02 de julho de 2019

Vitor Ramil alça voo por nova geografia poética

Em entrevista à revista Clandestina, músico fala sobre 'Avenida Angélica', show com canções compostas a partir dos poemas de Angélica Freitas

Música

Texto e entrevista: Fernando Ramos
Foto: Marcelo Soares/Divulgação

 

Neste final de semana (5 a 7 de julho), Vitor Ramil vai mostrar em primeira mão as canções que está compondo a partir dos poemas de Angélica Freitas, mais especificamente dos livros "Rilke Shake" e "Um útero é do tamanho de um punho". O repertório é inédito, com exceção da canção "Stradivarius", lançada no álbum Campos Neutrais (2017). Em formato solo, voz e violões, o intimista e experimental "Avenida Angélica" apresenta uma obra em progresso, embrião de um futuro trabalho a ser gravado que será inteiramente dedicado à poesia da autora pelotense, hoje radicada em São Paulo. O espetáculo tem concepção visual e cenografia de Isabel Ramil, que já trabalhou com Vitor em diversos shows.

Vitor começou a musicar os versos de Angélica em 2008, depois de conhecer o primeiro livro dela, “Rilke shake”. Na época, a poeta morava na Holanda, mas não demoraria a voltar para Pelotas para viver a uma quadra da casa de Vitor - até então tinham sido vizinhos por muitos anos, sem nunca terem se encontrado. Nesse novo momento de proximidade o trabalho de parceria se intensificou e consolidou, e Vitor passou a ser cada vez mais um entusiasmado admirador da poesia de Angélica.

Serão três noites no Theatro São Pedro para curtir um show que o próprio Vitor define como uma “experiência única”, em novo momento de sua vida profissional. Confira a entrevista concedida para a Clandestina.

 

Quando tu leu a poesia da Angélica pela primeira vez o que bateu de cara, te causou impressão mais forte?

Li o primeiro poema e já enxerguei música, foi instantâneo. Acho que o poema que despertou isso foi “o que passou pela cabeça do violinista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra & seu stradivárius no grande desastre aéreo de ontem” (do livro “Rilke Shake”), que musiquei e gravei no disco “Campos neutrais” com o título “Stradivarius”. Estava em São Paulo quando ganhei o livro (“Rilke shake”) de presente do meu editor na Cosac & Naify, e chegando no hotel fui ler ao acaso algum poema e me chamou muito atenção a musicalidade desse primeiro poema que li. Outra coisa que me causou muita impressão foi aquele traço característico dela, de tirar poesia de todo assunto - coisas banais, cotidianas, podem ser transformadas em poesia, algo muito parecido com o jeito do poeta norte-americano William Carlos Williams. Achei um traço de grande frescor na poesia dela. Não sei se alguém já fez esta associação: a poesia da Angélica pela leveza e humor me remete a Manuel Bandeira. Não sei se a Angélica gosta ou não da poesia do Bandeira. Não se trata de influência ou não, mas talvez de referência, ou uma inspiração natural, acho. E é uma poesia muito musical. Todas essas coisas me atraíram imediatamente para a poesia dela.

 

Os poemas da Angélica têm um lance especial que já mobiliza pra compor canções de imediato? Como tu define esse encontro da tua música com a poesia dela?

