02 de agosto de 2019

Entrevista: Clarice Falcão retorna a Porto Alegre com o álbum “Tem Conserto”

Conversamos com a artista sobre o novo álbum e seu processo de criação

Música

Entrevista: Mariana Moraes
Foto: Pedro Pinho

 

Hoje (02), a cantora Clarice Falcão sobe ao palco do Opinião para abrir a turnê do seu novo álbum “Tem Conserto”. Produzido por Lucas Paiva, o disco possui nove faixas próximas da sonoridade eletrônica. Além de apresentar as novas músicas, Clarice também promete apresentar seus antigos sucessos com uma nova roupagem. A artista vem a Capital através do Circuito Orelhas, iniciativa que vem promovendo shows de variados portes em diferentes palcos da cidade.

A Clandestina conversou com Clarice por telefone para saber todos os detalhes do novo álbum e seu processo de criação. Confira na entrevista abaixo:

 

CLANDESTINA: Amanhã acontece o primeiro show da turnê do álbum “Tem Concerto”. Esse disco tem uma sonoridade eletrônica, bem diferente dos álbuns anteriores. Como foi o processo de produção? Como você chegou nesse som?

CLARICE: Foi muito legal, eu comecei a curtir muito música eletrônica nos últimos anos e decidi que eu queria fazer um disco que tivesse essa sonoridade. Na verdade, é muito maneiro produzir música eletrônica, porque você não depende de estúdio, você não precisa gravar os instrumentos e tal, então eu e o Lucas de Paiva fizemos o disco todo da sala da minha casa. Fomos só nós dois fazendo tudo, e como eu sou independente, não tinha prazo com a gravadora, a gente pode tomar o nosso tempo.

Você se inspirou em outros artistas para a concepção desse álbum?

Não teve nenhuma uma inspiração direta. Tem muito de uma inspiração da cena eletrônica independente, inclusive o Lucas tem um selo de música eletrônica e toca muito nessas festas. Acho que termina tendo influência tanto de coisas mais antigas tipo New Order quanto coisas mais recentes como James Blake.

Como foi o processo criativo do álbum? Levando em conta que trata de temas delicados com a depressão, a ansiedade, além de ser um álbum muito mais pessoal e introspectivo. Como foi também trazer esse lado mais pessoal para o novo álbum?

Eu entendi que o álbum seria sobre isso depois de ter composto as primeiras músicas. Eu vi que era um tema que ficava voltando. Eu comecei a produzir o disco quando ainda não tinha todas as músicas. Isso foi outro lado bom de poder compor em casa e com tempo, deu para ir compondo as músicas enquanto eu fazia o disco, o que eu nunca tinha feito. Acho que isso ajudou também a ser uma coisa mais pessoal, porque eu não compus tudo e entreguei para alguém produzir, eu tava produzindo junto com o Lucas. Eu fui compondo de acordo com o que eu sentia que precisava. Acho que o álbum foi se formando com mais cuidado e com uma personalidade mais construída.

Como foi tratar sobre depressão e ansiedade no novo álbum?

Primeiro, foi algo muito natural. Compor as músicas foi algo que saiu. Depois eu fiquei muito em dúvida se eu falava que era sobre isso, se eu não falava, se eu deixava o disco falar sozinho. Eu pensei muito em talvez não deixar isso claro, deixar que as músicas falassem por elas. Mas depois eu comecei a pensar que já que eu estava falando desse assunto, eu tinha mesmo que dizer, porque eu achava que era importante não tratar esse assunto como tabu.

O álbum possui melodias bem dançantes, apesar das letras irem no sentido oposto, sendo mais melancólicas. Por que da escolha desse ritmo?

Eu sempre gostei muito de trabalhar com contraste. No Monomania, por exemplo, eu falo de matar pessoas com um violão fofinho e com uma voz doce. Eu achei que falar de depressão, coisas assim, com um quarteto de cordas tristíssimo seria um pouco uma redundância. Eu gosto muito quando você escuta uma coisa e você acha que é sobre um negócio e depois você vai prestar atenção e na verdade é sobre outro. Enfim, eu também sempre gostei muito de música dançante melancólica.

 

Algo bem marcante nos dois álbuns anteriores é a presença do humor, da ironia, que não estão presentes no “Tem Conserto”. O que levou você a se afastar dessa característica?

Eu acho que o assunto é mais sério. Eu sabia que o disco só ia funcionar se eu estivesse vulnerável, porque eu estou falando de vulnerabilidade, eu estou falando de angustia. Eu acho que se eu me protegesse atrás de piada, de humor, não teria a mesma força.

