02 de outubro de 2019

Entrevista: a fortaleza de Negra Jaque

Depois de perder o pai e a mãe, a rapper porto-alegrense reencontra força interior e lança seu manifesto em ‘Diário de Obá’

Música

Entrevista: Amanda Zulke
Foto: Gil Tuchtenhagen

 

Nascida e criada no Morro da Cruz, bairro da periferia de Porto Alegre, Jaqueline Trindade Pereira, a Negra Jaque, comemora o nascimento de ‘Diário de Obá’, seu mais recente álbum. Nesta sexta-feira, 4 de outubro, ela sobe ao palco do Agulha para apresentar o disco, produzido em parceria com alunos do curso de Produção Fonográfica da Unisinos. Pela primeira vez, a rapper misturou a base eletrônica com instrumentos como bumbo leguero [gravado pelo músico Ernesto Fagundes], berimbau e atabaque.

No último ano, em intervalo de poucos meses, Negra Jaque perdeu a mãe, o pai e uma tia. Rapper, professora, militante e mãe de um menino adolescente, a artista foi obrigada a dar um mergulho interior. ‘Diário de Obá’, orixá que representa o poder feminino de luta, vem na maré desses processos internos de ressignificar as perdas e honrar sua ancestralidade. Conta ela que agora, quase um ano depois, é que consegue falar sem chorar. Na esteira dessas transformações, Jaque entrega uma espécie de narrativa sonora sobre sua vida, que é também a de tantas mulheres negras no Brasil. “Diário de Obá é um resgate; fala de memória, de tempo, do ontem e do hoje. Fala de ancestralidade e do quanto cada uma de nós, mulheres, tem dentro uma energia que pulsa”, explica.

“A história tá aí pra ser reescrita sempre”

No final de setembro, encontramos a artista para conversar sobre o álbum e a história por trás dele, assim como sobre sua história de vida. Celebrada na comunidade, Negra Jaque esteve acompanhada durante toda nossa conversa. Na chegada, foi saudada carinhosamente pelo senhor do CTG ao lado do mirante do Morro Cruz. Uma menina de cerca de 10 anos tirou foto com ela, acompanhou a entrevista e fitou a artista com admiração do início ao fim. Não foi a única. A funcionária responsável pela Biblioteca Ilê Ará participou ativamente e professoras da escola ao lado pararam Jaque para conversar. Pudera. Dona de um sorriso farto e abraços sinceros, aliados à relevância de suas rimas, Negra Jaque é uma referência não apenas para aquela comunidade, mas para toda uma geração de meninas e mulheres negras que vem desconstruindo as mazelas de um racismo cruel, ainda longe de ser superado.

Todo carisma de Jaque é equilibrado com um forte discurso político, forjado no início de sua adolescência, quando rompeu as fronteiras do morro para estudar no centro da cidade, no Instituto de Educação. Foi lá que conheceu os ensinamentos do educador Paulo Freire e percebeu que as cinco meninas negras da turma eram as únicas que trabalhavam para pagar o ônibus para chegar na aula. Foi também quando viu o quanto seus cabelos eram diferentes e eram motivo de chacota para pessoas brancas. “A gente não entendia porque. Isso me despertou uma certa raiva, sabe? Acho que o bem muda o mundo, mas a raiva muda mais”, desabafa a artista.

À Clandestina, Jaque fez uma retrospectiva de sua história no Morro da Cruz, sua relação com o hip hop e os movimentos políticos que abriram horizontes na sua caminhada. Confira a conversa na íntegra:

Clandestina – Jaque, como é a tua história aqui no Morro da Cruz?

Negra Jaque - Nasci nessa comunidade, minha família toda é daqui. A gente não sabe de onde a gente veio antes. E isso é incrível, né? É uma história comum de todos os brasileiros e brasileiros que moram em periferia, enfim. A gente sabe que a gente é daqui, principalmente a família da minha mãe.

C - E tu conheceu teus avós?                                    

NJ – Não. E a expectativa de vida é sempre muito cedo, né? Perdi minha mãe agora com 55 anos. É louco. Foi no final do ano [Jaque respira]. Mas então, cresci aqui, até o nono ano. Na comunidade as crianças estudam até o nono ano, porque são poucas escolas de ensino médio. Tem uma só escola aqui, na verdade, de ensino médio.

