30 de agosto de 2019

Entrevista: Lucas Santtana

Conversamos com o cantor, compositor e instrumentista, que prepara seu oitavo disco de estúdio depois do inovador ‘Modo Avião’

Dança

Entrevista: Amanda Zulke
Fotos da entrevista: Gil Tuchtenhagen
Fotos do show: Vitória Proença

 

Instigado pela flauta presenteada pelo pai e pelos vinis que ganhava da mãe em Salvador, Lucas Santtana foi produzindo em 49 anos de vida um mosaico de referências musicais e sonoras que lhe renderam sete álbuns, incontáveis parcerias e diversas trilhas para o cinema e o teatro. Músico sem interrupção, o baiano, nascido em Salvador e hoje residente em São Paulo, entregou a Porto Alegre no último sábado (24) um show intimista com a companhia de seu violão. Quem o trouxe para o Agulha - palco em evidência no cenário musical independente da Capital - foi o Circuito Orelhas, iniciativa de Bruno Melo, Miriane Brock e Lucas Groisman que tem aliado artistas de destaque nacional com nomes que estão despontando na cena local.

Lucas é filho de Roberto Sant’Ana, nome forte do Tropicalismo, e sobrinho do cantor e compositor Tom Zé. Dinâmico e experimental, o artista canta temas como o amor, a natureza e a cidade em faixas que vão da suavidade ao swing. Seu álbum ‘Sem Nostalgia’ foi eleito o melhor disco de 2011 pelo jornal Liberation, da França, e considerado um dos 10 mais importantes discos do século 21 pela revista Rolling Stone. ‘O Deus que devasta mais também cura’, seu quinto trabalho, entrou na lista de melhores discos do ano da revista francesa Les Inrockutpibles em 2012. Em 2017, lançou ‘Modo Avião’, projeto inovador que conjuga música, literatura e cinema, com a parceria do escritor João Paulo Cuenca e do quadrinista Rafael Coutinho. Agora, prepara o lançamento de seu próximo trabalho, nascido em um momento de “muito barulho”: “achei que talvez fosse bom um disco que falasse bem baixo no ouvido das pessoas”, confessou Lucas.

Confira abaixo a conversa que tivemos com o músico após a passagem de som que antecedeu sua estreia no Agulha:

 

CLANDESTINA - Fiquei sabendo que tua relação com a música é bastante antiga. Já na infância existiu a flauta, presente do pai. Mas e depois da infância, já na juventude, existiu algum outro ofício ou foi sempre a música?

LUCAS SANTTANA - Sempre a música. Com 11, 12 anos, passava um cara que vendia vinil no trabalho da minha mãe e ela comprava pra mim e pro meu irmão. E tinha de tudo, Beethoven, Hermeto Pascoal, Michael Jackson, todo tipo de música. Meu irmão curtia mais heavy metal, eu curtia o resto. E eu voltava pra casa, almoçava, ia pro quarto, botava esses vinis, deitava no chão e tinha mil viagens, assim, de imaginação, sabe? Me emocionava muito com as músicas. Com essa idade eu falei: ‘cara, eu não sei o que vou fazer, mas eu vou trabalhar com música, porque tem uma coisa aqui muito forte, muito mágica’. E aí eu decidi, comecei a estudar flauta doce, depois flauta transversal, entrei nos cursos de preparação da universidade, fiz faculdade [Lucas estudou Música na UFBA por um ano e meio]. Comecei a tocar com o Gerônimo, que é um compositor de lá, depois fui tocar com o Gil [Gilberto] na banda dele, gravei o Unplugged, e aí foi, né? Com 12 anos eu tive esse encontro com a música, que foi muito forte, e eu tive muita sorte. Sorte de tocar com o Gil muito cedo, de poder juntar grana e depois disso começar minha carreira solo. No começo foi muito difícil, mas eu tinha uma grana guardada, enfim, tive a sorte de só trabalhar com música a vida toda.

 

C - Foi nesse momento que se deu a tua mudança da Bahia para o Rio de Janeiro? 

