18 de outubro de 2019

Entrevista: a safadeza suave de Rosa Neon

O quarteto mineiro, apelidado pelos fãs de Rosinha, chega a Porto Alegre neste sábado (19) pelo Circuito Orelhas

Música

Texto: Mariana Moraes
Foto: Sarah Leal/Divulgação

 

“Meu corpo é uma semente, e hoje eu vou envenenar a sua mente”. Letra de “Vai Devagar”, o trecho exemplifica um pouquinho do que é ouvir as músicas do Rosa Neon: ficar com as melodias entranhadas na cabeça. Após divulgar uma música e um clipe por mês, a banda mineira lançou seu primeiro álbum, que leva o nome da banda, em setembro desse ano.

A sonoridade pop, dançante e vibrante é resultado do trabalho de quase um ano do quarteto formado por Luiz Gabriel Lopes, Marcelo Tofani, Mariana Cavanellas e Marina Sena. O palco do Agulha recebe toda energia do Rosinha, apelido dado pelo público, neste sábado (19). A Clandestina conversou com Marcelo Tofani sobre o encontro da banda, processo criativo e muito mais. Confira!

Clandestina - O que motivou vocês quatro a se unirem, já que todos tinham  outros projetos antes da banda? Como vocês se conheceram?

Marcelo – É um rolê que foi o seguinte: eu e Luiz já tínhamos carreira solo, a Mariana tinha uma banda chamada Lamparina, e também tava começando a carreira solo dela, e a Marina tinha, e ainda tem, uma banda chamada A Outra Banda da Lua. A gente se encontrou quando eu e o Luiz fomos fazer uma turnê que passava por quatro cidades de Minas. Uma delas era Milho Verde, uma cidade bem pequeninha, bem mágica, e a gente encontrou as meninas lá porque tava tendo um encontro cultural de Milho Verde, e elas estavam com suas outras bandas. A gente acabou cantando junto a música  Rosa Neon, que é da Marina. A música já existia antes do Rosa Neon, foi ela que deu nome à banda na verdade. Nesse encontro, até eu, que não sou dos mais hippies, senti uma energia diferente quando a gente cantou junto, sabe. Foi bem legal, e a gente decidiu que iria fazer o Rosa Neon e que a gente tinha que se tornar uma banda. Não ia ter jeito.

Clandestina - Não rolou alguma dúvida ou receio de se arriscar assim em um novo projeto?

Marcelo -  Olha, da minha parte, eu nunca pensei em ter uma banda. Eu sempre fui solo, desde os 15 anos eu trabalho com música, lancei meu EP com 17. Então pra mim o único caminho que existia dentro da minha visão era eu fazer solo. Nunca fui uma pessoa de muitos projetos, mas quando eu menos esperei o Rosa Neon aconteceu, foi tudo tão rápido, tão bom, que não deu tempo de ter medo.

Clandestina - Como foi o processo de produção do primeiro álbum?

Marcelo - O Rosa Neon tem menos de um ano. É uma banda quase recém-nascida. Esse disco é, na verdade, um compilado dos oito singles que a gente lançou desde novembro do ano passado, quando a gente soltava um clipe com uma música nova por mês. A gente pegou essas oito músicas e colocou mais duas inéditas que a gente não tinha lançado ainda. O processo é muito engraçado, porque teve esse lance de lançar um clipe por mês, essa ideia louca, tipo nenhuma banda independente faria isso, só a Anitta que fazia isso. Depois teve o Tiago Iorc, que imitou a gente. Tô brincando (risos). Mas enfim, nenhuma banda fazia isso, sem dinheiro, que nem a gente. O Rosa tem um processo muito interessante: a gente não morava na mesma cidade, tipo o Luiz já morava em São Paulo, a Marina morava em Montes Claros, eu e a Mari morávamos em BH, então quando a gente se encontrava para gravar, para ensaiar, gravar clipe, fazer shows, era sempre um processo imersivo. A gente ia uma semana para o Rio, fazia show lá, aproveitava para gravar um clipe e já gravava duas músicas na sala da casa que a gente tava. Tudo que a gente gravou nesse disco foi em casa, em diferentes lugares. A gente gosta até de brincar: “Ombrim”, que é quarta faixa que a gente finalizou, foi composta em Taiobeiras, cidade natal da Marina, gravada em São Paulo, mixada em Belo Horizonte, masterizada em Miami e teve o clipe gravado no Rio. O Rosa tem esse negócio de não ter um lugar fixo necessariamente para trabalhar.

Clandestina – As músicas do álbum são bem alegres e dançantes e muitas delas falam de amor e de desejo. Vocês escolheram falar sobre essas coisas ou foi algo que veio naturalmente? O que inspirou vocês?