C - Em todo Morro?

NJ – Sim, em todo morro. Que nem é no morro na verdade, é lá embaixo. Então não facilita nada. E aí a galera que faz 13, 14 anos precisa trabalhar pra poder pagar a passagem pra ir pra escola. Então nessa função eu troquei de escola, né? Como todos os meninos que continuaram estudando. A maioria não vai, porque é um funil, né? Digo que crescer aqui é um funil, tu te limita até o nono ano e depois se tu tiver condições tu segue. E fui pro Instituto de Educação. Com essa função de falta de perspectiva, de não saber o que ia fazer, se ia entrar numa faculdade ou não, acabei fazendo curso normal e magistério. Então eu fiz Ensino Médio e Magistério, tudo junto. Bem novinha. Tava trabalhando também, né? Meu primeiro trabalho foi na escola, de serviço de apoio socioeducativo. E nunca mais parei de trabalhar. Comecei como monitora. E o hip hop veio na minha vida a partir desse processo de formação, de sair do morro, estudando pra ser professora. Estudando Paulo Freire eu conheci as formas de organização da juventude e aí conheci o hip hop.

[A bibliotecária interrompe a entrevista: “E hoje é aniversário do Paulo Freire”]

NJ – É hoje o aniversário do Paulo Freire? Daaaale. [Risos]. Ontem mesmo eu falei dele, na escola que eu estava [Jaque participou de uma atividade com alunos do Colégio do Aplicação]. E aí conheci a história dele, vi como ele passava para as pessoas a questão da educação no Brasil, o quanto ela resgata vidas. A educação para jovens e adultos, essa educação pra diversidade... 

C – E tu tinha quantos anos aí?

NJ – Tinha 14. Foi quando tudo veio. Saí da comunidade, comecei a estudar no Instituto de Educação, que é uma escola pública, mas atende uma galera de nível médio-alto, né? E aí eram cinco meninas negras em seis turmas, uma loucura. Turmas muito numerosas, muitas mulheres, acho que tinha um homem na minha sala. Então é pra gente ver: essas coisas eu comecei a me dar conta, o quanto é diferente ser uma menina negra fora da comunidade. Porque aqui eu era só uma menina, e tudo bem. Conheço alguns africanos que dizem: “bom, nós somos homens ou mulheres”. Não, aqui nós somos mulheres e homens negros. E isso modifica todo nosso olhar sobre a vida. E aí, perceber a diferença de tratamento dos professores... tanto é que nesse núcleo, as quatro, cinco meninas negras eram as que trabalhavam. Então por que a gente precisava trabalhar? Esses questionamentos sobre o lugar, sobre o cabelo... o quanto nosso cabelo era diferente e o quanto isso, por algum motivo, para as pessoas não-negras era engraçado. E a gente não entendia porque. Isso me despertou uma certa raiva, sabe? É isso. Acho que o bem muda o mundo, mas a raiva muda mais. Sabe? Por que isso? E aí questionava os professores e ia pra sala da direção. Porque eu questionava o que eles falavam.

Fui colega da Camila Lopes, premiadíssima hoje com o filme ‘O Caso do Homem Errado’. Era eu, ela e outras meninas negras, que moravam nas comunidades, uma no Pinheiro, outra na Restinga, eu aqui no Morro da Cruz. Então eu cresci naquele espaço pela primeira vez tendo acesso à cidade. Como eu circulava muito a pé, trabalhava de manhã, estudava de tarde, a gente circulava pelo centro. Conheci a Casa de Cultura Mario Quintana e outros lugares que eu nem me dava por conta que existiam. Porque eu era uma menina que não saía daqui.

Aí quando eu fiz 17 anos fiz um curso de Educação Popular, no Instituto Leonardo Murialdo.  Teve um plano de governo chamado Plantec, e foi maravilhoso, porque implementou cursos de formações em várias comunidades. Uma delas escolheu o curso de Educador Social pra jovens. Eu tive um pedagogo maravilhoso chamado João Werlang. E eu digo: os educadores são responsáveis por mudar a cabeça das pessoas. Eles são fadas, sabe? Que organizam, te despertam pro mundo. Eu fiz curso de educação popular, onde a gente iniciou um projeto aqui no morro chamado “Morro da Cruz para a vida”, e aí foi indo e a gente foi ampliando. Digo a gente porque era eu e mais 15 educadores, cada um na sua linha, eu com essa questão da própria literatura, da construção da educação muito presente em mim. 