Isso é bem difícil de explicar. Imagino que há poetas que despertam inspiração pra compor em alguns compositores e outros não. Isso é normal acontecer. No meu caso, os primeiros poemas da Angélica que li já dispararam música na cabeça. Mas só vim a compor um tempo depois. O primeiro poema que musiquei foi “vida aérea”. Aí acontecem aquelas coisas que não se explicam bem: um dia estava lendo o livro dela, com o violão do lado, quando li “vida aérea” peguei o violão, fui cantando e já compondo a música. Logo que musiquei esse poema, pensei em mandar pra ela a canção, pra ver o que ela achava e tal. O Augusto Massi (meu editor na Cosac & Naify) me deu o contato dela, mas na época a Angélica estava na Holanda, de mudança pra Argentina. Trocamos algumas mensagens, mas só nos encontramos depois que ela voltou a morar em Pelotas e, por coincidência, seria minha vizinha de rua. Na volta dum show, viajando de Pelotas para Porto Alegre, com violão no banco de trás da van, abri o livro e fiz duas músicas para os poemas “r.c” e “família vende tudo”. Musiquei um atrás do outro. Daí me dei conta de como eu estava internalizando a poesia dela, digamos assim, estava embebido pelos poemas. Bem, depois fiz “stradivarius” e foi indo. Não era algo de “vou musicar a obra dela”, fui fazendo naturalmente. E continuo fazendo músicas, trabalhando também nas que já fiz. Esse show vai ser uma primeira mostra das coisas que já fiz e duma maneira nova de apresentar para o público, ou seja, não gravar um disco e apresentar em show já algo consumado. É um trabalho em processo ainda.

 

Dum modo diferente de, por exemplo, como foi o “délibáb” (disco de canções de poemas musicados de Jorge Luis Borges e João da Cunha Vargas)?

O “délibáb” não. O “Campos neutrais”, sim. O “délibáb” foi um processo meio parecido com “Avenida Angélica”. Eu tinha a maior parte das músicas, que tinha apresentado num show chamado “Borges da Cunha Vargas Ramil” na Casa de Cultura Mario Quintana. Uns dois anos depois, fiz o mesmo show no Theatro São Pedro, daí com o Carlos Moscardini tocando junto, foi quando ganhou forma o “délibáb”. O disco foi se fazendo assim em shows, mostrando as músicas e o processo ao vivo em contato com o público. É um processo de que eu gosto muito. Gosto das duas formas de trabalhar a realização dum disco – ou no processo bem aberto, apresentando em shows as coisas em construção, com erros, mudanças, ajustes, etc, ou fazendo algo concebido antes e apresentar no palco depois, como foi o caso de “Campos Neutrais”. Agora, em “Avenida Angélica”, acho que é ainda mais em aberto. A gente também está nesse momento que não se sabe se grava um disco, se divulga só nas plataformas digitais, não se sabe mais exatamente qual o suporte de difusão da música. Então, não sei se gravo uma música e faço um filme dela ou se, no caso do show ficar bom demais, gravamos todo ele filmando e divulgamos na internet. Estou totalmente aberto ao momento.

 

Com que ideias tu trabalhou na criação das canções quanto a harmonias, melodias ou mesmo gêneros musicais?

Uma coisa é certa nesse trabalho de musicar os poemas da Angélica: ela me tirou da zona de conforto. Acho que esse show pra muita gente vai ter muita novidade. Tem um poema que li e na hora pensei “isto é um samba”, daí fiz um samba. De outro fiz um blues, o poema já pedia um blues. Um blues meio brincalhão. Outra, por exemplo, “a mulher de rollers”, que é uma canção com uma pegada mais pop. E outras são, digamos assim, mais tipicamente minhas – como a própria “stradivarius”. O que acho interessante na poesia da Angélica é que ela – talvez por ter na formação a coisa de ouvir muito rádio quando guria –  é muito influenciada pela música popular, por exemplo Rita Lee, que ela cita volta e meia como uma referência (a Angélica chegou a cogitar que a Rita Lee escrevesse o prefácio do livro “Um útero é do tamanho de um punho”, se não me engano). Acho que isso acabou me influenciando, me levando a fazer coisas que todo compositor popular começa fazendo - a maioria dos compositores ouve rádio, deseja colocar músicas “nas paradas”, coisas assim mais diretas do mundo da música popular. E eu sempre passei ao largo disso, nunca gostei muito de ouvir rádio, ouvia LPs, estava numa outra conexão com a música gravada. Então, a Angélica me colocou um pouco nesse caminho. Por exemplo, o poema “r.c”, quando fui musicar, fiz uma música assim “meio Roberto Carlos”, entende?  E isso aconteceu em quase todo o repertório. Essas coisas definem um traço desse trabalho. Como se eu tivesse me multiplicado.

