05 de julho de 2019

|Poética #9 | Angélica Freitas

Nascida em Pelotas-RS, Angélica é autora de ‘Rilke Shake’ e ‘Um útero é do tamanho de um punho’

Literatura

Angélica Freitas nasceu em Pelotas-RS, em 1973. É autora dos livros de poemas “Rilke Shake” (publicado em 2007 pela coleção Ás de Colete, 7Letras e Cosac Naify), e “Um útero é do tamanho de um punho” (Cosac Naify, 2012, Cia das Letras, 2017) e da HQ “Guadalupe” (Cia das Letras, 2012), em parceria com Odyr Bernardi. Os poemas a seguir são de “Rilke Shake”, “Um útero é do tamanho de um punho” e dos zines “Canções de atormentar” e “Coisas que voam”, que Angélica compõe em performance poético-musical com Juliana Perdigão, compositora e cantora mineira.

 

o que passou pela cabeça do violinista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra & seu stradivárius no grande desastre aéreo de ontem

 



mi
eu penso em béla bartók
eu penso em rita lee
eu penso no stradivárius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso


mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three

 

família vende tudo

família vende tudo
um avô com muito uso
um limoeiro
um cachorro cego de um olho
família vende tudo
por bem pouco dinheiro
um sofá de três lugares
três molduras circulares
família vende tudo
um pai engravatado
depois desempregado
e uma mãe cada vez mais gorda
do seu lado
família vende tudo
um número de telefone
tantas vezes cortado
um carrinho de supermercado
família vende tudo
uma empregada batista
uma prima surrealista
uma ascendência italiana & golpista
família vende tudo
trinta carcaças de peru (do natal)
e a fitinha que amarraram no pé do júnior
no hospital
família vende tudo
as crianças se formaram
o pai faliu
deve grana para o banco do brasil
vai ser uma grande desova
a casa era do avô
mas o avô tá com o pé na cova
família vende tudo
então já viu
no fim dá quinhentos contos
pra cada um
o júnior vai reformar a piscina
o pai vai abrir um negócio escuso
e pagar a vila alpina
pro seu pai com muito uso
família vende tudo
preços abaixo do mercado

 

l’enfance de l’art

porque eu perdia a pose mamãe me deu uma cadeira
elegante de veludo burgundy. três anos no balé tutus e
tafetás e ainda perdia a pose.
mamãe disse vou comprar uma cadeira para que pelo
menos sente elegantemente. papai chegava tarde e ao
me ver sentada lendo pedro nava suspirava e tirava
trollope da estante. “leia os clássicos,
é importante.” era o entendimento de papai o self-made
man o marido de mamãe a de quatro sobrenomes.
daí a minha aversão a heráldica e estofados.
daí por que nunca li chaucer antes.

 

sereia a sério

o cruel era que por mais bela
por mais que os rasgos ostentassem
fidelíssimas genéticas aristocráticas
e as mãos fossem hábeis
no manejo de bordados e frangos assados
e os cabelos atestassem
pentes de tartaruga e grande cuidado
a perplexidade seria sempre
com o rabo da sereia
não quero contar a história
depois de andersen & co
todos conhecem as agruras
primeiro o desejo impossível
pelo príncipe (boneco em traje de gala)
depois a consciência
de uma macumba poderosa
em troca deixa-se algo
a voz, o hímen elástico
a carteira de sócia do méditerranée
são duros os procedimentos
bípedes femininas se enganam
imputando a saltos altos
a dor mais acertada à altivez
pois
a sereia pisa em facas quando usa os pés
e quem a leva a sério?
melhor seria um final
em que voltasse ao rabo original
e jamais se depilasse
em vez do elefante dançando no cérebro
quando ela encontra o príncipe
e dos 36 dedos
que brotam quando ela estende a mão

 

uma canção popular (séc. XIX- XX):

uma mulher incomoda
é interditada
levada para o depósito
das mulheres que incomodam

loucas louquinhas
tantãs da cabeça
ataduras banhos frios
descargas elétricas

são porcas permanentes
mas como descobrem os maridos
enriquecidos subitamente
as porcas loucas trancafiadas
são muito convenientes

interna, enterra

 

**
era uma vez uma mulher que não perdia
a chance de enfiar o dedo no ânus

no próprio ou no dos outros

o polegar, o indicador, o médio
o anular ou o mindinho

sentia-se bem com o mindinho

nos outros, era sempre o médio
por ela, enfiava logo o polegar

não, nenhuma consequência

 

mulher depois

queridos pai e mãe
tô escrevendo da tailândia
é um país fascinante
tem até elefante
e umas praias bem bacanas

mas tô aqui por outras coisas
embora adore fazer turismo
pai, lembra quando você dizia
que eu parecia uma guria
e a mãe pedia: deixem disso?

pois agora eu virei mulher
me operei e virei mulher
não precisa me aceitar
não precisa nem me olhar
mas agora eu sou mulher

 

**

ah, se eu fosse uma sereia
teria mais o que fazer
do que ficar cantando pra eles
do que tentar seduzi-los

nem assoviaria, não
ao ver caravelas passar
em seu mar plano, seu mundo quadrado
no máximo um espirro, no máximo um bocejo

lá vão eles, atarefados
pilhando tudo, matando todos
a serviço do rei, do estômago
a serviço do sr. Pinto

nem assoviaria, não
ao ver caravelas passar
em seu mar plano, seu mundo quadrado
no máximo um espirro, no máximo um bocejo
 

**

um padre pode voar
um padre é uma coisa que voa
especialmente
ah especialmente se atado
a mil balões de hélio
e se as cores que o transportam
são laranja branco e vermelho
balões num emaranhado
feito ovo de sapo
um padre foi feito para andar no chão
ser rasteiro como um sapo
mas não
acontece que padre é uma coisa que voa
o padre não se preocupou com o ridículo
quem se preocupa com o ridículo
não voa
não levanta do chão
e você sabe que o ser humano
nasceu para brilhar
o ser humano é uma coisa que voa
nas imagens de celular
o padre e seus balões são um cacho de uva
que desaparece entre nuvens

 

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|POÉTICA| lugar aberto para poemas e falas de poetas é uma seção assinada por Fernando Ramos, idealizador e coordenador da FestiPoa Literária e curador de literatura da Clandestina. 

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