C – Isso quando tu tinha terminado a escola?

NJ – Não, foi tudo meio junto. Três anos de uma intensidade que não tem como descrever. O fim da adolescência e minha juventude foi isso, sabe? Conhecer o mundo, ampliar essa visão de mundo e ter acessos e muitos grupos. Fazia muito intercâmbio com uma galera de fora da comunidade, da Restinga, por exemplo. Era uma época que estavam lançando alguns livros, a galera do hip hop, “Cabeça de Porco”, “Falcão – Meninos do Tráfico”, livros que foram marcantes, livros que nos descreveram, né? E a gente conseguia se identificar. Foi um turbilhão de coisas na minha cabeça. Aí com 17 anos escrevi meu primeiro rap e nunca mais parei.

C – Teus irmãos estudaram no Instituto também, como foi isso?

NJ – Tenho diferença de dois anos do meu irmão, ele mora aqui em cima, na comunidade. E ele é grafiteiro. Então ele acompanhou comigo esse processo, de conhecer outras coisas, de se expressar através da arte, da nossa arte. De maneira simples, que essa arte pode ser acessível a qualquer pessoa. Então eu estudava lá no Instituto de Educação, mas nosso espaço de criação eram as ruas do Morro. Foram criados muitos projetos de grafitagem, então a gente ia pra rua, fazia rap, levava som e embelezava o lugar. Atividades de reciclagem, de organização do ambiente pras próprias crianças.

C – Isso tudo no Morro da Cruz?

NJ – Sim, fui até meus 20, 21 aqui nesse lugar. Aí criei um grupo com outros quatro amigos, chamado Pesadelo do Sistema. Olha só. Porque era isso, a gente queria confrontar. E o rap tem isso, a essência do hip hop é essa, confrontar o sistema, exigindo direitos, direitos que são normais a todos seres humanos. Era um grupo misto, três mulheres e dois homens, e a gente cresceu naquele grupo. Até 2012 tivemos o grupo. O pai do meu filho era do mesmo grupo.

C – Vocês se conheceram fazendo rap?

NJ – Fazendo rap. Hoje ele não faz mais, trabalha com outras coisas. Eu continuei. Engravidei do Erick com 20 anos e aí foi um outro marco na minha vida. Fiquei uns dois, três anos bloqueada. Porque minha vida era ser mãe, e como é necessário voltar no tempo nosso olhar, sabe? E é muito incrível porque vivia uma situação bem difícil, financeira, e até no próprio casamento, que fazia eu ir cada vez mais dentro de mim. Foi bem ruim. Síndrome do pânico eu tive, quando o Erick era bem pequeno. Por conta disso: eu já estava num lugar que eu não queria estar. Toda aquela depressão que as mulheres têm quando os filhos nascem, né? “Eu sou o quê? Sou mãe do Erick, eu sou mulher, o que que eu sou?”. E aí em 2013, 2015, eu resolvi voltar pro rap. Nesse meio-tempo, de 2012 a 2015, teve separação, saí de casa, peguei o Erick, mochila nas costas. Não dava mais. Eu precisava me encontrar de novo. O Erick tinha três anos. E fomos morar em outro barraquinho, tipo assim, do jeito que eu tô te falando, e eu entrei na universidade. Daí a minha vida recomeçou a partir dali. Troquei de casa, comecei outro trabalho, onde eu podia levar meu filho. E levando meu filho eu comecei a universidade. Fui cotista, prounista. Fiz IERGS, universidade à distância, porque era o que combinava com a função de cuidar do filho, né? Porque era só eu e ele, sempre só eu e ele.

C – E em que curso tu entrou?

NJ – Então, eu fiz pedagogia em função do hip hop. Também como contraponto, por acharem que a galera do rap não tem conhecimento de nada. Então pra qualificar meu trabalho mesmo com o hip hop eu fiz pedagogia. E porque comecei com isso.

C – Tu sempre teve essa certeza de que era hip hop que tu queria fazer?