 

E isso é um pouco curioso porque estamos num momento de mudanças no esquema rádio. Não se sabe muito como o rádio vai ser daqui pra frente. Estações de rádios fechando, pouca gente ouvindo música no rádio hoje em dia, a nova geração praticamente não conhece mais o que é rádio, ouve música só nas mídias digitais.

Exatamente. A música está acessível por muitos lados. Absolutamente pulverizada. A poesia da Angélica está muito marcada pela música popular. Pra mim a experiência está sendo maravilhosa. Eu gosto de a dada altura me desacomodar, digamos assim. Fiz uma série de trabalhos assim “super” Vitor Ramil, no sentido de estar cada vez mais entrando na minha própria linguagem e agora com a Angélica (talvez até por eu ter passado por esse processo anterior, que não sei se a gente pode chamar de amadurecimento), é como se eu estivesse pronto para lidar tanto com a poesia dela como também com outros gêneros musicais, sem me preocupar muito. Estou curtindo e desfrutando duma forma mais leve. Acho que esse trabalho novo vai surpreender muita gente.

 

O título do show surge de qual ideia? O que o público vai conhecer no passeio pela avenida Angélica?

Surgiu do poema que abre o show, “ringues polifônicos”. O quarto verso desse poema diz “alça voo a aventura na avenida angélica”. Ela está falando de SP, mas está falando dela mesma evidentemente. Achei isso perfeito para o nome do show. Então, eu tenho mais ou menos assim na minha história, e acaba sempre aparecendo, uma certa fixação em lugares, espaços físicos e geográficos. Não sei porque, mas eu gosto de me situar digamos assim. Quando li esse poema, pensei “opa, esse nome é bom”. Porque é como se eu tivesse realmente alçando voo, a minha aventura pela avenida angélica estivesse começando, achei o nome mais adequado.

 

A parte cenográfica e de luz também vai aparecer de modo diferente de outros shows teus? Como a Isabel está trabalhando contigo?

A Isabel é sempre surpreendente no trabalho, nunca é óbvio ou literal o que ela faz. A parte de cenografia, vídeos, iluminação, ela está traduzindo muito o que há no espírito dos poemas, levando para o palco atmosferas das letras. Acho que vai ficar um espetáculo bastante vanguardista de certo modo. E delicado também. Terá um lado “plástico” forte, mas numa medida que não atrapalhe o público de prestar atenção nas letras também, numa coisa que é totalmente nova. Vai ser uma experiência única, algo novo totalmente, uma convocação de todos os sentidos, digamos assim. O show é uma obra em progresso. Estamos fazendo assim agora, mas talvez nos próximos vamos mudar coisas, alterar cenário, luz, etc. É muito prazeroso trabalhar dessa forma. E esse show tem um pouco o significado de virada de página dum momento, tanto da minha vida profissional como pessoal.

 

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Vitor Ramil em 'Avenida Angélica'

datas e horários

5, 6 e 7 de julho de 2019 (sexta, sábado e domingo)
sexta e sábado às 21h e domingo às 18h.

local
Theatro São Pedro – Porto Alegre (Praça Mal. Deodoro, s/nº)

ingressos
À venda na bilheteria ou pelo site https://vendas.teatrosaopedro.com.br
Valores: Plateia: R$ 130,00,  Cadeiras Extras: R$ 130,00, Camarote Central: R$ 120,00, Camarote Lateral: R$ 80,00, Galerias: R$ 40,00
20% para professores

realização
Satolep Music e Ramil e Uma Produções

produção local
Cida Cultural

apoio cultural
Fundação Ecarta, FM Cultura, All Sings, Cozinha do Mão, restaurante Mantra, Restaurante Pedrini, Restaurante Al Nur

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