22 de maio de 2019

Ralé batalha de um homem só: um olhar sobre 'R.A.L.E - Realidade Apropriada Libera Evidência' (AL)

Espetáculo foi apresentado dentro da programação do festival Palco Giratório

Artes Visuais

Texto: Lais Auler

 

Ralé batalha de um homem só

A peça "R.A.L.E - Realidade Apropriada Libera Evidência" teve única apresentação no dia 9 de maio, dentro do 14º Festival Palco Giratório, em Porto Alegre. O espetáculo desenvolvido pela Cia Jessé Batista, de Alagoas, foi criado a partir de reflexões e questionamentos sobre desigualdades sociais e espaços possíveis para a expressão de corpos moldados por realidades tão distintas.

Jessé Batista é b.boy, intérprete criador, artista, dançarino licenciado pela Universidade Federal de Alagoas e assina a criação, direção, pesquisa e coreografia da peça. Depois de um longo trabalho de estudo e experimentação, o alagoano se propôs a um desafio: trazer para o ambiente do palco uma apresentação inspirada em movimentos e conceitos das danças de rua. Em especial o hip hop e o breaking, modalidades que pratica há 16 anos.

Segundo a sinopse de "R.A.L.E", o "espetáculo trata de um corpo aprisionado por um sentido político que desfavorece um terço da imensa população brasileira". Para o encenador, é a discussão a respeito de um mero corpo, o qual é construído com dispêndio de energia muscular em meio a diferentes lugares de constante movimento em uma cidade desigual. Principalmente em ambientes nos quais um dos maiores desafios do ser humano é, justamente, sustentar-se em seu próprio corpo.

No início do espetáculo, Jessé traça linhas no chão de madeira com diferentes cores de giz para quadro negro. Linhas interrompidas por círculos pintados com a ajuda da plateia, a qual se acomoda no chão delimitando um espaço cênico circular. As linhas demarcam um território que se cruza, intersecciona, muda de cor e rumos, e esboçam um território, um novo espaço que acolhe a realização de ações dançantes. O desenho que fica no chão se assemelha a uma rosa dos ventos que possibilita e norteia locomoções.

Não é à toa que no repertório da apresentação há diferentes, e sutis, elementos das batalhas de hip hop e breaking, além da repetição de movimentos e deslocamentos. Movimentações, muitas vezes, cambaleantes e sem rumo aparente de um corpo que tenta se encaixar em um novo espaço, mas que não consegue esconder os trajetos que percorreu. Da periferia à cidade. Das batalhas em praças públicas aos palcos do teatro.

Naquele ambiente contido e silencioso, totalmente distinto da rua, há um bailarino que desabafa através dos gestos, que criam também uma sonoridade específica para cada ação. Uma dança traçada pelo ritmo da dinâmica dos pés, embalada pelo som do atrito da sola de borracha na madeira riscada. Há uma pessoa que, mesmo de cabeça para baixo, não esconde o esforço para se manter erguido em um território tão incerto. E muito menos disfarça as quedas abruptas de quem vive invertido.

R.A.L.E é um espetáculo que traz o universo das batalhas de breaking realizadas nas ruas de espaços urbanos e marginalizados para dentro de um espaço fechado e controlado. É a vez de o público de teatro assistir, sentado no chão, à batalha de um homem sozinho, de um corpo que luta pela sua existência e sustentação. De um bailarino que dança conforme a música da cidade, embalado pelo ritmo dos seus pés, duelando contra o lugar imposto para ele e a sua própria vontade de viver.

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