NJÉ o hip hop, não existe outra coisa. Sabe quando tu encontra teu lugar no mundo e não consegue te ver em outro lugar? É isso. Não consigo me ver fora. É cantando, produzindo atividade, dando oficina, trocando ideia... é isso. E agora eu quero fazer uma pós-graduação em Arte e Educação, que vai unir essas duas coisas que eu tenho.

Com essa mudança de casa, com o Erick, eu comecei a fazer pedagogia, eu já tava trabalhando em outra escola da comunidade, me tornei coordenadora pedagógica. Fiquei seis anos, pensando nessa educação de diversidade. Onde eu vou numa estante de livros e meu filho vai conseguir achar um livro com um menino negro. Então é pensar nessa escola como uma ferramenta de ampliação de mundo pra essas crianças. Eram 120 crianças. Foi uma época em que o Brasil estava inaugurando muitas escolas comunitárias, foi 2015. Brasil Carinhoso, etc.

C – E como tu te sentia nessa função?

NJ – Guria, muito sobrecarregada. Mas era lindo, porque tu tem a possibilidade de pensar numa educação que vai diminuir as mazelas que eu sofri quando era pequena. E isso é muito poderoso. E estar do lado daquelas mulheres, me fortalecer com elas. Porque a gente pode se achar bonita, a gente pode se sentir de outra forma, porque nosso cabelo é bonito, nossa pele é bonita. Que a maioria das educadoras era negra. Porque as meninas que chegavam ali eram negras. E foi lindo. Fiquei seis anos lá, celebrando o 20 de setembro de outra forma. Porque precisamos falar dos Lanceiros Negros. O quanto foi um acordo econômico e não uma revolução. Falar que é importante marcar essa questão da mortalidade, quem são os heróis de verdade. E que essa história contada é uma história montada, porque a gente precisa ter um turismo, e essa história foi montada para isso. Então tem muitas coisas que a gente não encontra nos livros de história, a gente precisa provocar esses professores a pensar nisso, né? Sempre fui uma coordenadora com mais perguntas do que respostas e acho que isso me fez muito bem também, tanto pra mim quanto pra elas. Acho que isso ajuda a construção do nosso pensamento.

C – E como ficou organizado o hip hop pra ti durante esses seis anos?

NJ – Foi muito devagar assim, porque a escola, quando tu aceita o desafio de ser coordenadora e estar à frente de pensar um espaço de ensino, tu te sobrecarrega. Aí quando foi em 2017 eu disse pra diretora: “estou indo embora, não tenho mais condições”. Já tava fazendo o calendário do outro ano, então me sentia um móvel daquela instituição. E eu precisava viver o hip hop de novo, precisava dessa chance comigo. E aí fui trabalhar em escolas menores como professora, porque precisava me manter, né? Voltei pras batalhas de rua, participei da Batalha do Mercado, em que ganhei a batalha e o prêmio, que foi gravação no estúdio, e aí comecei a gravar o primeiro disco. Profissionalizar, que eu queria tanto, e organizar as memórias, músicas que eu tinha escrito. E fui tocar. Fechei meu primeiro EP, com a primeira produtora, que foi a Paula Stuczynski, e fomos indo. Cada disco uma produtora diferente.

C – Só mulher?

NJ – Só mulher. Não sei. Sei lá. Foi o destino que trouxe as meninas comigo. Não me vejo com produtor até hoje. Não sei como é que ia ser. Acho que com o pensamento que eu tô agora não ia ter tanto problema. Mas antes eu acho que precisava de uma mulher comigo pra me fortalecer. Porque eu preciso ir mais, ir além. Não gosto de falar das coisas que conquistei, sabe? Porque eu acho que tô sempre num processo de crescimento... mas eu acho que já fiz coisa pra caramba. Nossa. E agora vim com Diário de Obá. Ele fala de memória.

C – A Jaque é a melhor entrevistada do mundo. Responde antes mesmo da pergunta.

NJ – [Risos]. Só saio fazendo. É, coisa de profe... Acho que é também fazer esse exercício pra que as pessoas entendam o que eu estou falando. Porque a palavra tem que ser simples, quanto mais simples melhor.

C – E Diário de Obá, como foi a concepção do disco?

