16 de outubro de 2019

26º Porto Alegre Em Cena - Utopia, paixão e resistência

‘Meierhold’, espetáculo da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Talveiz, celebra quatro décadas do grupo e consagra ator Paulo Flores

Artes Cênicas

Texto: Laís Auler

Como resposta às transformações políticas e econômicas no Brasil, muitos artistas têm se organizado para refletir a sociedade através de suas obras artísticas. A Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Talveiz é, com certeza, um grupo de extrema importância para a produção cultural gaúcha e brasileira. Para comemorar os seus 40 anos de atuação, a tribo escolheu se posicionar, mais uma vez, a favor da liberdade de expressão e reafirmar as suas ideias e práticas libertárias diante da emergente onda fascista que paira sobre o Brasil e o mundo.

"Meierhold” estreiou em dezembro de 2018 em meio a uma agenda intensa para celebrar as quatro décadas do grupo. Trata-se de uma homenagem a duas figuras distintas e importantes no teatro, como o diretor, ator, encenador, teórico e pesquisador russo Vsevolod Meierhold, ilustre nome do teatro russo no início do século XX. E também o consagrado diretor, ator e psicanalista argentino Eduardo Pavlovsky, visto que a peça é uma livre encenação do seu texto "Variaciones Meyerhold".

Dentro da programação local do 26º Porto Alegre em Cena, “Meierhold” teve duas apresentações na Sala Álvaro Moreyra, e consagrou ao ator Paulo Flores o Prêmio Braskem de Melhor Ator. A montagem intercala reflexões artísticas do fazer teatral com a dramatização da trajetória do pensador russo com o auxílio de diferentes linguagens e recursos cênicos. João Alex de Souza assina a belíssima música original e Eugênio Barboza os vídeos que corroboram para a criação de um ambiente de delírio e divagação.

Avesso ao realismo, Meierhold abandonou o Teatro de Arte de Moscou para aprofundar a sua própria convenção dramática, que chamou de “teatro da convenção consciente". Com isso, desenvolveu a técnica da Biomecânica, um método de preparação do ator que busca explorar ao máximo as possibilidades físicas e psíquicas. Sua concepção também inclui a figura do espectador, o qual assume uma postura de criação e reflexão sobre o que está em cena, atitude essencial para a completude de uma obra.

 Entusiasta da Revolução Russa, o diretor assumiu um importante papel como militante cultural. Porém, o desenvolvimento de um pensamento simbólico e o afastamento do realismo soviético culminou no seu isolamento da classe artística. A peça retoma a sua participação no primeiro Congresso de Diretores Russos em 1939, no qual foi amplamente rejeitado. A figura de Meierhold lembra com dor e ansiedade a maneira como foi ignorado por antigos colegas, admiradores e até mesmo alunos. No evento, ele defendeu o direito à liberdade de expressão e o papel da arte como meio revolucionário.

Após esse episódio, o diretor russo foi preso pelo exército stalinista. E dias mais tarde, sua esposa Zinaida Reich, atriz e poeta russa, foi encontrada degolada no apartamento do casal em Moscou. Acusado de trotskista e de negar os ideais socialistas, Meierhold foi brutalmente torturado aos 66 anos. No dia 2 de fevereiro de 1940 foi fuzilado e defendeu até o fim os seus ideais estéticos e a defesa da imaginação criadora.

            Flores vive a figura do artista russo em uma encenação estruturada em fragmentos, que mistura ações, pensamentos ditos em voz alta, diálogos com companheiros do passado, memórias de ternura ou sofrimento. O cenário construtivista, a iluminação intensa e os figurinos dos seus antagonistas reforçam a semelhança com as concepções da Biomecânica. A cenografia é uma versão do dispositivo cênico criado por Liubóv Popóva para o espetáculo “O Corvo Magnífico", dirigido por Meierhold em 1922.

A atriz Keter Velho vive em silêncio distintas figuras da vida do artista russo durante os devaneios do personagem. Um corpo ora com uma fluidez incrível como Zinaida ao dançar com o seu amor; ora com força e habilidade ao usar uma máscara de papel machê com a cabeça de Gogol (escritor russo), e brincar pelo labirinto cênico sem perder a dinâmica das acrobacias e movimentos. A presença vívida de Keter contrapõe com o Meierhold abatido que está envolvido em seus tormentos e lembranças.

Prestigiosa figura do teatro latino-americano, Paulo Flores teve grande participação no festival. No dia 20 de setembro, o saguão do Centro Municipal de Cultura, Arte e Lazer Lupicínio Rodrigues lotou para o lançamento e sessão de autógrafos do livro “Paulo Flores – Um teatro com pedra nas veias", escrito pelo jornalista Roger Lerina. A obra compõe o 9º volume da coleção Gaúchos em Cena que, através de entrevistas e depoimentos, percorre a trajetória artística e pessoal do ator gaúcho.

Meierhold é o mote para a Terreira da Tribo refletir sobre o fazer artístico e o papel do teatro em uma sociedade à beira do colapso. É um mergulho no próprio teatro, mas também na arte como um agente transformador. E, ainda, como um elemento combativo aos governos repressores, como uma luz terna nos tempos sombrios.

Paulo Flores e Meierhold têm muito comum. Artistas ferrenhos, que lutaram por uma inovação estética da arte, pela afirmação do teatro como ferramenta de construção de uma sociedade melhor, pela luta contínua à liberdade de expressão. Não à toa, o ator foi um dos convidados da primeira edição do Escuta Clandestina, evento que discutiu o tema da Censura na Arte, junto de David Ceccon, Rafael Guimaraens, Ana Luiza Azevedo, Rafael Gloria e Thaís Seganfredo.

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