30 de julho de 2019

Entrevista: escritor Reginaldo Pujol fala sobre seu novo livro 'Não, não é bem isso'

Fernando Ramos conversou com o autor, que lança obra pela Não Editora

Literatura

No dia 5 de agosto, próxima segunda-feira, a partir das 19h, Reginaldo Pujol Filho autografa Não, não é bem isso, na livraria Taverna. Sobre o livro e alguns assuntos relacionados à escrita, Reginaldo falou para a Clandestina em bate-papo por e-mail com Fernando Ramos.

 

CLANDESTINA - "Azar do personagem" (contos), "Quero ser Reginaldo Pujol Filho" (contos) e "Só faltou o título" (romance) são muito diferentes deste teu novo livro, a começar pelo fato, presente nesse e não nos outros, de que cada um dos doze contos é diferente um do outro, em tema e forma (um lance massa das surpresas do novo livro: a gente vai lendo e não sabe direito pra onde o texto, o parágrafo ou a cena, vai; também não sabe que tipo de bicho/texto vem na próxima história), e também pelo motivo de que tu busca fugir duma unidade e duma "dicção ficcional" única, ou seja, tu foge da ideia de uma voz autoral característica. Achei muito massa essa ideia do livro, já a partir do título e epígrafe (“é aquilo que estamos sempre desejando para as palavras, escrevendo, para logo depois saber que não, não é bem isso”) do Sérgio Sant'anna, de que o "fracasso" do trabalho de escrita é a energia criativa que movimenta a tua criação, a rotina diária de escrita, enfim. Como leitor prefiro sempre essas incertezas, saber que minha leitura fracassa também, que coisas me escapam, que vou ter que voltar parágrafos, ou páginas, reler e olhar várias vezes o texto, olhar fixo, atravessado, espantando, enfim, reler coisas para dar conta do que estou lendo. Mas me conta como foi o processo de escrita dos textos, escolhas etc e fala um pouco sobre essa ideia de "fracasso".

Reginaldo Pujol Filho - Fico feliz que o livro esteja alcançando esse tipo de recepção, nessa sua tentativa de união pela diferença. Digo isso, porque foi uma aposta que fiz ao reunir esses textos. Uma aposta até contra certas certezas minhas. Sempre fui um defensor de livros com unidade. Sou fã de muitos deles. Livros que não sejam um apanhado aleatório de contos. E acho que, como tu mesmo cita, meus projetos anteriores demonstram isso. Só que quando comecei a montar o Não, não é bem isso, a observar o que eu já tinha de produção até aquele momento, não sei explicar bem, mas alguma coisa me incomodou. Talvez até nesse âmbito eu estivesse incomodado com essa ideia de me repetir. Lembro que comecei a buscar unidades, semelhanças possíveis e a imaginar textos girando ao redor de temáticas, de formas, etc., e as sensações eram um pouco de “lá vamos nós de novo fazer um projeto com unidade explícita”. Um certo cansaço desse modo de pensar. Havia outros livros possíveis. Mas não me convenciam, não me entusiasmavam. E reforço: não estou falando mal dos “livros com projeto”. Já disse, sou fã de vários. Então, talvez com esse sentimento de cansaço dos meus próprios processos, tive essa experiência também nova de olhar para um conjunto de textos meus que se formou ao longo de um período extenso, mais ou menos de 10 anos de trabalho. Pude meio que ser um crítico dessa trajetória e assim perceber nela esse instinto de fuga que me parece ser o norte, ou um dos nortes da minha escrita. Essa fuga de um estilo, de uma cristalização, da repetição temática ou formal. E é possível dizer que aí resida a ideia do fracasso como motor da criação, quero dizer, ao terminar um texto, ao chegar numa versão razoavelmente final dele, já não quero mais escrever ele. Acho que, em alguma medida, isso passa com todo mundo que escreve e segue escrevendo. Mesmo quem se aprofunda numa voz, mesmo quem se entrega obsessivamente a um tema, também ao terminar, vê um certo fracasso: ainda não consegui o efeito exato que buscava, ainda não disse aquilo que queria dizer do modo como senti que poderia ser dito. E aí é tentar de novo. Porque se ficássemos 100% satisfeitos com o resultado, talvez não houvesse mais porque escrever, talvez fosse preciso começar a pintar, a plantar flores.

