17 de outubro de 2019

E a deusa criou Letrux

Uma entrevista com Letícia Novaes, que chega a POA com seu novo projeto, Línguas e Poesias, em que mistura interpretações de canções e leitura de poemas

Música

Entrevista: Claudia Tajes
Fotos: Theo Tajes e Ana Alexandrino

 

Letícia Novaes, 37 anos, 1m85, atriz, escritora, compositora, cantora, capricorniana com ascendente em virgem. A artista carioca com pinta de diva, mas só a pinta, é tudo isso e mais um nome que há dois anos vem causando na música brasileira: Letrux. A partir do lançamento da turnê Letrux em Noite de Climão, em julho de 2017, Letícia percorreu o Brasil inteiro lotando todos os lugares onde se apresentou. Virou ídolo – o melhor seria dizer ídola - de menininhas a mulheres feitas, do público LGBTQI+ e dos rapazes bem resolvidos desse país. Seu primeiro álbum esgotou. Quem tem não empresta nem para os amigos. Em novembro agora, Letícia entra em estúdio para gravar seu segundo disco. Enquanto isso, faz as últimas apresentações de Letrux Em Noite de Climão e viaja com seu projeto Línguas e Poesias, em que revisita e dá a sua interpretação para canções em vários idiomas e lê poemas de suas autoras e autores preferidos. 

Na próxima terça-feira, 22 de outubro, Letícia leva sua voz, violão, músicas e poesias preferidas ao Teatro da Unisinos, pela Árido Produtora. Acompanhada de Thiago Vivas ao piano e Lourenço Vasconcellos no vibrafone, uma das maiores artistas pop do país mostra que a literatura é, junto da música, uma de suas praias.

Conversamos com a artista sobre os livros, a persona Letrux, a onda conservadora no país e muito mais. Confira abaixo:

Letícia, como foi que você criou o seu disco de estreia? 

Como eu sou formada em teatro, sempre encarei um show ou um disco como uma curva de narrativa, como uma proposta de dramaturgia mesmo. Eu tenho 37 anos, claro que eu ouço singles e tal, mas eu sou uma pessoa de álbuns. Por isso pensei em fazer do meu primeiro álbum solo - que nunca é solo, tem umas 700 pessoas envolvidas! - uma saga. Uma trajetória. Eu queria contar um romance desastroso. É tudo muito pensado. Eu sou espontânea, sou despretensiosa, mas também sou capricorniana. E isso significa que eu tenho um lado que controla mesmo (risos). Então eu imaginei o disco inteirinho. Eu quis que a primeira música fosse um abre-alas. Ela se chama Bota na tua cabeça que isso aqui vai render. E rendeu muito, continua rendendo. A vida é assim, cuidado com o que a gente deseja!

E o público comprou mesmo a sua saga.

Em Noite de Climão segue se multiplicando em roupas, em gente que comemora o aniversário com bolo de Climão, em tatuagens. Duas pessoas tatuaram a minha cara! E aí o disco foi compreendido. Ele passa por vários climas musicais e vários climas ternos, e termina em uma música que é a mais introspectiva, em que eu toco guitarra. Tem gente que fala, nada a ver ela fechar o disco com essa música mais devagar. E eu falo, tem tudo a ver. Porque essa é a volta pra casa. É uma saga, é uma noite. Quando o dia começa a amanhecer você já não vai ouvir aquelas músicas frenéticas, você já entra no Uber e agradece por aquele FM bem baixinho. Então foi essa saga que eu quis contar. Foi essa estética, essa dramaturgia. Eu quis fazer uma narrativa.


Essa narrativa é sua? É a saga da Letícia?

Letrux Em Noite de Climão é a história de uma noite, de uma mulher que sou eu, mas também é você, é minha avó, é uma mulher que eu odeio, uma mulher que eu admiro. Porque eu não sou a Letrux. Quer dizer, sou e não sou. Eu não sou o tempo inteiro aquela força. Se eu fosse o tempo inteiro aquilo, nossa, eu não sei nem o que seria da minha vida. A Letrux é muito mais lasciva, ela é sem medo, sem pudor. Na minha vida eu sou um pouco menos que ela. O palco é muito permissivo. Todo artista precisa ter cuidado pra não entrar nessa de vaidade, de ego. Porque no palco fica todo mundo assim, babando, hipnotizado por você. E você não pode acreditar que é tudo aquilo. 