L – Foi, porque o Gil me chamou pra gravar uma faixa no Tropicália 2, ele e Caetano, aí gravei ‘Baião Atemporal’. E na sequência ele me chamou, de 93 pra 94, pra gravar o Acústico. Nessa eu pensei em ir logo pro Rio, já tinha 23 anos, ficava mais fácil pra mim. Naquela época em Salvador só tocava axé music, então pra mim era difícil de me imaginar ali naquele universo. Então toquei com o Gil quase quatro anos, depois saí, comecei a minha história, fiz carreira no Rio e agora vim pra São Paulo. Mas na verdade São Paulo se ligou mais no meu trabalho do que o Rio.

 

C - Tu diz por contatos...?

L - Por contatos e porque eu fazia mais show lá... fazia mais trilha de cinema, de teatro, em São Paulo. Então por uns dez anos, de 2005 a 2015, fiquei indo toda hora. E só não fui logo morar por causa do meu filho mesmo [Josué, filho de Lucas, tem 17 anos e mora no Rio de Janeiro].

 

C - O teu trabalho mais recente, 'Modo Avião', veio com uma proposta bem diferente, de costurar música com literatura, quadrinhos... De onde veio esse insight? 

L – Foram vários insights, como um quebra-cabeça. Uma vez a gente estava indo tocar na Turquia, aquele voo longo, internacional, e uma hora eu pensei: “caramba, isso aqui é um não-lugar, não é nem Brasil nem Istambul ainda”. E você está totalmente entregue, é obrigado a entrar nesse outro modo, ler um livro, ver um filme, dormir, pensar. Você é obrigado a desconectar, entrar no modo avião mesmo. Um dos insights veio disso, mas o principal veio de um dia que eu estava perto da rua Augusta, em São Paulo; almocei e tinha uma reunião tipo 16h30, tinha um intervalo de tempo que não valia eu voltar pra onde eu estava hospedado. Fui no cinema e tinha o Anticristo, do Lars Von Trier, entrei pra ver e fui ficando com sono no começo do filme. Fiquei lutando contra o sono, “ah, cara, nada a ver eu dormir, né? Paguei pra ver o filme, quero ver”. Mas aí negociei comigo mesmo, fechei o olho e fiquei ouvindo o filme. Dormi, obviamente, mas uma hora acordei e vi o fim do filme. E saí do cinema com essa forte ideia, falei: “cara, e se eu fizesse um áudio-filme, um negócio que você entendesse uma história apenas através dos sons, com diálogos, música, como um filme auditivo?”. Aí fiquei com essa ideia muito tempo na cabeça, mas era um projeto caro... e aí quando pintou o edital da Natura Musical a gente escreveu o projeto.

 

C – E os nomes do Rafael Coutinho e do JP Cuenca já estavam desde o início?

L – Não, o primeiro nome que eu pensei foi o do Bernardo Carvalho, um escritor que eu admiro muito. Só que o Bernardo ficou com dificuldade de entender o formato, porque realmente era uma coisa nova. Depois fui pesquisar na internet durante a feitura do disco, eu botava áudio-filme e não tinha nada, ninguém tinha feito uma coisa assim, juntando ambiente music com trilha de cinema, diálogo, música. Então eu também não sabia como fazer, estava tentando, mas o Bernardo ficou muito agoniado. Porque eu falei que as histórias tinham que ser bem pequenas, tipo minicontos, em que cada cena acaba em si própria, porque vai virar uma faixa de CD e a pessoa pode querer ouvir só aquela faixa. Mas ao mesmo tempo você tem que ligar uma cena a outra e no final ser uma coisa só. E eu tinha essa história, do cara pegar um avião, dormir e começar a ter um sonho dentro de outro sonho, dentro de outro (que veio daquele filme Interception, com o Leonardo Di
Caprio, que eu tinha visto há muito tempo e depois revi com meu filho). Mas aí chamei o Cuenca, que já era amigo, e ele embarcou na hora. Passei o desenho do argumento e ele já foi escrevendo as cenas.