 

CLANDESTINA - Como é que tu trabalha na escrita de textos curtos, contos, narrativas breves? Qual a tua busca ao iniciar a escrita dum texto nesse formato curto?

Reginaldo - Difícil dizer. Cada texto é um processo, um problema diferente. Muitas vezes é uma questão de forma. Me pergunto se seria possível contar algo, narrar a partir de determinada forma e aí vou atrás do que poderia ser narrado deste modo. Mas também existe esse meu jeito de estar no mundo, que é um tanto cansativo às vezes, que é quase cindido. Passo muito tempo imaginando possibilidades para o que está ao meu redor, para o que estou lendo, para as histórias que me contam. Então posso pensar, “tá mas o que aconteceu nos quarenta dias do dilúvio que não estão narrados na bíblia?” ou, “e se esse cara aí sentado na cadeira de vigilante enchesse o saco de vez da sua situação?”. São perguntas, que evidentemente não vêm tão organizadinhas assim, mas que disparam uma série de outras perguntas e a imaginação. Muitas delas viram textos, tentativas. Outras tantas ficam ricocheteando na cabeça. Mas acho que eu não tenho uma especificidade de processo para o texto curto. Os pontos de partida, os gatilhos costumam ser muito semelhantes entre um texto breve e um texto mais longo. Primeiro vem a motivação da escrita e depois vou descobrindo o tamanho que a coisa vai ter. Se bem que, muitas vezes, desafiar a extensão pode ser um dos motores da escrita. O texto SAI, que está no livro, tem um pouco a ver com isso. Pensei primeiro no conteúdo, e se os humanos passassem a ser infectados por vírus de computador? E depois comecei a pensar em como contar isso. E era um momento em que não estava muito interessado numa narrativa romanesca, de criar personagens, determinar enredos, conflitos, etc. Eu poderia ter feito todo um romance, com a Síndrome da Amnésia Induzida sendo o pano de fundo. Alguém se infecta, mas não sabe. Em outro lugar do mundo, um hacker (já que está na moda) cria um vírus. Um cientista sei lá o quê. As histórias se cruzam. Uma distopia. Mas eu não queria tudo isso. Queria apenas pensar sobre a pergunta. E aí veio a segunda pergunta: como dar conta disso brevemente e sem todo esse processo típico da escrita de ficção. Aí fui batalhar a forma. Deu no que deu. Mas como vê, não tenho as coisas bem claras. Esses processos são sempre um tanto ficcionais, porque vamos tentando elaborar depois, é uma reconstrução. Ah, sim: é importante dizer, e até em elogio ao mundo das oficinas e dos cursos de criação literária, que há uma parcela de textos do livro que partiram de estímulos, provocações, seja de oficinas frequentadas, seja do mestrado e doutorado em Escrita Criativa que cursei na PUCRS. E digo em elogio, porque, se o livro tem todos esses caminhos variados, esses testes de hipóteses, etc., parece que isso contradiz aquele lugar-comum sobre pasteurização da escrita em cursos de criação literária.

 

CLANDESTINA - Tu é um escritor que dá muitos cursos e oficinas aqui em Porto Alegre e fora também. Um dos teus cursos mais procurados e que teve já muitas edições é o "Quem está falando?", que é um laboratório de criação de narradores literários. Essas experiências de trabalhar com alunos, escritores iniciantes, etc, contribuiram em que sentido para a tua escrita? Que caminhos, impasses, ideias, surgem a partir dessas vivências?

