05 de agosto de 2019

Entrevista: Luedji Luna traz sua embarcação a Porto Alegre

Conversamos com a cantora e compositora baiana, em segunda passagem pela Capital com o show de "Um Corpo no Mundo"

Música

Entrevista: Amanda Zulke
Foto: Vitória Proença

 

 

Luedji Luna trouxe a Porto Alegre, no último sábado (3), o show de "Um Corpo no Mundo", álbum lançado em 2017. Fio condutor de sua carreira, a canção que dá nome ao álbum traduz a necessidade da artista, nascida em Salvador, de se conectar com sua ancestralidade e entender o lugar de seu corpo no mundo. De passos firmes e movimentos fluidos, a cantora e compositora baiana radicada em São Paulo subiu ao palco com a postura altiva de quem tem, hoje, desfrutado das próprias escolhas e do reconhecimento do público e da crítica de seu país.

No centro do palco do Opinião, acompanhada de uma grande banda - em número e qualidade -, Luedji apresentou canções que foram entoadas do início ao fim, como a música que dá nome ao disco, "Banho de Folhas" e "Acalanto". A última, inclusive, chegou aos ouvidos e olhos do mundo por meio de um vídeo no canal COLORS, projeto musical mundialmente reconhecido. Luedji é a segunda artista brasileira a participar de uma sessão no canal, que recebeu também a cantora Xênia França.

Inspirado em pautas como identidade e ancestralidade, "Um Corpo no Mundo" é, ao mesmo tempo, álbum de estreia de uma cantora em processo de descobrimento de si mesma enquanto artista e trabalho maduro de uma mulher que carrega profundidade, que escreve e canta sobre suas origens e suas buscas. Ainda inebriados pelo show e instigados pelo seu trabalho e sua persona, conversamos rapidamente com ela sobre temas como autoconfiança, música enquanto ofício e representatividade.

CLANDESTINA: Primeiro dizer que é uma coisa muito linda te ver no palco, dona de si, empoderada. Eu fiquei muito emocionada de te ver ao vivo. Em entrevista ao El País, tu falou que estava com a carreira bem planejada, bem pensada, e isso sendo uma artista independente, sem gravadora, sem produtor. E tu tá num lugar de destaque no cenário musical. Parece que uma dose de autoconfiança foi importante nesse processo. Eu queria saber como tu trabalhou isso, se é algo natural ou se foi uma construção.

LUEDJI LUNA: Não foi natural. Eu sempre fui muito insegura na verdade, fui uma criança muito insegura, uma adolescente muito insegura. Mas aí veio a maturidade se impondo. Eu acho que essa segurança teve que nascer por geração espontânea, pela necessidade, por ter escolhido um caminho sem muito apoio. Por ter sido muito julgada por ter escolhido a música e perceber que estava realmente sozinha, assim, sozinha na escolha, sozinha na cidade grande. Então essa segurança nasce a partir dessa necessidade.

Isso quando tu foi pra São Paulo?

Sim, isso.

E como foi pra ti a transformação da música enquanto refúgio, ou terapia, para ofício e escolha de vida? Quando se deu esse clique?

Foi com 25 anos e ainda morava em Salvador. Eu tava passando por um processo de cura realmente, de autoescuta, de entender de onde vem aquela tristeza, aquela depressão. E foi quase uma epifania, eu tava em casa e falei pra mim mesma que iria cantar independente do que acontecesse. Eu tava fazendo estágio e cursando direito e com o dinheiro do estágio eu comecei a fazer aula de canto e não parei mais, assim. Então, pra trajetória de boa parte dos artistas foi tarde pra escolher a música, 25 anos. Aí com 27 fui pra São Paulo e logo depois, com 30, lancei o primeiro disco.

Na Bahia tu chegou a fazer show, se apresentar?

Sim. Sempre cantei, sempre compus. Mas nessa fase dos 20 e poucos anos eu comecei a querer colocar isso pra fora. Eu me apresentei muito espaçadamente, não era algo que vivesse disso, não era nada profissional.

E o lance da representatividade: como foi essa lacuna pra ti de enxergar a mulher negra numa posição de destaque? Foi uma noção que tu tinha desde cedo, ou foi algo que tu foi te dando conta depois?

Eu venho de uma cidade e de uma família de mulheres livres, de mulheres militantes, de mulheres que fazem parte de movimento de bairro, movimento negro. E sempre tive essas mulheres como referência. Mas na música eu não encontrava isso. Eu sou de Salvador, na Bahia, onde o estilo mais propagado, que gera mais grana, que gera mais público e que tem uma indústria muito forte é o axé. Numa cidade que é 80% negra e as grandes divas do axé, as mulheres com mais destaque, são mulheres brancas. Mesmo no axé, uma coisa que eu nem queria fazer, mas que, teoricamente, eu deveria fazer por ser baiana e ter mais possibilidades, essa crise de referência existiu. Mas quando eu vi a Ellen Oléria ganhar o The Voice virou uma chave, assim. Perto dessa época que eu vi ela ganhar, sendo compositora, preta, gorda, sapatão, sendo respeitada pelo que ela faz, foi uma mudança de chave na minha mente e eu comecei a achar que era possível também.

Como tu se sente sendo uma dessas pessoas, sendo um ícone de representação para mulheres negras?
 

Eu me sinto responsável, mas eu sempre trago no meu discurso que não represento todas, nem quero. E não é o ideal termos uma figura única sendo porta-voz de toda uma subjetividade, de um conjunto de pessoas, porque não é mulher preta e sim, mulheres pretas, né? Um conjunto de vivências, de histórias, de experiências, narrativas, desejos, estilos musicais. Mas fico feliz em ser pelo menos o pontapé dessa pluralidade de vozes, porque eu não sou a preta que tá fazendo samba, como também não sou a preta que ta fazendo rap ou blackmusic, ou o que se espera de uma mulher preta. Então acho que surjo nesse sentido de entender que nós somos plurais e podemos fazer a bossa mais bossa, MPB mais MPB, o rock mais rock que a gente quiser.

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