29 de agosto de 2019

|Poética #10| João Nunes Junior

Nascido em São Gabriel (RS), João lança em setembro 'A parte viva da noite', seu primeiro livro

Literatura

João Nunes Junior nasceu em maio de 1987 em São Gabriel (RS). Formado em direito, depois de algumas experiências como roteirista de cinema, lançará seu primeiro livro, “A parte viva da noite” (Diadorim editora) no dia 06 de setembro na Balada Literária (SP). Os poemas a seguir fazem parte dessa publicação de estreia do poeta.

 

a parte viva da noite

 

visto uma camisa azul

as oito e vinte e dois da manhã

de um dia supostamente

                                     útil

 

visto uma calça calço os sapatos

ajeito os cabelos

vejo-me no espelho

 

(o mesmo rosto

sempre outro)

 

quando nu momentos antes quem me visse

não diria se tratar

de alguém que em breve

numa reunião dirá

entre um gole d’água e um café

alguns argumentos calculará juros

pedirá alguns

dias para pensar

numa proposta melhor

 

antes – nu – misturado à escuridão do quarto

nenhum símbolo me acudia

nenhuma cortina de fumaça: eu era um bicho

cultivando na bexiga

uma bomba de urina amarela e azeda

que as oito e dois expeli

 

enquanto lentamente buscava

arredar o sono

e assumir como real esta rotina que me arrasta

vivo

por entre os entulhos

das horas

 

Visto-me para cobrir o dia

de alguma tinta que me faça

esquecer a notória

inutilidade dos rituais

quando

embora

o pano encardido no vermelho

do meu sangue

distraia o touro

 

já me feriram os chifres da morte

mas eu resisto

 

e entre convenções e promessas

sigo ferido

 

(é por esta fenda

que entram

e saem os dias?)

 

Afio as distrações que me vendem:

por vezes toco

a textura real

da vida

que me ocupa

como a areia ocupa

os dois polos de uma

ampulheta

 

(metade expectativa

metade lembrança:

algo que sobre o instante fino

se equilibra)

 

Me dissipo neste pequeno

labirinto

onde a cada esquina

renova-se

a esperança de uma

nova saída.

 

Sou o que me resta:

a parte viva da noite

O gosto do sono o hálito noturno

de um animal empunhado

contra o mundo.

 

Escovo os dentes. Dissipo

meu odor

humano – cubro

 

a tragédia

que me toma

 

esta verdade que não

quero mas sou

sob os intestinos

desta cena: um

homem que se veste

e pensa

em tudo o que

se inventa:

 

Criamos uma

membrana alegórica

para revestir

a realidade – para

nos absolver

das verdades que

não podemos carregar.

 

O que há de mais cru

do que

Este cheiro humano

Misturado

ao amaciante da camisa

ao cheiro

de combustão

ao odor artifical

de uma planta?

 

quando o ente

que pulsa grunhe

e sonha. Vive e

morre

simultaneamente

 

As noites vivas

em minhas veias

para sempre gemem

 

esferas quentes

alimentando os fornos

do coração – músculo

perecível

 

futuro alimento

de outros bichos

 

futura saudade

nas entranhas

do esquecimento.

 

Antes, contudo,

há esta festa. Esta

imensa maravilha

de rexistir

de extrair dos momentos

algum fascínio

algum alento

 

Sentir a vida escorrer

tranquila

como um rio

a ruir

pela extensão

finita

deste corpo

aceso

misturado

ao gosto

ao gozo

 

às luzes que

no balançar

do tempo

se acendem

 

O gosto bonito

das cores

 

Um ato

contra

o nada

 

Neste dia

exuberante

alheio

a qualquer

mistério

 

sair à rua

sentir no rosto

o ar - ver

os rostos

 

aquecer

nos pulmões

uma parte

efêmera do céu

depois outra

e mais outra

 

quantas daqui

até o fim?

 

Sorrir para

alguém

sentir-se

mais real

do que

qualquer

espécie de

divindade, do que

qualquer máquina.