Reginaldo - É difícil mensurar essas coisas. Mas esse espaço da aula e também sua ante-sala, a preparação de uma aula me parecem ambientes muito potentes para se pensar a nossa escrita, nossas noções de literatura, o que nos inquieta, o que nos desafia. Sempre disse que, quando eu era aluno das oficinas do Charles Kiefer, aprendi muito comentando os textos dos colegas. Claro, os comentários que recebia, as lições do Kiefer, eram valiosos. Mas o exercício de prestar atenção ao texto de outra pessoa, tentar entender suas motivações e, assim, perceber o que ali me incomodava, o que ali me entusiasmava e tentar passar isso com inteligibilidade para a autora ou o autor era um tremendo exercício de tomada de consciência a respeito das minhas ideias sobre escrita literária. E o trabalho do oficineiro diante dos alunos não vai num caminho muito diferente. Como não trabalho com fórmulas, exigindo que as coisas sejam feitas de um determinado modo, estou sempre exposto à surpresa, a um texto – mesmo que num exercício mínimo de 5 linhas, feito rapidamente – surpreendente. E preciso elaborar essas surpresas, preciso debater com a turma os efeitos, as hipóteses geradas, possibilidades que cada texto sugere. Nesse sentido, esse trabalho, me ocorre agora, é uma extensão do esforço que eu fazia na condição de aluno. E é evidente que segue moldando minhas ideias sobre escrita. Aliás, outro impacto na escrita pode ser a ideia que tenho sobre trabalhar com criação literária. Explico: não quero nunca dizer como se deve fazer, quero estar sempre aberto a cada projeto novo de cada aluna, de cada aluno, tentar entendê-los, buscar potencializar. E esse esforço de abertura constante parece – e isto pode ser uma tremenda bobagem de alguém tentando responder a uma entrevista – que reflete no modo de lidar com minha própria escrita, como já comentamos nas outras perguntas.

 

CLANDESTINA - Uma coisa que não é fácil é achar a medida precisa do humor em narrativas curtas. Mas tu domina muito bem tecnicamente o uso do humor em todos os textos nos quais ele é necessário. Essa é uma característica bem marcada da tua escrita, que já aparece no teu primeiro livro de forma bem eficaz. Como é que tu procura trabalhar o humor nos teus contos? Que desafios tu te propõe nesse ponto?

Reginaldo - Como leitor, como espectador, acho que eu sempre gostei muito de humor. Seja nos gibis da Turma da Mônica que eu lia quando criança, nos Simpsons que assisti desde o primeiro episódio na TV, na leitura de Luis Fernando Verissimo desde os 12 anos, na adoração pela TV Pirata (embora eu só devesse entender uns 10%), na descoberta de Monty Python ou do narrador do Machado de Assis, em diversas referências que tenho da formação do meu gosto há as mais variadas formas de humor. Então acho que comecei a escrever, entre outras motivações, para fazer humor. Esse é o ponto de partida. Mas, com o tempo, com mais leituras, muitas referências, a conversa e o encontro com tanta gente que vai aparecendo no caminho, a vida real que tem nos dado tanta porrada, esse humor foi tomando variadas formas. Mas acho que nunca deixa de ser uma ferramenta poderosa para propor assuntos, derrubar resistências e defesas das outras pessoas. Claro, não estou falando da piada pela piada. O Julio Cortazar, num livro excelente, que compila aulas que ele deu em Berkley faz uma distinção muito legal entre cômico e humor. Na divisão dele, cômico poderia ser entendido como Jerry Lewis e humor como Woody Allen. E tanto ele como eu não depreciamos nem tiramos valor do cômico, ou supervalorizamos o humor. Mas o ponto talvez seja que o cômico é aquele provocador do riso imediato e cujos efeitos acabam com o fim da gargalhada. E o humor, que muitas vezes é agridoce, acaba nem sendo tão engraçado, quando nos damos conta do motivo da risada ou porque acessa espaços da nossa mente que estavam meio adormecidos e, quando vemos, estamos pensando sobre o que não queríamos ou sobre o que não víamos. O humor pode ser muito revelador do ridículo do estabelecido, do esquisito das normas, do absurdo do que é sério e engravatado. Tu diz que uso bem isso. E fico feliz em saber. Porque não é definitivamente algo racional, decidido. Quer dizer, vez ou outra é, especialmente quando te pedem um texto para determinado fim, mas na produção própria, na escrita de um livro, é um balanço que vai acontecendo. E um desafio constante é a tal da medida. Como não saturar, qual a medida que cada texto, cada criação exige? E, na verdade, se começamos falando de fracasso, é sabido que essas perguntas que fiz fatalmente levarão ao fracasso. O humor é algo muito mágico no sentido da conexão que estabelece com quem lê. E de como isso, como todo ato de leitura, mas talvez mais intensamente no humor, é totalmente particular. Não foram poucas as vezes em que li textos em voz alta em eventos e que pensava “aqui o pessoal vai rir” e, lido o trecho – escrito decididamente para ser engraçado – ninguém ria. E então, numa parte julgada mais morna, surgia uma risada na plateia, ou um monte de gente ria. Penso agora: o riso da plateia como uma espécie de crítica literária que revela pontos desconhecidos do texto para o próprio autor.