NJDiário de Obá é um resgate. Eu tô num processo muito forte de transição, desde o final do ano passado pra cá. Sobre a minha espiritualidade, sobre o que quero deixar de legado pras pessoas. Porque o nosso legado é o presente, é durante. Não é quando eu morrer. Ele é memória, é tempo, é agora. E eu tô muito preocupada com isso, com o que de físico, de concreto, eu posso deixar pras pessoas. Além da palavra, que é passada. E Diário de Obá não é um disco de rap comum, ele foi feito em parceria com uma equipe maravilhosa da Unisinos, do Curso de Produção Fonográfica. Fabiana Menini, minha produtora, conseguiu essas parcerias que nos fizeram crescer muito. Desde o processo de pensar esse disco como um diário... porque essa função da escrita, pra mim, enquanto mulher negra, ainda é muito rasa. Ainda não temos muitas coisas escritas e isso começou a me preocupar. A gente não tem livros de hip hop no Rio Grande do Sul. Quem é que escreve isso? Quem escreve, quem pensa nessas memórias? Então a ideia era ser um disco, mas vinha atrelado à ideia das minhas memórias escritas. E a sequência disso serão coisas escritas, tô caminhando pra isso, porque é importante. O disco trabalha o tempo, o ontem, o hoje, o que eu quero deixar. Essa questão da ancestralidade, o quanto cada uma de nós, mulheres, tem dentro de nós essa energia, e essa energia pulsa. E a gente precisa desse ponto de apoio que são as outras mulheres. Fala dessa nossa interferência – o quanto o nosso papel, nossa existência interfere no mundo. Fala de cor, de gente, de rua. O quanto a estrutura do morro pode ser simples, pode ser bonita, pode ser colorida e agregar pessoas. Então é um disco muito iluminado.

C – Ele foi construído antes de chegar na turma de Produção Fonográfica que trabalhou contigo?

NJ – Sim, o conceito sim. O conceito eu já tinha. Queria trabalhar um diário, as narrativas em forma de rap, queria trabalhar tempo. E aí duas ou três músicas foram escritas durante o processo de entrega. Apresentei 12 músicas e selecionamos seis pra trabalhar. Então por isso que o planejamento é ter uma parte b, um volume dois ou um segundo capítulo. Esse é o meu pensamento, assim. E é isso, é um disco que traz a cara do Brasil. Das mulheres daqui. Não é um disco eletrônico, tem instrumentais com o bumbo leguero [gravado pelo músico Ernesto Fagundes], o berimbau, galera que toca atabaque. Tem sim o eletrônico, a base de trap, mas ele é muito orgânico. E tem muita mão, é uma obra feita por muitas pessoas. Tô muito ansiosa.

C – O que tu ouviu na época de construir esse disco?

NJ – Escutei as músicas brasileiras. Luedji Luna, a Elza – que é atemporal, um espírito. A Elza é o Brasil, né? Escutei Rael, algumas coisas que ele produz eu gosto muito. Essa mulherada, Tassia Reis... Me liguei muito na questão da religiosidade. Li sobre as orixás e a Obá foi a que eu escolhi pra dar nome ao disco porque ela conta a história de uma mulher orixá que lutou no meio dos homens, é uma orixá muito forte. Ela tem muitas mazelas ligadas a perdas e coisas que teve na vida, mas ela resiste. Trabalha com a questão do conhecimento, e eu acho que sou muito ligada a ela. Tão ligada que eu tive sonhos no ano passado, antes de escolher o nome do disco. Tive na terreira, joguei e caía toda hora, antes de eu falar. E aí pedi permissão, fiz todas orações necessárias, porque eu não tinha religião nenhuma e agora eu tô me inclinando pra essa parte porque acho que tem tudo a ver. A gente foi muito maltratado em relação a nossa religiosidade no Brasil, julgados, exterminados. A intolerância religiosa tá aí pra nos matar. Porque um povo sem poder executar a sua fé é um povo sem futuro. Isso é muito cruel, extremamente cruel. Então esse disco também fala disso. É provocativo.

C – O que tu vê de diferente no Morro, da época em que tu cresceu aqui pra hoje?