Dá para dizer que Letrux em Noite de Climão fala do pós-amor? Dessa revolução interna que acontece dentro de cada um depois do amor?

Esse disco foi feito em 2017. Tem músicas que eu fiz em 2012, quando ainda era casada com o Lucas. Em 2013 a gente se separou e hoje o Lucas, além de ser meu parceiro, é um dos meus melhores amigos. Ou seja, esse disco é um apanhado de coisas que eu fui botando na minha caixinha, na caixa dos tesouros, na caixa dos segredinhos. Estava tudo muito guardado, calmo. De repente, explodiu. Então o disco fala de amor, de pós-amor, de desamor, mas também fala muito sobre liberdade, sobre viver sem achar que a gente só existe se amar alguém. Tem um filme que eu vi, Luz Silenciosa (2007), sobre uma família da religião menonita que vive no México e, um dia, o pai se apaixona por outra mulher. Só que eles vivem dentro dessa religião fechada, tradicional, tudo aquilo é muito sofrido, um drama. Tem uma cena em que, de repente, escorre uma lágrima do olho da amante e ela fala: a paz é maior que o amor. Quando ela disse essa frase, eu falei alto no cinema: é isso. Eu amo o amor, mas a paz é maior que o amor. E isso vale pra tudo. Pra amizades. Pra relações familiares. Ano passado, então, por questões políticas, nossa. Preferi ficar em paz. Ao menos nesse momento, beijo, família querida. (risos)


Aliás, você sempre deixou as suas posições políticas bem claras.

Eu sempre me posicionei politicamente, eu não consigo não me manifestar, sabe? Tem artistas que dizem assim, uma coisa é uma coisa e etc, mas eu acho que eles falam isso só pra defender alguns contratos. Eu prefiro estar ao lado de alguma empresa que se sinta OK com a minha posição. Se eu estiver perdendo alguma oportunidade porque eu me posiciono, melhor. Eu me sinto melhor assim. É um momento muito trágico, um momento desesperado do nosso país. Mas eu sempre fui assim, muito política, de alguma maneira. Meu pai trabalhou a vida inteira no Banco do Brasil e a minha mãe era professora. Então eu cresci vendo os dois passando por algumas greves, defendendo causas. Eu sou filha de Iemanjá e Xangô, então meu senso de justiça é forte desde que eu sou criança. Eu tenho dois irmãos mais velhos. E eu contava quantas batatas fritas cada irmão comia. Na minha cabeça não fazia sentido um de nós três ter mais que o outro. Dividir irmãmente é o lema da minha vida. Então é por isso que eu me posiciono, e tinha até que fazer mais. A gente às vezes só não faz mais porque enlouqueceria.

Considerando esse momento polarizado, para dizer o mínimo, você já teve problemas por manifestar suas opiniões?

Ah, nesse ano eu fiz um discurso no (Festival) Lollapallooza e virei meme da direita. Meu pai ficou desesperado porque ele recebeu muitos vídeos no whatsapp, fizeram uma montagem muito porca, que é o que eles fazem. Parece que eu tô falando cu e Lula, uma besteira. E eu falei “gritem comigo, um grito que vem do cu, do esôfago, que vem do coração”, eu falei várias partes do corpo. E o cu faz parte do corpo. Eu sou uma pessoa que não tem medo, nem vergonha, da chamada escatologia. Inclusive eu acho uma grande loucura, se a gente tá viva é porque faz cocô. Eu tenho uma boa relação com o meu corpo desde a aula de teatro. Lá  a gente aprende a ficar amigo do corpo. Eu era muito esquisita, 1m85, esquisitésima. Entrei no teatro e falei, ai, que alívio. Eu tinha uma professora de corpo incrível, Marina Salomão. O teatro me ajudou a entender a vida do corpo e nisso está incluso o cu, o esôfago, tudo está incluso. Ai, eu sou muito prolixa, a pergunta era, você se posiciona, e aqui estou eu falando de cu! Perdão! (risos)

O vermelho é a cor da Letrux. Essa foi uma escolha política?