Cada vez mais artistas vem tratando de temas como a depressão nas suas músicas, causando identificação em muitas pessoas que ouvem. Como você avalia esse processo de identificação do público com a sua música?

É muito bom. Tem um pedaço de mim quando eu escrevo as coisas, quando eu componho. Eu fico pensando se eu não estou falando uma coisa que só eu estou sentindo. Quando você ouve do público, das pessoas em geral, “caraca, eu em sinto assim também”, eu me sinto menos solitária. Acho que é uma via de mão dupla. É uma sensação mútua. Quem escuta a música se sente menos solitário, eu, pelo menos, sempre me senti quando ouvia canções que falavam sobre o que eu estava passando. Mas eu também me sinto menos (solitária), quando eu ouço “pô, eu passo por isso também”.

Como artista, quais mudanças você percebe na Clarice dos álbuns anteriores em comparação a esse último? Você nota uma evolução?

Eu acho que sim. Eu estou muito mais no controle do que eu estou fazendo agora. Inclusive por isso, por não estar dependendo de ninguém. É eu e o Lucas, em casa.... Você tem mais controle do que está sendo feito com o seu trabalho. Acho que teve também essa coisa de ser um disco mais sincero. Eu acho que foi uma evolução que veio muito com a maturidade também.

Você pretende seguir essa linha da música eletrônica ou é uma fase?

Então, eu não sei. Eu acho muito difícil pensar em carreira. Eu nunca tive muito esse pensamento de onde eu quero estar, o que vai a próxima coisa que eu vou fazer. Eu faço muito do que eu estou sentindo no momento. Por enquanto, eu tenho gostado muito dessa sonoridade. É um disco que eu gosto das músicas, eu gosto de ouvir, de cantar essas músicas, dessa atmosfera, então se eu tivesse que fazer um novo disco hoje, eu faria um disco totalmente nessa vibe. Eu não sei, de repente daqui um ano, dois, quando eu fizer o próximo, talvez eu tenha mudado de ideia.

Das músicas do novo álbum, qual você gostou mais de escrever?

Eu acho que foi “Minha Cabeça”. Eu gostei muito de escrever ela, porque é a que eu mais me exponho. Acho que eu consegui descrever bem o que acontece na minha cabeça. De letra, é “Minha Cabeça”, com certeza. Como atmosfera, eu gosto muito de “CDJ”, dos arranjos.

Como foi construída a sonoridade dos shows da nova turnê? Considerando que são três álbuns bem particulares e diferentes sonoricamente.

Pois é, eu sabia que esse ia ser o maior desafio na hora do show. Eu não queria que de repente mudasse completamente o show, mas eu também não queria que as músicas perdessem a essência delas. Então foi um trabalho feito com muito cuidado para que tivesse a ver com o que estou fazendo hoje em dia, mas que tivesse a alma da música antiga. Quando você trabalha com sintetizador e com coisas eletrônicas, tem muita possibilidade. Quando você está com um violão, o som vai ser de um violão sempre. Quando você trabalha com música eletrônica, você pode fazer milhões de sons diferentes. Termina que não é tão difícil fazer coisas que se aproximem dos álbuns antigos, com uma roupagem mais parecida do que eu estou fazendo hoje.

Nessa mudança para a música eletrônica, você não teve medo da recepção dos fãs?

Pois é, eu sabia que algumas pessoas iam falar “pô, delirante”, mas eu queria muito fazer uma coisa que fosse genuína. Eu sempre fiz coisas que eram muito verdade para mim no momento. Quando eu fiz Monomania era porque eu gostava muito, e ainda gosto, de folk. Eu fazer um disco só tentando mimetizar o que já fiz ia soar falso. Nem eu ia gostar de entrar em turnê, ficar cantando as músicas, então eu fiz muito uma coisa que era verdade para mim e estou muito feliz com o resultado. Teve gente que falou “ah, não gosto mais tanto”, mas quem gosta, gosta muito, então eu estou bem satisfeita.

O nome do álbum é “Tem Conserto”, o que seria dentro da narrativa do álbum esse “conserto”?

Eu acho que é mais um “conserto” de que cada um tem o seu. É mais uma vontade de falar “cara, ta difícil, mas vamos tentar se consertar”. Eu termino inclusive com “vai que eu sou o meu conserto”. Eu acho que tem que partir da gente uma vontade de se curar. É muito difícil a gente se curar das coisas se não começa por uma vontade genuína de sair daquilo.

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