CLANDESTINA - As questões políticas atuais te inquietam no sentido de procurar elaborá-las e refleti-las na tua literatura? Ou seja, a realidade mais “concreta” é interessante como material pra tua ficção? 

Reginaldo - Acho que essa é uma pergunta inevitável no período doente no qual estamos vivendo. E tenho pensado que essa é a dor e a angústia de muita gente que se dedica a escrever, especialmente, ficção. Digo isso, por dois motivos. Um é a sensação de que é preciso dizer, que é preciso fazer alguma coisa. Mas se presta a literatura de ficção, o romance, o conto, a narrativa para fazer este tipo de enfrentamento frontal, literal e explícito ao que está acontecendo? O tempo da criação literária no âmbito da narrativa costuma ser lento ou ao menos mais lento do que outras manifestações. É o tempo da observação, da decantação, da reflexão, e só então o tempo da escrita em si – sei de pessoas que já escreveram, no sentido de botar letras no papel ou na tela, livros em um mês, mas o mais comum é levar meio ano, um ano, dois anos, ou mais. E como esse ritmo pode lidar com a velocidade absurda do Queiroz até esse decreto 666 que saiu na semana passada e tudo o que aconteceu no meio disso? É mais ou menos como querer elaborar estética e reflexivamente um nocaute enquanto se apanha os murros que levam ao nocaute. Escrever apanhando nas cordas. E o outro motivo dessa angústia é o Tá bem, então vou fazer uma novela sobre tudo isso, escrever em tempo real, tentar dar conta disso em tempo recorde, e aí? Onde entra a literatura nisso tudo? Acho que é uma pergunta que muita gente tem se feito e eu tenho me feito e não tenho respostas. Há duas semanas, quando estive em Olinda lançando o livro, debati isso com alguns escritores e escritoras locais. Lembro de Sidney Rocha frisando sobre esse tempo do literário, da decantação, da busca do modo para lidar com isso tudo. Lembro de Samarone Lima dizendo que talvez estejamos mesmo é precisando de ficções e poesia para suportar. Concordo com os dois e com mais um punhado de opiniões e sigo em dúvida, perdido mesmo. O período eleitoral do ano passado me fez pensar num livro, digamos, imediatista. Tomei algumas notas, mas não comecei – até porque estava terminando um doutorado até fevereiro. Mas tenho outra ideia para uma ficção que, talvez, por ser menos explícita, tenha mais leituras e possibilidades de gerar discussões. Será? Não sei. O que sei, ou acho que sei, em relação ao que está no Não, não é bem isso, é que os textos foram escritos, em primeira versão, até 2017. Então, frontalmente, sobre o hoje, não há nenhum comentário direto. Porém, o momento presente me fez sentir certa urgência de colocar alguns textos que ali estão para leitura, discussão, ver o que eles dizem para outras pessoas. Acho que alguns, escritos, por exemplo, no calor de junho de 2013, se ressignificaram, ganharam outras leituras agora. Mas acho que, objetivamente, não tem sido minha prática essa adoção da “realidade mais concreta”, como tu diz, para trabalhar em meus textos. Acho que os sentimentos, as perguntas, os estranhamentos que essa realidade me provoca estão, sim, na minha escrita. Mas isso vale para a realidade mais concreta da política de Brasília e da política da calçada, ver como as pessoas caminham, se olham, conversam entre si. Estranhar isso também faz parte, e muito, do modo como começo textos, narrativas.

 

CLANDESTINA - Nesse sentido, trabalhar ficção a partir dum fato, por exemplo, o desastre do submarino russo Kursk ocorrido em 2000 te proporcionou que desafios? Podia comentar a ideia e a concepção do texto “O que não saberemos”?