E o projeto da Natura já vinha com o livro junto, mas a princípio era um livro de quadrinhos. Aí propus para o Coutinho. Ah, e tem uma coincidência legal na história: quando eu chamei o Cuenca, ele tinha acabado de fazer um filme, como diretor e ator, então era um cara que, assim como eu, estava tentando sair do seu universo; eu queria sair da música e o Cuenca quis sair da literatura. Então a gente levou a ideia toda, os textos, as músicas pro Coutinho, e ele falou: “eu topo, tenho a maior admiração por vocês dois, mas pô, tem uma premissa pra mim, eu não quero mais fazer quadrinhos, não aguento mais fazer quadrinhos”. Aí eu falei “então tu é a pessoa certa, aqui todo mundo não aguenta mais fazer o que já faz”.

 

C - Em uma crítica do Mauro Ferreira, ele diz que o único elo entre todos teus trabalhos é que todos os discos são obras autorais. Tu concordas? É uma escolha criar trabalhos diferentes entre si?

L – Eu acho que tem uma semelhança em tudo que eu faço que é essa sonoridade, assim. A construção... O ‘Modo Avião’ foi o máximo que eu cheguei disso, que é um áudio-filme, uma construção arquitetônica muito grande. Mas eu acho que todos os meus discos têm uma busca por essas construções de som. É você pegar uma canção no violão como se fosse uma pessoa nua e você pensar como vai vestir ela. Se o corpo daquela música precisa ter chapéu, se o chapéu vai ser verde ou branco, se vai ter colar ou não vai ter, se vai estar de calça, de saia ou de short. Construir essa arquitetura sempre foi o meu lance, sabe? Sempre me deu mais prazer, até mais que fazer as canções. Então acho que isso tem em todos os trabalhos. Mas realmente eles são bem distintos entre si.

 

C – E quanto ao próximo disco, tem algum resquício dessa pegada do ‘Modo Avião’ ou é outra parada?

L – Não, o próximo é um disco de voz e violão, assim. Não no esquema do ‘Sem Nostalgia’, que foi uma maneira de desconstruir o tradicional formato. Esse não: é eu tocando mesmo. Nesse sentido, mais pra ouvir de boa. Não é um disco de balada, pra ouvir na pista. O recado das letras nesse disco novo é muito forte, um pouco o que eu senti nesse momento de muita gritaria, todo mundo gritando e falando alto. Pensei que talvez fosse bom um disco que falasse bem baixo no ouvido das pessoas, que tirasse as pessoas dessa polarização, dessa guerra.

 

C – ‘Modo Avião’ fala um pouco da velocidade frenética dos nossos tempos. Tu tens um filho adolescente, certo? Como tu enxerga essa geração, hiperestimulada, que recebe muita informação de todos os lados? Será que a gente consegue alertar eles dos perigos disso, tudo?   

L – São várias coisas. Eu me preocupo. Até uma certa idade eu controlei os horários de uso dos eletrônicos, de ficar conectado. Agora, que ele vai fazer 17, já é mais difícil, a conversa é mais uma discussão, mesmo. O YouTube é um buraco sem fim, sempre vai ter alguma coisa pra ver... e tem muito lixo, tem que tomar cuidado, é muita informação, mas muita informação picotada. Por outro lado, essa geração, por exemplo meu filho e os amigos, eles têm muita cultura com a pouca idade. Uma cultura que eu não tinha. Não sei se pela internet, ou pelas escolas que estudaram, ele tem um conhecimento geral que com 16 anos eu tava muito longe de ter. E eu me pergunto até que ponto a internet não é interessante pra quem é curioso nesse sentido. Com 16 anos ele sabe quem são os irmãos Lumière, sabe? O que é uma pintura pontilista, ele sabe umas paradas que eu com 16 nem fazia ideia. E isso é superpositivo. Ele também joga muito videogame, usa uns controles com uns 16 botões... às vezes eu entro no quarto e fico olhando ele jogar, é muito chocante porque eu já tentei jogar e é outro tipo de cérebro, sabe? A gente não consegue dominar 16 botões ao mesmo tempo. Então tem esse lado também, que é normal na humanidade, você se baseia na sua geração, então acha que o novo é sempre destrutivo. Mas ele também vai ser construtivo, porque é isso, é um tipo de cérebro muito mais evoluído que o nosso. Então tem que ter esse cuidado, de dizer que tem história, tem muita coisa aqui fora que tá acontecendo, tem que trabalhar seu corpo - ao mesmo tempo tem que acreditar que aquilo ali vai gerar outras coisas que a gente desconhece.

