesmo. Como é raro uma Companhia particular durar 44 anos e continuar ativa, como é o nosso caso. É raríssimo. Mas eu acho que isso tudo se deve a um trabalho em equipe mesmo. Porque se você pensar é o Paulo Pederneiras, que é o diretor artístico, eu como coreógrafo, a figurinista Freusa Zechmeister, enfim, a gente trabalha juntos há 40 anos, então existe uma confiança muito grande entre a gente tanto no lado pessoal quanto no profissional.

Clandestina - Quantas pessoas mais ou menos são envolvidas no trabalho diário?

Rodrigo Pederneiras - Na Companhia são 22 bailarinos, apesar de agora na peça serem 20, mais seis técnicos, mais professor, pianista, direção artística, coreógrafo, assistente de coreografia, professores de dança. É uma equipe muito grande, pra montar um espetáculo é uma equipe de mais de 35 pessoas.

Clandestina - A gente tem muita curiosidade sobre o dia a dia da companhia. Como funcionam os ensaios? É todo dia?

Rodrigo Pederneiras - Tem rotinas completamente diferentes. A gente viaja muito, né? Pelo menos metade do ano a gente tá viajando. Quando nós estamos em Belo Horizonte, na nossa sede, a rotina de trabalho é: das 9h da manhã às 15h, seis horas corridas, de segunda a sexta. Agora, quando estamos viajando, a rotina varia muito. Depende do número de espetáculos por cidade, mas geralmente a gente chega, tem ensaio geral, no dia antes da estreia entra-se no teatro normalmente às 14h e sai meia-noite. E nos dias seguintes de espetáculo, entra às 16h no teatro e sai 00h.

Clandestina - Sobre o início de tudo do Grupo Corpo, foi um sonho bancado, não digo financeiramente, mas de apoio mesmo, pela família. E ‘Maria Maria’ teve coreografia e trilha construída por amigos. Tu acha que essa característica do afeto, das relações por trás de toda a história do grupo, ela transborda pros palcos?

Rodrigo Pederneiras - Eu espero que sim, quer dizer, que essa longevidade da Companhia se deve a esse tipo de espírito, porque a gente sempre teve pessoas que ajudaram, amigos e tal, mas ao mesmo tempo sempre foi de um profissionalismo muito grande. Porque ‘Maria Maria’ o Milton foi de uma generosidade fenomenal, ele já era o Milton Nascimento, nós não tínhamos nome e nem dinheiro, e mesmo assim todo mundo foi pago, de uma forma muito profissional. Mas só de o grande Milton Nascimento se envolver com aquele monte de moleque que tá surgindo com ideias novas é de uma generosidade fenomenal.

Clandestina - Acho que isso também se traduz na empatia que o público tem com vocês que é também muito forte.

Rodrigo Pederneiras - É, eu acho que esse espírito permanece, sim.

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