 

Um ente capaz

de produzir

os próprios milagres:

 

um animal

disposto a lamber

as horas

e a adiar a fome

 

misturando

pesos e levezas;

 

preenchendo

de sentido

os espaços

        vazios.

 

 

Correspondências

A morte de Nicanor Parra me deixou sozinho.

O quarto se expandiu – planetas pareciam orbitar

ao redor da lâmpada sem força para iluminar isto de breu

que conservo entre os ossos.

O que ele me diria sobre o amor

se eu pudesse com ele dividir um vinho enquanto

lágrimas escorressem orgulhosas de mim

segurando-se no tecido do meu rosto para que

não fossem vistas. Do nascimento em diante

somos todos abandonados. É preciso construir a vida;

não nos ensinam, contudo, do que ela é feita.

Será de barro, de aço, de vidro?

Tu recebes a manhã embrulhada em um papel:

convém abrir o pacote? Ou guardas o volume

novo e sem uso em algum cômodo deste teu corpo

cravado na antessala das saudades?

Pega estas horas que despencam e faz tuas armas!,

talvez me dissesse. Diga a quem amas

que o desejo em ti apodrecerá

se não esconderes sob a terra de outro

corpo os teus beijos de homem perene.

Diga que duas solidões somadas são

mais importantes do que um infinito. Não deixes

que te abandone a vontade de ficar sobre

este mundo mesmo quando a ti chegar a mais decisiva

das horas. O quarto é teu amigo.

Deixa que o silêncio limpe as tuas feridas.

Tu és um filho do acaso – ele te receberá bem.

 

Moradia

um poeta tem intimidades com a loucura.

Riem dele quando fala: um par de olhos é terreno

suficiente para se fazer uma casa.

Poetas fazem casa sobre o nada, cochicham.

Nisto estão certos. Uma vez um deles me confessou:

amo-a porque nela os meus sorrisos se acomodam.

Concluí: felicidade é quando os sorrisos têm

onde morar.

 

Fotografia

era uma sala muito

muito branca

 

(inclusive os móveis

e os objetos inclusive a luz,

tudo estava tomado de um branco

espesso, quase um limo).

 

Ao fundo, estavas

sentado de preto,

uma boina

segurava o tempo

para que não

voasses para longe demais

do teu nascimento:

 

reconheço o teu rosto,

as nuances do teu corpo

ainda que a imagem

em mim dia a dia

embace

 

(a saudade é uma fenda

no tempo).

 

Teus lábios não mais

se movem, ainda assim

neles resiste

um resto de voz

(os últimos decibéis

de um apelo):

 

queres que eu diga

aos meus filhos

e aos que a eles sucederem

que foste o meu pai,

advogado,

homem bom,

 

que eu conte a eles

a textura do teu riso,

o sabor amigo

da tua barba

 

os pequenos grãos

ainda vivos

da tua história

 

para que assim não sejas

em breve simplesmente

a imagem vazia

de um homem sentado,

de pernas cruzadas,

olhando para alguém.

 

 

Verônica

 

quem me veja

atravessando a rua

não saberá

que carrego sobre

os passos

humanos o peso

íngreme

do teu nome

 

o teu nome

sustentando-se

misturando-te

às minhas formas

aos cheiros

que me tomam

ao gosto

secular que

o dia revela

mesmo quando é

supostamente inédito

 

o teu nome

preso a mim

trazendo-te

pela mão nestas

ruas onde

estaremos

os dois

para sempre

 

teu nome

mais que um

nome

alguém

 

uma forma

pulsando

sobre minhas

células

 

uma lembrança

na iminência

da mulher

 

de novo o teu nome

de novo o teu corpo

o corpo que carrega

um nome. O nome

que sustenta um corpo

 

 

tua presença

mais acesa do que

todas

as tardes

 

teu nome repetindo-se

até a exaustão

              do silêncio

 

teu nome em minha

boca como uma parte

de ti que jamais vai embora

 

teu gosto preso

ao ar que me alimenta

 

teu nome como

o telhado as paredes

a cama. A casa

onde escondo o meu

            refúgio.