 

C - Vi tuas indicações de Murakami, Alejandro Zambra e Svetlana Alexievich no teu instagram. A literatura inspira tua música?

L – Sim, sim. No disco novo, por exemplo, tem uma música que chama ‘Brasil Patriota’, que no final tem uma parte que tenta quase que compilar um livro chamado ‘Serpente Cósmica’, do antropólogo Jeremy Narby, que é muito interessante. Um dos livros mais legais que eu li no ano passado. E entra, sim, entra muito na minha música. Às vezes uma frase ou uma imagem, que a minha música é muito feita de construções de imagens pra explicar alguma coisa. E a literatura tem disso o tempo inteiro, né?

 

C - Tu pode dividir com a gente quais foram os discos e artistas fundamentais pra tua formação musical?

L – Todos, né? Muitos. Porque eu tive essa sorte da minha mãe trazer muitos discos diferentes, não fui o adolescente clássico que só ouviu reggae ou rock. Dos 12 até sempre eu ouço música clássica, adoro. Jazz já ouvi muito e hoje ouço pouco, é uma música que tenho mais dificuldade de voltar a ouvir. Música experimental ouço até hoje. A partir dos 30 anos que comecei a ouvir rock, não ouvia antes. Música jamaicana e africana eu ouvia sempre. É difícil até falar de artistas, por isso falei de estilos musicais, de escolas de som, porque é tanta gente, e tudo influencia, né? E hoje em dia no Spotify eu tenho umas playlists particulares que faço, mas lá busco mais coisas que sejam crossovers¹, sabe? Se eu começo a ouvir uma música que vejo que é afrobeat eu passo, se vejo que é um reggae eu passo. Quando começo a ouvir e não sei o que é e gosto, aí eu salvo, sabe? É meio uma pesquisa de como pessoas conseguiram juntar coisas de escolas diferentes, é basicamente o que eu pesquiso no Spotify.

 

C – E tu escuta música sempre no Spotify ou no vinil também?

L – Não, não escuto vinil, não, porque eu tenho filho, cara. Meus amigos que têm vinil, a quantidade de dinheiro que eles gastam nisso... eu sabia que não ia ter dinheiro pra gastar. Já gasto com meu filho. Falei que não ia entrar nessa e não entrei no vinil... E o Spotify pra pesquisar música é uma das melhores coisas que eu já vi na vida, assim. Comecei na internet, sei lá, em 2004, e teve uma época dos blogs musicais, que os caras colocavam músicas lá que não estavam em lugar nenhum, e eu gastava horas ali, pesquisando, indo de um link pra outro. Hoje em dia no Spotify você acha um cara legal e já tem os artistas relacionados que tem a ver com a música dele, é muito rápida a pesquisa, sabe? E também tem uma coisa engraçada, que como eu trabalho com música, fico o dia inteiro no estúdio, eu não ouço música na minha casa, gosto da minha casa em silêncio. Quando chego em casa, mesmo quando eu tô com um amigo que coloca música, eu preferia ficar em silêncio, com som ambiente. Então eu ouço música me locomovendo mesmo, quando vou pegar um metrô, um ônibus, um avião. E aí nesse sentido também o Spotify ajuda, né? Porque eu não preciso estar em um lugar físico pra ouvir as músicas.

 

¹ Crossover é um termo usado na música para designar canções que apresentam junções de dois ou mais gêneros musicais.

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