28 de maio de 2019

Uma doutora Honoris Causa nos palcos do país

Entrevistamos Elza Soares, diva da música brasileira, que trouxe o show de “Deus é Mulher” no último sábado (25) a Porto Alegre

Música

Texto e entrevista: Amanda Zulke
Foto: Vitória Proença
Apoio: Vinícius Angeli

 

Elza Soares é um acontecimento. A beira dos 90 anos - não há certeza sobre sua data de nascimento -, a cantora, rainha da música brasileira, faz shows com duas horas de duração, esbanja uma voz inigualável, leva uma obra atual e provocante aos quatro cantos do país, fala sobre lutar pelos direitos do povo e não economiza no afeto. Chama o público de “meu amor”, segura a mão da entrevistadora do início ao fim da conversa e não cansa de agradecer. Ela é Elza Gomes da Conceição, nascida na favela de Moça Bonita, Rio de Janeiro, filha de uma lavadeira e um operário, eleita a cantora brasileira do milênio pela Rádio BBC de Londres, em 1999, e a mais nova Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – título entregue em um Salão de Atos lotado de representatividade negra no último domingo, 26 de maio.

A distinção, sugerida pelo Departamento de Difusão Cultural e proposta pelo Instituto de Artes, teve aprovação unânime em sessão solene do Conselho Universitário da UFRGS. “Eu sou bisneta e neta de escravos. A minha bisavó Henriqueta foi escrava, a minha avó foi escrava, a minha mãe, Rosária, pegou o finalzinho da escravatura. Estou eu aqui representando elas, com muito orgulho e respeito”, relembrou a cantora na cerimônia, visivelmente emocionada. Na mesma noite, o ensaísta, professor e compositor Zé Miguel Wisnik conversou com Elza, reeditando o projeto Coisas Essenciais da Vida, que reuniu os dois artistas no mesmo salão, 16 anos atrás.

D’Elza Mulher

No dia anterior, Elza provocou outra catarse coletiva no show do seu mais recente álbum, “Deus É Mulher”, no Bar Opinião. A obra, misto de denúncia e celebração, traz temas caros e urgentes ao país – seu “lugar de fala”, como conta a música “O Que Se Cala”. Livre como é sua autora, o disco abraça distintas referências musicais e dialoga com uma juventude que parece entender seu papel em um país ainda extremamente racista e desigual. Para uma cantora com mais de 60 anos de carreira e uma história pessoal marcada por sofrimento (Elza perdeu quatro filhos e o amor de sua vida, o jogador de futebol Mané Garricha), “Deus é Mulher” demonstra que a voz, a energia e o compromisso com as pautas políticas são alicerces quase inabaláveis de uma das maiores cantoras brasileiras.

No quinto país que mais mata mulheres, ela convoca a plateia a repetir “180”, número da Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, e entoa “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, encorajando uma leva a denunciar e sair de relações abusivas. Ciente de que parte da sociedade brasileira não reconhece o amor LGBT, essa senhora nascida na década de 30 comemora no palco a criminalização da homofobia. Enquanto a sociedade deslegitima a autoridade da mulher sobre seu próprio corpo, ela canta sobre os líquidos femininos em “Banho”, letra de Tulipa Ruiz: “Acordo maré / Durmo cachoeira / Embaixo sou doce / Em cima, salgada”. Como dona de seus desejos, com ânsia de que sejamos todas também, Elza desmistifica: “eu quero dar pra você”, “eu quero comer você”. De olhos grudados no palco, uma multidão unida pelo deslumbramento que ela causa aplaude efusivamente.

Altiva, embora cansada, Elza recebeu a equipe da revista Clandestina para uma entrevista após o show. Afetuosa e atenciosa, a cantora conversou sobre o título que ganharia no dia seguinte, a importância da educação e a união entre mulheres.

 

CLANDESTINA - Elza, obrigada por esse show e pela tua existência. Como foi o show de hoje?

ELZA - Ai, hoje eu estou muito emocionada, nossa. Estou embargada, com a voz embargada.

Dizer da alegria imensa, enquanto gaúcha, mulher, antirracista, de te ver dona de um Honoris Causa entregue pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul...

Pois, é. Obrigada, meu amor. Você sabe que aqui foi o primeiro lugar que eu fiz meu show profissional, né? Foi num bondinho. Quem me trouxe aqui foi Lupicínio Rodrigues, entendeu? Eles não sabem, eles não pegaram esse trâmite (apontando para os produtores). Né, Pedro? Na época do bondinho vocês não eram nem nascidos.

Tu ganhas o título justamente num momento bem controverso da política brasileira, em que a educação não tem sido valorizada como deveria. Como foi a notícia pra ti?

Me deixou como estou agora, né? Muito emocionada. Eu que venho brigando muito, lutando e pedindo muito pela educação nesse país. Um país bem educado. E nós não temos educação nenhuma. Precisamos de educação, de saúde, precisamos de cultura. Entendeu? E eu grito: “a gente precisa de saúde, precisa de educação, precisa de escolas públicas”. Eu me admiro um país como o nosso, tão rico, que enriquece muita gente e empobrece muita gente também. Então a minha luta é contra isso, essa coisa horrorosa que está acontecendo no país agora. Aí eu fico me perguntando: “a culpa é nossa?”.

Mas tu tens feito muito mais que teu trabalho, né?

Tenho, tenho feito meu trabalho. Mas acho que a gente tem uma culpa muito grande, porque a gente não sabe lutar pelos nossos direitos, sabe?

E tu acha que nós, mulheres, não estamos mais unidas, gritando mais forte?

Agora, agora. Eu já sinto felicidade em vê-las mais unidas. Porque até então a mulher não tinha união nenhuma. Mulher era muito inimiga de mulher, era uma coisa absurda. Hoje a gente já vê que mulher tá mais amiga de mulher, graças a Deus. Meu grito, de ficar rouca, é pra pedir a união entre as mulheres... o dia que elas se conscientizarem que essa união vai fortalecer o mundo, tudo muda.

Tu tens uma história de vida muito linda, sofrida, claro, mas muito rica de sucesso, encontros, amores, e uma obra imensa que circula por todos os cantos. Como é a sensação de ter uma vida tão plena?

É um caminho sangrento, né? Eu venho arrastando os pés pelos pregos e pelas pedras para chegar em um lado melhor. Mas valeu muito meu sangramento, meus pés esfolados, pra que eu entendesse o que é uma luta. O que é uma vida.  

Sobre as tuas parcerias na música, tem muita gente nova boa que está do teu lado, né?

Muita. Tem essa música, “Dentro de Cada Um”, que é do Pedro Loureiro, meu empresário. E tem os meninos da banda, que são maravilhosos. Lindos, lindos.

É uma atitude generosa tua de dividir esse processo, não é?

Ah, eu divido. Divido mesmo. Não posso ser egoísta, não sou sozinha. Sozinha não faria nada.

A gente te vê esplendorosa no palco, mas sabemos que tu tens a coluna operada, sente dores. Como tu lidas com isso?

Lido com os meninos que me apoiam, o Pedro Loureiro, o Juliano Almeida, o Wesley Pachu. Com ajuda. E uma força incrível, graças a Deus.

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