Reginaldo - É curioso falar desse texto, porque é um trabalho de várias camadas e começa de um jeito muito, mas muito pragmático. Eu frequentava na PUCRS um grupo de criação literária, que era bem interessante, porque tinha uma ideia de estudar teoria, conceitos, noções de literatura a partir da prática. Então resolvemos estudar romance histórico. Lemos sobre o assunto, debatemos, estudamos. E depois o desafio era cada participante escrever uma narrativa breve de cunho histórico. Cada um de nós propôs um tema histórico para servir de mote para a criação e estes temas foram sorteados, cada um recebendo um tema-desafio para escrever. O curioso é que eu sugeri o naufrágio do Kursk e, no sorteio, ganhei o naufrágio do Kursk. E aí veio a bronca, porque é uma história cheia de pontos de sombra, de coincidências, de teoria da conspiração, em que o próprio relato daqueles dias de agosto de 2000 parece absurdamente ficcional. Pôr-se a pesquisar o que aconteceu com o Kursk é um convite à obsessão. São histórias e versões e boatos ao redor desse evento, que tem a maior cara de guerra fria, embora tenha acontecido na borda desse século 21. Mas não sei bem reconstruir como se deu essa escrita. Lembro de ter testado outras ideias e alternativas. Mas de algum modo, me tocou essa ideia do tanto que nunca saberemos, desse jogo de versões, de misturar entre as não afirmações do texto fatos frutos de notas oficiais, de fontes jornalísticas, de especulações alheias e de invenções minhas. E colocar tudo isso no mesmo plano de validade, sem indicar o que é real e o que não é real. Em algum momento das pesquisas sobre o tema, me deparei com algumas fotos instigantes do episódio, que pareciam ser muito eloquentes sobre tudo o que se passou. E, numa primeira versão do texto, trabalhei com fotos jornalísticas. Mas quando comecei a entender melhor o que eu tinha escrito, resolvi embaralhar também as coisas no âmbito da imagem, que é um terreno muito delicado quando pensamos em informação, jornalismo e história. E fica cada vez mais movediço com a facilidade com que hoje qualquer criança faz uma montagem razoavelmente crível. Os apagamentos fotográficos do regime stalinista hoje são brincadeira de uma criança com um celular na mão. Mas talvez o desafio central do texto tenha sido o que contar e essa opção por contar não contando, ou descontando, nesse ritmo labiríntico, desinformante. Aliás, de algum modo retomando a pergunta anterior, esse é um texto que, para mim, passado (passado não, iniciado) esse escândalo das fake news (expressão que detesto e uso apenas por não ter ainda uma melhor para lidar com isso) se repotencializou, transcendeu suas motivações iniciais. Esse controle da informação, a manipulação, essa colocação de interesses tão abstratos por sobre a realidade doída dos fatos, parece jogar muito para questões atuais. Se pensarmos bem, o controle que o governo russo tentou manter sobre a história do naufrágio, pensando inclusive em termos de propaganda e imagem do poder russo, não é diferente do atual presidente do Brasil dizendo que os aterradores dados divulgados sobre desmatamento da Amazônia não podem pegá-lo de surpresa, que ele precisa saber antes para não pegar mal, não fazer propaganda negativa do país. É possível que daqui uns anos se olhe para esse nosso tempo e se possa escrever muitos O que não saberemos, não saberemos quem pagou essa farra do Whatsapp, não saberemos onde esteve Queiroz, não saberemos quem matou Marielle, não saberemos o que aconteceu com o solo, com o alimento, com a saúde dos brasileiros, não saberemos. 

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Livro Não, não é bem isso

Reginaldo Pujol Filho

160 páginas

R$ 44,90

Não editora
 

Autor
Reginaldo nasceu em Porto Alegre/RS em 1980. É autor dos livros Azar do Personagem (Não Editora, 2007), Quero Ser Reginaldo Pujol Filho (Não Editora, 2010) e Só Faltou o Título (Record, 2015), além do e-book O que é barco, o que é casa, o que é mundo (E-galáxias, 2014). Tem contos em revistas, jornais, sites e coletâneas e organizou a antologia Desacordo Ortográfico (Não Editora, 2009 e Livro do Dia, 2010), lançada no Brasil e Portugal. Tem no currículo, colaborações editorias em jornais e revistas com resenhas literárias, ensaios e matérias e também roteiros de curta-metragem. É pós-graduado em Artes da Escrita pela Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Escrita Criativa pela PUCRS, onde está cursando o doutorado na mesma área. É curador e professor do Curso .TXT da Escola Perestroika. Também ministra periodicamente o laboratório intensivo de criação de narradores Quem está falando? O narrador com personalidade, que oferece uma versão à distância na escola portuguesa Escrita Criativa On Line. Também é responsável pela curadoria da Coleção Gira, de literatura de língua portuguesa não brasileira da Editora Dublinense. 

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