Aconteceu que em 2016, o ano do impeachment, do golpe, começaram essas passeatas verde-amarelas. No dia da primeira passeata eu pensei, cara, vou botar esse meu casaquinho vermelho pra dizer que eu não sou dessa galera. E eu fui muito olhada, muito ridicularizada no metrô. Aí mesmo que eu disse, quer saber, agora que eu vou usar vermelho. Assim como quando essa idiota da Damares veio com o papo de que menina usa rosa, eu pensei, agora mesmo que eu vou usar o que eles não querem. Eu sei que parece besteira, mas eu sou ligada aos símbolos. Eu sou mais Jung que Freud. Fica uma mensagem subliminar ali, é um plim. Agora, para além da política, o vermelho é a cor do sangue. Não importa a sua cor, sua religião, quem é você, seu sexo, gênero, todo mundo sangra vermelho. E isso é hilário porque, quando eu era criança, propaganda de absorvente era azul. A primeira vez que eu menstruei, fiquei um pouco confusa. Eu não fui orientada e as propagandas eram assim, uma gota azul no absorvente. Daí eu no banheiro, olhando aquilo, ai, tô doente, me cortei! A propaganda não pode dizer que sangra? Tá tudo errado na nossa criação. 

Você vê algum avanço nessas questões do corpo em pleno ano da graça de 2019?

Acho que agora as coisas estão melhorando, mas piorando também. Porque ao mesmo tempo que tem uma galera linda vindo aí, gente que se assume, que se solta,  também tem uma galera muito retrógrada, querendo regular tudo. Querendo decidir a vida do outro. Tomara que a força de quem pensa fora da casinha  tenha mais viço que a força dessas pessoas idiotas que se importam com o cu alheio.

O protagonismo feminino pode ajudar a mudar as coisas no mundo?

Eu recebo muitas mensagens de meninas que nem são, à primeira vista, identificáveis comigo. São meninas gordas, meninas pretas, meninas lésbicas, mas que de alguma maneira veem algo na minha poesia, na minha soltura de ser. E eu entendo o que elas sentem porque eu sou uma sobrevivente de bullying. Mas eu fico toda errada com mensagens do tipo, “Letícia, você me ensinou”. Eu não ensinei nada, foi você que conseguiu. Que bom que a minha poesia atravessou algum lugar e tocou você. Eu fico muito feliz quando isso acontece. Eu sempre admirei muito as mulheres. Quando eu era nova, minha mãe me levava sempre ao cinema. Lembro quando a gente foi ver O Piano (1993) e apareceu no final o nome da diretora (Jane Campion). Uma mulher! E eu lembro que tinha uma nudez de homem no filme. Todo filme de homem tinha peito, xereca, sempre. Aí, de repente, eu fui ver o filme de uma mulher e tinha um peru! Eu falei, meu Deus, que coisa maravilhosa! Cara, isso é inesquecível na minha vida. Eu sempre tive muito esse olhar. Olha esse disco, Alanis Morissette, caralho. Eu fui percebendo as mulheres, Ana Cristina César, Clarice Lispector, quando eu fui entrando nesse universo de mulheres que faziam coisas lindas na música, nas artes plásticas, na literatura, eu pensei: acho que eu também posso. Admirar as mulheres foi fundamental pra eu existir como artista. Até no livro da Patti Smith (Só Garotos, 2010) ela fala uma coisa maravilhosa que tem a ver com isso. A Patti foi num show do Doors e era aquilo, todo mundo alucinado, em transe. Ela é capricorniana também, a gente é doido, mas sabe que a terra tá aqui, a gente não perde o controle com facilidade (risos). Ai a Patti diz que, de repente, olhou o show do Doors e falou: “legal, muito legal, mas acho que eu posso fazer”. Então acho que foi um pouco assim. Mas é claro que eu tenho o maior barato com os artistas que admiro, eu vejo a Bethânia e desmaio! (risos)

O que esperar para a arte nesses nossos dias?

É tudo tão turvo, tão desfocado. Eu acho que tem muitas mulheres criando, a gente nunca teve tantas mulheres, meninas, compondo, justo nós, um país reconhecido pelas intérpretes. E agora tem cada vez mais mulheres instrumentistas, compositoras, na parte técnica, isso é maravilhoso. Mas ao mesmo tempo tem toda essa onda conservadora. Eu acho que, quanto mais essa onda conservadora vier, mais é nossa hora de dizer: “queridinhos, aqui não vai rolar”. É hora de expandir, não de embrionar. Hora de abrir o plexo e mostrar a nossa arte, não ter medo, não ter vergonha. No momento em que estamos sendo todos atacados, a reação tem que ser a ousadia e a coragem. E isso a gente espera da comunidade LGBTQI+, dos pretos, dos artistas, das mulheres, de todo mundo que se importa. É isso que eu espero. Isso e Lula Livre, pelo amor da deusa. (risos)


A sua poesia é muito original, muito intensa. Você foi – e é – uma boa leitora?