Marcelo – Olha, eu acho que é uma coisa que veio bem naturalmente. A gente sempre teve essa coisa de falar de liberdade, essa coisa de estar juntos. Isso sempre deu a sensação de que a gente tava livre e acabamos chegando nessa estética de forma bem natural. Eu acho que o resultado de nós quatro, o pilar de ligação, é a música pop. Todo mundo gosta de música pop, gosta de escrever, gostar de ouvir música pop. E a gente tem essa sensação de liberdade juntos, é bem massa. Por isso, a gente acaba chegando nesse tipo de temática. Pode ser que no próximo disso tenham outras, mas nesse disco foram essas.

Clandestina - Tu tem uma faixa favorita do álbum?

Marcelo – Ai, nossa! Difícil! Eu gosto de todas. Eu acho que “Fala Lá Pra Ela”. É a primeira que a gente lançou e eu tenho um carinho muito especial por ela. Mas eu gosto de todas, então, provavelmente, se você me perguntasse amanhã eu falaria outra. Mas hoje é “Fala Lá Pra Ela”

Clandestina – Por que essa entre todas?

Marcelo – Eu gosto muito da composição dela. É uma música que a gente conseguiu em poucos versos e palavras simples exprimir o que a gente queria dizer. Ela tem uma melodia muito bonita. Comunica muito fácil, sabe? Tipo, eu imagino a minha vozinha ouvindo “Fala Lá Pra Ela” e se emocionando.

Clandestina -  Tu mencionou a ideia de lançar um clipe e uma música por mês. Quais foram os resultados que vocês viram dessa estratégia?

Marcelo – Considerando o nosso tamanho, uma banda independente que tinha acabado de nascer, eu não vejo resultado melhor. Em números, a gente tem mais de 2 milhões de players, entre youtube e spotify. Fora da internet, o público tem respondido de forma muito calorosa em todos os shows. A gente tem recebido muito carinho. A galera tem cantado todas. Isso é uma coisa muito legal de ter lançado uma por uma (música): ter trabalhado cada uma especialmente. Acho que chegou no público de uma forma bem especial. E o depois do álbum ser lançado foi conseqüência desse processo todo.

Clandestina - Vocês participaram de quatro faixas do disco Ladrão, do Djonga. Como foi essa parceria?

Marcelo – Então, eu sou amigo do Djonga há uns quatro, cinco anos. Quando a gente tava começando, eu tinha acabado de lançar um EP e ele também. A gente fez um show juntos, era um show em que eu tocava as minhas músicas com a minha banda, e ele entrava e a gente tocava as músicas do EP dele com a minha banda e ele cantando. A gente criou uma amizade e sempre foi muito próximo. Daí o que acontece é o seguinte: quando a gente montou o Rosa Neon, o Djonga tava com a gente no estúdio no dia que a gente tava gravando a primeira música, que era “Fala Lá Pra Ela”. Ele pirou, ficou encantado, falou tipo: “Velho, deixa eu colar com vocês, to apaixonado com isso”. Daí foi natural, a gente sabia que ia fazer uma música juntos. E aconteceu. A gente é amigo real. Hoje eu vou jogar pelada com ele.  Em churrasco, ele chama o Rosa Neon, é bem legal. Não é aquela coisa bem comum de amigos de instagram, é real.

Clandestina - Qual foi a melhor experiência que vocês tiveram juntos enquanto banda e que tu acha que não teria vivenciado com carreira solo?

Marcelo -  Nossa, essa pergunta é ótima. Olha, eu quero dar dois exemplos. O primeiro, que é o mais positivo de cara, é nessa turnê ter me surpreendido muito com os shows, sabe? Cada show tem sido muito especial, por causa dessa troca. Eu vejo que o público enxerga diferente quando são quatro forças em cima do palco, trocando entre si e entre o público. É diferente de quando é só um no palco. Esses momentos dos shows são catárticos pra mim. Eu tenho ficado bem feliz com essa turnê. E a outra coisa, que talvez seja menos esperada, são as brigas. Essa coisa de trabalhar junto traz um outro panorama, não só de criação, mas de como você vai tocar o barco. A gente tem umas brigas que depois eu paro e olho: “Mano, que alegria que isso tá acontecendo, que bom que a gente tá brigando, se respeitando e evoluindo em cima dessas brigas”. É essa coisa mesmo de ouvir o outro, de aprender cada dia mais que as coisas acontecem muito mais por fora do nosso umbigo.

Clandestina – Tu  percebe que vocês cresceram nesse tempo de carreira juntos, mesmo que ainda curto?

Marcelo – Olha, foram os 11 meses mais intensos da minha vida. Eu acho que a gente cresceu muito nesse tempo, tanto artisticamente quanto como pessoa mesmo. É diferente andar sozinho e andar junto.

Clandestina - Se tu pudesse resumir, o que é o Rosa Neon?

Marcelo – Safadeza suave. Só de ouvir você já vai identificar o porquê é safadeza suave. É aquela coisa que quase não é suave, mas a safadeza tá ali. E a safadeza vai além da coisa sexual, é coisa de ser leve, de ser livre, de ser deixar levar.

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