NJ – Não vinha ônibus aqui, né? Quando eu era pequena tinha o “Morrão”, que era maravilhoso, porque ligava a Tuca, São José, até aqui em cima. Era uma alimentadora, que chamam hoje né? Só que tiraram. A gente andava de graça de cima pra baixo nesse ônibus. Mas foi tirado, como tudo, uma coisa sem lógica. Quando eu era pequena acho que tinha mais atividade pras crianças, ligadas à religiosidade. Tanto a galera das terreiras quanto o pessoal da igreja hoje diminuíram as atividades. Tem dois ou três centros específicos, tipo a Biblioteca, o Coletivo de Educadores. Mas são espaços fechados. As atividades nas ruas diminuíram bastante. E, claro, esteticamente, quase não tem mais casa de madeira, quase todas de alvenaria. Tem uma ocupação muito maior de gente. Isso aqui [aponta pra baixo do mirante] que vocês veem era tudo mata. Ocupou geral, acho que triplicou o número de habitantes também. Tem uns três postos de saúde hoje. Então essa questão do acesso à qualidade de vida deu uma melhorada. Mas a gente continua sendo a mão braçal que alimenta aquele lado de lá, que é a cidade, então a galera aqui trabalha muito com limpeza urbana, serviço doméstico e segurança.

C – Como teus pais enxergavam tua escolha pela música?

NJ – Então, a minha mãe ignorava. O meu irmão tinha uma banda de pagode, né? Na mesma época que eu comecei no rap. Então ela chegava a ir nos eventos que o mano tocava e não ia nos meus. Foi bem difícil aceitar, sabe? Eles não iam nos shows. Em função de estar em espaços que não eram deles. A gente não saia do Morro, então eles perpetuavam isso, tudo era aqui. A mãe só saia pra trabalhar, pegava um ônibus e voltava. Assistia novela e de vez em quando tomava uma cerveja no domingo. Essa era a vida deles.

C – Mas eles não chegavam a reprovar, só não queriam se envolver?

NJ – Só não queriam se envolver. Aí meu rosto começou a aparecer nos jornais e a comunidade vinha e apresentava pra eles. Meu pai andava com o jornal debaixo do braço, pra cima e pra baixo. Dentro de uma jaqueta que ele usava. Tanto que quando eles faleceram eu tive que fazer uma limpa, porque as matérias de jornal estavam tudo na casa deles. Agora tenho no mural da minha casa. Foi necessário outras pessoas de fora e do morro falar que me viram na televisão, aí eles começaram a se dar conta do tamanho da história. Eu fui a primeira pessoa da minha família a se formar, né? Durante a escola eles também não participavam muito. Que é muito da baixa autoestima... tu não querer estar nesses espaços. Claro, eu sempre tive maturidade pra me dar conta que é por causa disso, de como é difícil pra alguém que não sai daqui se deslocar.

C – E tu sempre teve essa personalidade forte, essa força de bancar tuas escolhas?

NJ – Sim. E sofri com isso. Muito. Claro, na frente das pessoas não. Mas de ir pra casa e pensar “meu deus, o que eu vou fazer?”. Eu escolhi isso e tento ser ética, em todos os momentos. Se eu combinar, disser que vou fazer algo, vou até o final. E isso faz com que eu sofra muito num mundo como o de hoje. É um mundo meio cruel. Eu escolhi ser isso e vou até o final. E eu me puno, a gente tá numa época em que as mulheres se crucificam muito. Somos muito julgadas, temos que ser supermães, supermulheres, super profissionais. E não somos super tudo. Só que a gente se crucifica. Parece que sempre tá faltando alguma coisa. Início desse ano eu comecei a fazer terapia, porque não me sentia uma mãe suficiente, uma artista suficiente, não me sentia uma pessoa suficiente pra alguém me querer. Ainda passo por esses processos. Como é difícil a gente se enxergar no mundo e enxergar nosso valor.

C – E a terapia tem te ajudado nessa busca?

NJ – Ajudou muito. Tive que parar, porque comecei a não dar conta de todas as coisas. Mas depois desse processo do disco quero retomar. A terapeuta me ajudou muito, foi maravilhosa. Escolhi uma terapeuta negra, né? Pra entender também todos esses processos do racismo e de quão cruéis e nocivos eles são pro nosso pensamento. Eu não gostar de me ver nos lugares, das minhas fotos, por exemplo. Poder separar o que realmente não está bom do como eu me sinto. Eu preciso enxergar a beleza onde sempre disseram que era feio. É muito confuso.

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