A minha mãe é professora de francês e meus dois irmãos mais velhos não se encantaram pelo livro. Já eu tive um barato quando eu fui alfabetizada. Comprei a Turma da Mônica e li sozinha, foi chocante. Então acho que a minha mãe ficou muito feliz comigo, pensou, olha, aqui vai dar pra brincar com isso. Ela meu deu muitos livrinhos que eu tenho até hoje, é literatura importante pra minha formação. Tem um livro que se chama A Curiosidade Premiada, sobre uma menina curiosa, que eu li quando era criança. Misturado com Moby Dick, é um dos meus livros favoritos da vida! Eu devo essa vontade, essa curiosidade pela literatura à minha mãe, que me deu Drummond e Cecília Meirelles quando eu ainda era pequena. Aí eu fui criando os meus gostos, cheguei a começar a faculdade de Letras. A leitura influenciou quem eu sou.


O que você leu enquanto estava criando o seu disco?

Li Joseph Campbel, um livro em que ele fala sobre deusas e o passado mais matriarcal do mundo (Deusas: Os Mistérios do Divino Feminino, 2015). Li Jean Cocteau, A Dificuldade de Ser. Li o livro de contos da Lucia Berlin, Manual da Faxineira, ave maria, que descoberta. A mulher só tem esse livro, eu fiquei, e agora? Tô relendo e relendo até hoje! (risos) Esses três livros me ajudaram muito no processo do disco. E eu também leio muita poesia, sou apaixonada por Hilda Hilst, Adelia Prado, Sophia de Mello Breyner Andresen, a própria Ana Cristina César. E, das novas, a Ana Martins Marques, maravilhosa, a Bruna Beber, que é minha amiga e, mesmo que não fosse, eu ia amar o que ela escreve. A Matilde Campilho, amo o livro dela, Joquei, e o trabalho de vídeo que ela fez. Eu amo ouvir poesia, não só ler, ouvir poesia também. 

A astrologia tem muita importância na sua vida.

A minha mãe é pisciana e desde que eu sou criança ela botava cristais quando eu tinha dor de cabeça, usava homeopatia, florais. Ela fez um curso de astrologia quando eu era criança, tinha um tarô, eu ficava olhando aquilo, achava fascinante. E eu sabia meu signo desde que era criancinha. Eu sabia minha idade, meu signo e meu telefone. Até hoje me assusta quando alguém diz não saber o próprio signo. Foi a minha mãe que me levou pra fazer mapa astral pela primeira vez, e foi maravilhoso. Muito cedo eu entendi que a astrologia era um lugar que eu ia querer me aprofundar. Fiz curso, ainda leio muitos livros de astrologia, gosto de estudar. Mas eu questiono, não abraço totalmente. Sou mística, mas sou analítica. Não sou daquelas que fica assim, ai, o tarô disse que eu vou viajar, já saio comprando a passagem (risos). Por isso que eu nunca fui em vidente. Não quero que ninguém me diga o que vai acontecer. A astrologia só te mostra possibilidades. E aí o seu eu mais íntimo decide.


Você diz que outra influência sua é o radical “Let” (“deixa”, em um dos sentidos do inglês).

(Risos) Mesmo sendo capricorniana, eu tenho muito urgência de que a vida não seja em vão. Tem alguma coisa nesse radical que me dá um cutucão do tipo: deixa, deixa acontecer. Tem horas em que eu me vejo num impasse, uma situação do tipo ou vai ou racha e eu: deixa. Eu solto no ar e vejo o que o vento decide, o que vai cair primeiro, pra que lado vai. Acho que é por causa do nome, meu nome, Letícia, significa alegria. Minhas bandas sempre usaram esse radical, a primeira, uma bandinha de rock chamava Letícios – cafona, mas OK, éramos jovens. Depois veio o duo Letuce e, agora, Letrux. Eu sou péssima pra criar nomes do tipo Paralamas do Sucesso, essas coisas, esses nomes engraçados. Letrux é divertido e é um apelido que o Arthur, meu produtor que também é o meu melhor amigo, me deu. Então eu gosto de ter esse radical, to let, deixar as coisas acontecerem. Me ajuda ter esse radical.  Eu deixo fluir. Acho importante a gente saber deixar fluir. 