 

 

 

Via Láctea

um homem sentado

um homem rodeado por todos

os seus objetos

na sala de um

apartamento onde as histórias

aguardam em silêncio

a vez de absorverem a saudade

 

um homem sentado

rodeado pela madrugada

e por tudo o que ela extrai

do solo humano

e expõe:

um homem sentado

 

ao seu redor a cidade

a cidade parcialmente adormecida

o silêncio evaporando de suas

ruas e avenidas

como os cheiros

emergem dos corpos

 

um homem sentado no intestino

de um pais

numa pequena capsula

a flutuar pelas entranhas

do universo:

 

um homem vivo

dentro do imenso espaço

desconhecido

e indiferente:

um homem sentado

contra a morte

um homem vivo

um homem irremediavelmente

vivo

sentado

enquanto as estrelas

afiam

os segredos

ao redor do que surgem

todos

os acontecimentos

 

um homem sentado

dentro do próprio

corpo

inventariando informações

e sentimentos

na ânsia de encontrar

algum tecido

que possa escondê-lo

destes mistérios

que nem paredes

ou vidraças

conseguem conter:

 

este homem:

 

não sou nada além

do que me resta.

 

Sentidos

 

te empresto

os meus olhos

ó vida

para que vejas

a generosidade

das horas matutinas

que não cessam

sem antes

pendurarem de novo

a cor

em todas

as coisas

 

te empresto

o meu corpo

para que sintas

a dor

o pânico

o desejo – um farelo

a soar

como poeira

misturada nas

retinas

 

ou para que sintas

o alívio

humano de quando

as coisas serenam

e os medos

respeitam a paz

 

A paz de uma dor

finalmente rendida

 

(o corpo é uma casa

que os deuses criaram para

dar abrigo aos desejos

que não podiam matar).

 

Te empresto

os meus braços

para que possas

tomar no colo

o que te seduz

a úmida verdade,

os sons

azuis. Quentes.

Vermelhos

ou finos. Isto

que aos

deuses não é

permitido

saber

 

hoje ou este

instante - uma manhã

de setembro

de um ano que

em breve se dissolverá

numa sequência

implacável

de tantos outros

que virão - não desaparecerá

completamente

como o meu corpo

 

alguém o contará

boca a boca

como um segredo

 

(afinal hoje

nasceu alguém

que será avô

de alguém)

 

Esta manhã singela

e acinzentada

em São Paulo, na América

Latina:

meu corpo acomodado

em um café

espera por algo

enquanto ouve a batida

de uma coelher

em uma xícara de café

 

Te empresto, vida,

o meu corpo para que sintas

o que há realmente de divino

                 em toda esta Ausência

 

para que vejas

o escorrer colorido

das horas

e te convenças de que

vale a pena

todo o esforço

 

(rins, músculos, pulmões, pâncreas)

 

e quando ouvimos

estes ruídos (o nosso ruído

pesando contra o piso) absorvidos

pelo silêncio

 

sabemos: Existimos

 

e isso nos distingue para

sempre

da solidão intransponível

dos objetos.

 

acender uma lâmpada

enquanto isso

é preciso seguir adiante

lavar o chão

preparar as mesas

deixar novamente prontas

para o uso

panelas pratos talheres

 

as manhãs não costumam

se atrasar.

 

Há algo que se guarda

do dia usado

 

farelos para sempre

escorrem

por pequenos orifícios

 

algo contudo

mesmo inconscientemente

resiste como

restos

que se somam

às nossas células

e formam

o que somos:

flores acesas

sobre

escombros.

 

epitáfio

a eternidade não pertence ao tempo.

 

-----

|POÉTICA| lugar aberto para poemas e falas de poetas é uma seção assinada por Fernando Ramos, idealizador e coordenador da FestiPoa Literária e curador de literatura da Clandestina. 

Compartilhe
GALERIA DE FOTOS