Você disse em uma entrevista que a sua melhor idade foi aos 5 anos.

(Risos) Eu sou muito nostálgica, o que está acontecendo na minha vida agora é lindo - apesar do país não colaborar. Internamente eu estou bem, estou feliz. Mas acho que existe uma coisa muito sagrada e maluca e mágica na infância que se perde até na lembrança. Como é escassa a lembrança, né? Eu pego qualquer memória que eu tenho e transformo aquilo na milésima potência. Quando eu revisito os lugares que eu ia quando criança, eu não acredito. Pego uma foto no sítio da minha avó e fico, Deus, essa pedra era um elefante, agora é uma pedra mínima. A minha idade favorita ser cinco anos é porque era tudo tão entregue, tudo tão fácil. Era só sonhar, dormir, brincar, nossa, que vida. Mas é uma coisa poética, eu estou bem com os meus 37, tá tudo ótimo.

Você dorme Letrux e acorda Letícia. Como é isso?

Cara, as pessoas esperam que depois do show você seja muito louca e não sei o quê, e tudo que eu quero é tomar uma canja no hotel e, se tiver banheira, então, uhu. Agora, se eu não tiver show no dia seguinte até posso ficar mais um pouco, tomar um vinho com os fãs, dançar, eu adoro dançar. Mas se tiver show no dia seguinte, aí eu sou muito disciplinada. Eu me ferrei muito no ano passado, perdi a voz três vezes, tomei corticoide, foi bem ruim. Diz que só pode tomar corticoide três vezes ao ano, e eu tomei três vezes. Então eu fiquei muito ligada e consciente de que o meu corpo é meu instrumento. A galera pluga a guitarra, pluga o teclado e tá pronto. Eu não, é o meu corpo, a minha voz, e a voz é emocional. Se eu estiver estressada, se eu brigar com alguém, eu fico rouca. Então eu não consigo ter uma vida de loucuras pós-show. 

Sonhar é melhor que viver?

Eu amo dormir, eu adoro sonhar. As pessoas menosprezam os sonhos. Eu sou obcecada por eles. Eu tenho todos os meus sonhos anotados no celular ou num caderninho, dependendo do que tá perto. E se eu não tô com saco de escrever, eu tenho áudio, pego o celular e falo com uma voz das trevas: sonhei que eu tava num sítio... Às vezes eu mando pra uns amigos e eles ficam, meu Deus, que loucura. Mas nada é aleatório, eu fico tentando interpretar. Quem faz análise sabe que tem muito mais no sonho do que parece. Mas quem não faz terapia pensa, tá, dormi e acordei. Não, pelo amor de Deus, não! Todos os dias você morre oito horas, tem muita coisa nessa morte. A gente tá em alguma outra dimensão vivendo, ninguém vai dizer que eu não vivi aquilo. Quando eu sonho que tô numa praia paradisíaca, eu ainda demoro a sair da cama, eu acredito que eu tô lá. Eu amo sonhar. A galera é muito inimiga do fim, né? Quer ficar no bar até o bar fechar. Eu amo as pessoas, amo a vida, amo a boemia, mas tem uma hora que eu falo: sonhar também é muito maneiro. Então eu sou a primeira a dizer, boa noite, gente, vou pra minha cama. Às vezes é tenso, mil pesadelos. Mas a vida é assim, então tá tudo certo.

Para terminar, a Letrux já está conquistando o mundo?

Eu fui pra Portugal pra tirar férias com o Arthur, meu produtor. Só que a gente aproveitou que tava lá e decidiu tocar em um barzinho. Cabiam 50 pessoas. Quando a gente chegou, tinham 300 pessoas na rua. Eu tive que fazer um show dentro e outro fora do bar. Daí a gente pensou, opa, tem campo aqui.  No ano seguinte, nós voltamos com a banda inteira. E foi lindo, a gente fez Lisboa, Porto Coimbra, os três shows lotados. E eu perguntava, todo mundo é brasileiro? Não, 50% eram portugueses. Não sei se isso é conquistar o mundo, mas foi demais.

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